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Subiu no telhado: após saída dos ingleses, Superliga diz que vai “reconsiderar e remodelar” o seu projeto

A Superliga emitiu uma nota deixando claro que a competição não seguirá em frente da maneira como foi anunciada

A Superliga Europeia, da maneira como foi anunciada no último domingo, durou cerca de 48 horas. Nesta terça-feira, o projeto megalomaníaco dos 12 principais clubes do continente emitiu uma nota oficial dizendo que vai “reconsiderar os passos apropriados para remodelar o projeto”, após a debandada dos clubes ingleses e sinalizações de que Barcelona, Milan e Internazionale fariam o mesmo.

Manchester City, Liverpool, Manchester United, Tottenham, Arsenal e Chelsea, todos os seis clubes ingleses envolvidos na criação da Superliga Europeia, anunciaram nesta terça-feira que estão fora do projeto.

Já era difícil imaginar que o projeto seguiria em frente sem a liga mais rica da Europa, mas, em questão de horas, o The Athletic publicou que o Milan também estaria de saída. O New York Times acrescentou a Internazionale à debandada e, segundo o jornal catalão Sport, o Barcelona estava debatendo internamente se também renunciaria à sua participação no projeto para criar uma competição paralela à Champions League na qual teriam vaga cativa.

Dessa maneira, restariam apenas o Real Madrid, cujo presidente Florentino Pérez também é o principal executivo da Superliga e que deu uma entrevista, digamos, controversa na última segunda-feira, e o Atlético de Madrid, que também foi alvo de rumores e notícias de bastidores de que estaria balançando na sua convicção no começo desta terça-feira.

Não foi, portanto, surpresa, quando Tariq Panja, excelente repórter de bastidores do futebol no New York Times, publicou durante a noite que uma autoridade sênior de um dos integrantes da Superliga afirmou que todo o projeto havia sido suspenso, o prenúncio de uma rápida implosão em cerca de 48 horas.

Pouco depois, a Superliga emitiu um comunicado em que não dá o braço a torcer, nem anuncia categoricamente que a competição está cancelada ou suspensa, mas afirma que, “dadas às circunstâncias”, terá que reavaliar o modelo do seu projeto. O que deixa claro que, por enquanto, da maneira como foi anunciada no domingo, ele não seguirá em frente.

“A Superliga Europeia está convencida que o atual status quo do futebol europeu precisa mudar. Estamos propondo uma nova competição europeia porque o atual sistema não funciona. Nossa proposta busca permitir que o esporte evolua e gere recursos e estabilidade para toda a pirâmide do futebol, incluindo ajudas para superar as dificuldades financeiras de toda a comunidade do futebol causadas pela pandemia”, afirmou.

“Também ofereceria pagamentos maiores de solidariedade a todos os acionistas do futebol. Apesar do anúncio da saída dos clubes ingleses, forçada por pressões externas, estamos convencidos que nossa proposta está totalmente alinhada com a lei e regulamentações da Europa, como foi demonstrado nesta terça-feira por uma decisão judicial para proteger a Superliga Europeia de ações de terceiros”.

“Dadas às atuais circunstâncias, vamos reconsiderar os passos mais apropriados para remodelar o projeto, sempre tendo em mente os objetivos de oferecer aos torcedores a melhor experiência possível e também melhorar os pagamentos de solidariedade a toda a comunidade do futebol”, completou.

O dia começou com notícias na imprensa inglesa de que Chelsea e Manchester City seriam os primeiros a deixar a Superliga, anunciada no último domingo e que gerou críticas fortes de torcedores, jornalistas, jogadores treinadores e entidades como Uefa e Fifa.

Segundo o Guardian, incentivada pelo primeiro-ministro Boris Johnson, a Federação Inglesa de Futebol tomou uma posição forte nesta terça-feira ao alertar que qualquer clube envolvido seria banido da Premier League e de todas as competições domésticas. O executivo-chefe da FA, Mark Bullingham, recebeu de Johnson a mensagem de que o governo faria de tudo em termos legislativos para bloquear o torneio paralelo.

Bullingham articulou a posição da sua entidade em uma reunião com autoridades da Premier League, incluindo o executivo-chefe Richard Masters, e os outros 14 clubes da elite inglesa. Além de exercer o seu direito de licenciar (ou não) os clubes, o dirigente também disse que a FA se recusaria a conceder endossos para que jogadores de outros países dos clubes da Superliga recebessem permissões de trabalho – o que ficou mais restrito depois da saída do Reino Unido da União Europeia.

