Premier League

Compra do Newcastle foi a gota d´água para a saída do presidente da Premier League, Gary Hoffman

Com experiência em bancos, Hoffman havia assumido a presidência não executiva da liga em abril de 2020 e anunciou que sairá ao fim do próximo mês de janeiro

A aprovação da venda do Newcastle para um consórcio liderado pelo governo da Arábia Saudita erodiu a pouca confiança que restava entre os clubes e o presidente da Premier League, Gary Hoffman, que anunciou nesta quarta-feira que deixará o cargo ao fim de janeiro do próximo ano, após um curto e tumultuado mandato.

Hoffman havia trabalhado em bancos, como o Barclays, ex-patrocinador da Premier League, e conduzido o Northern Rock, nacionalizado após a crise financeira de 2008, antes de assumir a presidência não-executiva da liga mais rica do mundo em abril de 2020, no lugar de Claudia Arney, mandatária interina que tocava o barco depois da saída de Richard Scudamore.

Em cerca de um ano e meio, Hoffman precisou lidar com uma série de situações que o fizeram ter saudade dos sub-primes: os impactos financeiros da pandemia, negociações por resgate às divisões inferiores, quando abrir ou não as portas dos estádios, o projeto Big Picture (em que o Big Six tentou tomar mais poder), a Superliga Europeia (em que 12 clubes tentaram dinamitar a pirâmide do futebol europeu) e a polêmica venda do Newcastle.

Esse último caso foi a gota d’água. Os clubes não gostaram da maneira como ele conduziu a reviravolta da aquisição que havia sido bloqueada pela liga em um primeiro momento. Eles teriam sido notificados por um e-mail escrito por Hoffman apenas depois das notícias sobre o negócio terem caído na imprensa, quando era tarde demais para que houvesse uma movimentação coletiva para interrompê-lo novamente.

Segundo a The Athletic, a Superliga Europeia havia colocado Hoffman sob os holofotes e “em assuntos como aquele e a aquisição do Newcastle, vários executivos não acham que o investidor tem o peso necessário do ponto de vista de governança, política e comunicação”. O aviso por e-mail foi recebido como a “gota d’água na confiança” que os clubes tinham no presidente, “especialmente fora do Big Six”, como descreveu o Guardian.

Os 19 clubes que não são propriedade da Arábia Saudita se reuniram em meados de outubro para receber explicações de Hoffman sobre os motivos que o levaram a aprovar o negócio. Em público, a Premier League afirmou que recebeu garantias de que o governo saudita não “controlará” o Newcastle, o que é conversa para boi dormir porque o Fundo Público de Investimento, principal acionista do consórcio, é presidido pelo príncipe Mohamed Bin Salman.

O negócio também foi aprovado depois o governo saudita se mexeu para fechar uma rede de transmissões pirata que desafiava os direitos comprados pela beIn, do Catar, uma das principais parceiras econômicas da Premier League. A principal reclamação dos clubes é a falta de comunicação. A liga insiste que precisava preservar o sigilo do negócio, mas Hoffman teria quebrado esse sigilo mesmo assim na reunião de outubro ao revelar o que lhe foi dito pelo governo britânico sobre a compra, algo que poderia “prejudicar as relações com a Arábia Saudita”. Segundo a The Athletic, o executivo-chefe Richard Masters teve que intervir.

A pressão que cresceu naquela reunião de outubro gerou uma votação de confiança informal entre os clubes semana passada, sem a presença de Hoffman. Ele não passou. De acordo com o Guardian, os integrantes da Premier League ainda têm confiança no CEO, Richard Masters. “Foi um privilégio liderar a Premier League ao longo das últimas duas temporadas, quando o espírito do futebol inglês foi mais importante do que nunca. Agora, decidi que a hora é certa para renunciar e permitir que novas lideranças conduzam a liga nesta nova próxima fase empolgante”, disse Hoffman.

A Premier League agradeceu os seus serviços. “Ele liderou a liga durante o período mais desafiador da sua história e a deixa em uma posição mais forte do que nunca. O processo de nomeação de um novo presidente começará imediatamente”, afirmou.

A oposição da maioria dos clubes da elite inglesa à compra do Newcastle foi expressa na aprovação provisória de uma lei, mês passado, que proíbe acordos comerciais que estejam associados com a propriedade dos clubes. Dezoito clubes votaram a favor. O City se absteve. Eles se reunirão novamente em 30 de novembro para tentar passar uma proposta permanente. Todos os acordos comerciais seriam submetidos à diretoria da Premier League, que avaliaria se há o envolvimento de alguma parte envolvida e principalmente se o valor se adequa ao mercado.

Acordos superfaturados de patrocínio com empresas do Catar e dos Emirados Árabes, como a Etihad, foram uma ferramenta comum para que Paris Saint-Germain e Manchester City conseguissem driblar as regras do Fair Play Financeiro porque permitem que os Estados que sustentam esses clubes injetem dinheiro de uma maneira aparentemente legal. Esse mecanismo apareceu em e-mails vazados pelo Football Leaks e foi o principal alvo de investigações da Uefa que acabaram gerando punições, como a exclusão do City das competições europeiasposteriormente revertida na CAS.

Segundo a The Athletic, a principal oposição à compra do Newcastle pelos sauditas saiu de clubes que acreditam que suas chances de sucesso no topo da tabela serão prejudicadas e por clubes preocupados com o rebaixamento porque um dos seus adversário contra a queda ganhou um novo poder de investimento. Diretorias com CEOs femininos, como Everton, Leicester e West Ham, foram as que levantaram mais preocupações morais. A Arábia Saudita tem um governo autoritário que sistematicamente oprime mulheres.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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