Premier League

Fiasco da Superliga abriu os olhos do governo britânico, que irá examinar governança do futebol no país

Secretário de Estado do Reino Unido, Oliver Dowden diz que fracasso da proposta é só o começo, e mesmo um modelo de gestão similar ao alemão está no radar

Os proprietários bilionários dos seis maiores clubes da Premier League achavam ter encontrado na Superliga uma maneira de continuar seu crescimento insustentável de receitas, mas acabaram atraindo escrutínio para o problema que representam ao futebol. Com apoio do governo britânico, a partir da pressão da sociedade civil, a FA conseguiu dissuadir os seis dissidentes do projeto, mas Oliver Dowden, secretário de Estado para Cultura, Mídia e Esporte do Reino Unido, vê a batalha apenas em seu início. Dowden afirma que a governança do futebol no país será examinada pelo governo, e mesmo um modelo de gestão como o 50% + 1 do futebol alemão estaria em pauta.

Na segunda-feira (19), no rescaldo imediato do anúncio da Superliga, Dowden havia lançado uma revisão governamental sobre o futebol, uma promessa de campanha do governo conservador durante as eleições de 2019. Esta iniciativa irá examinar a sustentabilidade financeira do esporte, o caminho das finanças no futebol em diferentes níveis, os méritos de um regulador independente e como os torcedores podem ter sua voz mais ouvida na gestão do esporte.

Em entrevista à Sky News já após o anúncio da debandada dos clubes ingleses da Superliga, Dowden destacou que o governo não permitiria que “nosso esporte nacional seja tirado de nós por lucro”. “Ele faz parte da nossa herança nacional da mesma maneira que nossas casas de campo, nossas galerias, nossos museus, nossos teatros, nossas catedrais. E nós, como governo, faremos o que for preciso para protegê-lo”, garantiu o secretário.

Ao lado de Boris Johnson, premiê britânico, Dowden se reuniu virtualmente com representantes de torcidas para ouvi-los. O secretário comemorou a interação com grupos de torcedores ao longo dos dois dias em que a ideia da Superliga esteve de pé e o papel desempenhado pelos apaixonados por futebol na derrocada do projeto: “Faço homenagem a todos os torcedores. Vimos na noite passada com os torcedores do Chelsea que eles não tolerariam isso, e estou feliz de que os clubes tenham ouvido”.

Dowden destacou que é importante que este não seja o fim do processo, mas, sim, o início de um debate por mudanças que resguardem o futebol inglês. “Precisamos examinar a governança mais ampla do futebol, ver como lidamos com a governança local, a finança do futebol e, claro, toda a experiência do torcedor”, defendeu.

Neste sentido, o secretário de Estado afirma que a ideia de os torcedores terem uma fatia dos clubes da mesma maneira que os alemães seria também considerada, sem especificar como isso poderia ser feito.

“Os clubes alemães não participaram desta proposta (de Superliga). Um dos pontos que (os torcedores) apresentaram para mim quando o primeiro-ministro e eu nos encontramos com eles foi o fato de que havia essa fatia financeira. Acho que devemos olhar para isso. O investimento internacional no futebol tem sido algo bom, aumentou a qualidade do jogo, dos jogadores, de tudo. Mas acho que o certo a se fazer é que vejamos como os torcedores podem ter uma fatia no esporte”, contou à Sky News.

A articulação dos 12 clubes fundadores da Superliga foi tão unanimemente mal recebida que possibilitou ao governo de Boris Johnson uma vitória simbólica relativamente fácil. Desde a apresentação dos planos, os conservadores se posicionaram contra a proposta, cientes do transtorno causado a boa parte de sua base de eleitores.

Em reunião com representantes da FA e da Premier League, conforme revelado pelo Guardian, o governo britânico garantiu o apoio necessário às entidades para deter os planos da Superliga, mesmo que isso implicasse alterar leis sobre concorrência em vigor.

Independentemente de como toda essa nova discussão acabe, o fato é que a gestão problemática desses grandes clubes, que era uma questão já bem conhecida, mas que perfurava de forma menos latente a discussão pública, agora está com todos os holofotes sobre si.

Foi significativo ao modelo alemão que seus clubes tenham, desde cedo, declarado sua oposição aos planos da Superliga. O modelo 50%+1, que já era admirado, agora ganhou um status ainda mais elevado entre os torcedores, que deverão concentrar seus esforços pela implementação de algo parecido na Inglaterra.

Mesmo que este objetivo final não se realize, a discussão que o cerca pode ainda assim levar a melhorias, conduzindo a novas formas de resguardar os clubes de decisões unilaterais de bilionários pouco preocupados com os efeitos esportivos e sociais de suas decisões.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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