O Manchester City, segundo a The Athletic, deu bastante peso à opinião contrária de seus jogadores, no mesmo dia em que o treinador Pep Guardiola criticou abertamente a ideia da nova competição. “Não entendo por que estes clubes foram selecionados. Não é esporte quando não há relação entre esforço e sucesso. Não é esporte se o sucesso já é garantido, se não importa se você perde”, disse.

Às 17h19, horário de Brasília, o City se tornou o primeiro dos 12 fundadores a oficialmente anunciar que havia começado o processo de retirada do grupo que desenvolvia planos para a Superliga Europeia.

A expectativa era que o Chelsea fizesse o mesmo em breve. O jogo válido pelo Campeonato Inglês contra o Brighton marcado para esta terça-feira teve que ser adiado em 15 minutos por causa de um protesto de cerca de 1.000 torcedores nos arredores de Stamford Bridge cobrando a saída do clube.

Segundo a BBC e o Independent, o Chelsea tinha medo que houvesse danos à sua reputação e ao trabalho que faz com a comunidade local, especialmente no combate ao racismo e ao antissemitismo. Chelsea e Brighton empataram por 0 a 0.

As notícias da Inglaterra causaram um abalo sísmico à estrutura do projeto encabeçado por Florentino Pérez e Andrea Agnelli, chefões de Real Madrid e Juventus, respectivamente, e levaram os 12 clubes da Superliga a marcarem uma reunião extraordinária para a noite desta terça-feira.

Enquanto isso, crescia a pressão sobre os outros clubes ingleses. O Manchester United anunciou que o seu vice-presidente executivo, Ed Woodward, homem forte do futebol em toda a era pós-Alex Ferguson, havia decidido renunciar ao cargo no fim do ano. Tentou insistir que a decisão não tinha nenhuma relação com o desmoronamento da Superliga, mas o timing foi pelo menos curioso, e não houve nenhuma menção ao projeto na nota de despedida, nem dele, nem do dono Joel Glazer – outro vice-presidente da Superliga.

A marca de relógios Tribus anunciou o fim da sua parceria local com o Liverpool, cujo capitão Jordan Henderson liderou a publicação de um comunicado coletivo de todos os jogadores: “Não a queremos e não queremos que ela aconteça. Esta é nossa posição coletiva. Nosso compromisso com o clube e seus torcedores é absoluto e incondicional. You’ll Never Walk Alone”. O maior ídolo do clube, Kenny Dalglish, também cobrou que os diretores fizessem “a coisa certa”.

Às 18h44 (Brasília), o repórter Simon Stone, da BBC, publicou em seu Twitter que os quatro clubes ingleses que ainda não haviam se movido se retirariam da Superliga ainda na noite desta terça-feira. E, de fato, pouco a pouco, os comunicados oficiais começaram a pipocar.

“Nós não vamos participar da Superliga Europeia”, escreveu o Manchester United. “Ouvimos a reação dos nossos torcedores, do governo britânico e de outros acionistas importantes. Continuamos comprometidos em trabalhar com a comunidade do futebol para buscar soluções sustentáveis aos desafios de longo prazo pelos quais o jogo está passando”.

O Liverpool confirmou que o seu envolvimento com os planos da Superliga foi “descontinuado”. “Nos últimos dias, o clube recebeu a representação de vários acionistas chave, tanto internos quanto externos, e gostaríamos de agradecê-los pelas suas valiosas contribuições”, disse.

O presidente do Tottenham, Daniel Levy, lamentou a “ansiedade e chateação” causadas pela proposta da Superliga Europeia. “Nós sentimos que era importante que nosso clube participasse no desenvolvimento de uma possível nova estrutura que busca assegurar de maneira melhor o fair play financeiro e a sustentabilidade financeira, entregando ainda mais apoio para a pirâmide do futebol”, afirmou, em nota oficial.

“Acreditamos que nunca devemos ficar parados e que o esporte tem que constantemente revisar competições e governança para garantir que o jogo que tanto amamos continue a evoluir e empolgar torcedores ao redor do mundo. Queremos agradecer a todos os torcedores que apresentaram suas opiniões”, disse.

O Arsenal foi o único que realmente pediu desculpas. “Como resultado de termos ouvido vocês e a comunidade do futebol nos últimos dias, estamos nos retirando da proposta da Superliga. Cometemos um erro e pedimos desculpas”, escreveu, no Twitter.

Embora tenha sido um dos primeiros a decidir sair da Superliga, o Chelsea curiosamente foi o último a oficializar a decisão. “Tendo se juntado ao grupo no final da semana passada, agora tivemos tempo de considerar a questão por completo e decidimos que nossa participação nesses planos não seria do interesse do clube, dos torcedores e toda a comunidade do futebol”, afirmou.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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