Inglaterra

777 Partners dá mais uma mostra de ser furada e compra do Everton pode não acontecer

Órgão regulatório do Reino Unido cobrou demonstrações financeiras da 777 Partners, dona do Vasco e que tenta incluir o Everton no seu portfólio de clubes tradicionais em decadência

A polêmica compra do Everton, da Inglaterra, pela 777 Partners pode nem sequer chegar a ser efetivada. De acordo com o “New York Times”, a proposta da empresa americana, que também é dona da SAF do Vasco, está parada porque a 777 ainda não apresentou demonstrações financeiras auditadas ao órgão regulador do governo do Reino Unido. E este é só mais uma episódio controverso do envolvimento da 777 Partners na aquisição e administração dos seus clubes de futebol.

Ainda segundo o NYT, o “Financial Conduct Authority” (“Autoridade de Conduta Financeira”) já fez a solicitação de tais documentos a 777 Partners. Agora, a empresa americana tem um prazo para entregar as demonstrações financeiras. Caso os documentos – ou uma explicação aceitável para a demora – não cheguem, o negócio com o Everton pode ser negado.

No meio de setembro, o Everton, que era comandado pelo empresário britânico-iraniano Farhad Moshiri, anunciou o acordo com a 777 Partners para a venda de 94,1% das ações. No entanto, de acordo com a empresa americana, todos os trâmites burocráticos para poder assumir, de fato, o clube inglês só deveriam ser finalizaram até o fim de 2023. Com esta demora para a entrega dos documentos ao FCA, o cronograma pode atrasar – ou até mesmo melar.

Os valores da negociação entre o Everton e a 777 Partners não foram revelados, mas a imprensa inglesa, em setembro, disse que a compra do clube deve girar em torno de de 600 milhões de libras (R$ 3,7 bilhões), o que seria a maior aquisição da história da empresa americana. Mas ainda longe do investimento feito por Moshiri no Everton. Desde 2016 no comando do clube, o empresário colocou cerca de 750 milhões de libras (R$ 4,6 bilhões) nos Toffees.

Uma possível quebra do acordo de compra pela 777 Partners pode ser dramática para o Everton, que vive situação financeira delicada e luta contra o rebaixamento na Premier League. Em meio a construção do novo estádio, o clube de Liverpool tem cerca de US$ 500 milhões (R$ 2,5 bilhões) em dívidas e projeta um déficit de US$ 100 milhões (R$ 505 milhões) na atual temporada. O clube tem recorrido a empréstimos regularmente. E, inclusive, a própria 777 realizou um empréstimo ao clube recentemente.

Além precisar passar pela FCA, a compra do Everton pela 777 Partners também precisa ser aprovada pela Premier League e pela Football Association, o que também não deve ser fácil. Recentemente, a Premier League introduziu novas diretrizes em seu teste para proprietários e diretores em março. A liga foi bastante criticada pela maneira como se abriu a magnatas estrangeiros, especialmente pelo investimento direto da Arábia Saudita no Newcastle para o qual a entidade fechou os olhos. O caso do Everton pode ser ainda mais emblemático pelo clube ser membro-fundador da Liga.

Além da falta de documentos auditados, a falta de conhecimento sobre a fonte dos recursos da 777 Partners também tem levantado dúvidas na Inglaterra. Quando comprou o Standard de Liège, da Bélgica, a empresa viveu situação parecida. Mas, após negociações controversas, a Liga belga acabou aprovando a venda do tradicional clube do país.

Josh Wander (ao centro, de gravata azul) é o sócio-proprietário da 777 Partners, possível nova dona do Everton (Foto: Icon sport)

De acordo com o NYT, a 777 Partners atrasou o pagamento para cerca de três mil funcionários em dois dos últimos meses. Além disso, também não pagou bônus previstos em contrato para alguns executivos da empresa. Os americanos, no entanto, negaram estas informações e se não responderam os questionamentos sobre a aquisição do Everton.

Relação entre Vasco e 777 Partners pode servir de alerta

Recentemente, o Vasco viveu uma situação delicada com a 777 Partners, que também levantou dúvidas sobre a situação financeira da empresa. Os americanos atrasaram o pagamento de um aporte de R$ 120 milhões e parcelaram o pagamento no dia final do prazo para o recebimento do dinheiro por parte do clube carioca. O episódio gerou criticar por parte da diretoria e da torcida, que vive com um pé atrás em relação a 777, dona de 70% das ações da SAF vascaína.

Por contrato, a 777 Partners deveria ter feito o aporte de R$ 120 milhões até o dia 5 de setembro, quando a assinatura do contrato de venda da SAF completou um ano. No entanto, o acordo tinha um prazo de carência de 30 dias. Assim, com juros e debitando um adiantamento de R$ 16 milhões que a empresa havia feito durante a última janela de transferências, a empresa deveria pagar R$ 110 milhões até o dia 5 de outubro.

777 Partners controla o futebol do Vasco desde o segundo semestre de 2022 (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Na noite deste dia, o Vasco recebeu apenas R$ 38,5 milhões – 35% do que faltava ser pago. Ainda durante a noite, a 777 Partners enviou ao clube o comprovante de outra transferência, de R$ 36 milhões, que só chegou nas contas do clube no dia seguinte, uma sexta-feira. A partir daquele momento, com 777 em atraso, o Vasco já poderia ter acionado uma cláusula que faria o clube recuperar 51% das ações da 777 e retomar o controle do futebol pelo valor simbólico de R$ 1 mil. No entanto, com a promessa de que o restante do pagamento seria feito e que só não havia sido completado por questões burocráticas, o clube escolheu esperar. Com um final de semana no meio e um feriado nos Estados Unidos, o último pagamento, de R$ 36 milhões, só caiu na conta do Vasco na terça-feira (10).

Apesar de inicialmente externar tranquilidade, depois desse episódio o presidente do Vasco, Jorge Salgado, admitiu que a situação gerou uma preocupação no clube. O atraso acabou corroborando matérias de veículos internacionais que, recentemente, em meio as negociações entre o Everton e a 777 Partners, trataram sobre as nebulosas finanças da empresa americana.

– Tem saído muito matéria a respeito da 777. Acho que as matérias descambam um pouco para o sensacionalismo, do ponto de vista de não conseguirem exatamente provas suficientes para dizer isso ou aquilo. São tudo elucubrações. Qual é o comportamento da 777 com o Vasco? Ela teve um compromisso inicial de aportar R$ 70 milhões. Aportou? Aportou. No mesmo ano ela tinha que colocar R$ 120 milhões. Colocou? Colocou. Esse ano tinha que colocar R$ 120 milhões. Colocou? Colocou. Atrasado – firmou Jorge Salgado ao “Futebolaço Podcast”.

– Isso me preocupou muito, porque coincide com o noticiário. Saiu na primeira página do The New York Times uma matéria muito ofensiva à 777, (veículo com) muita credibilidade, e a gente fica muito preocupado com o noticiário que vem lá de fora. Eles atrasaram, fiquei mais preocupado ainda. Isso afeta a credibilidade da empresa lá fora. Você não pode ser uma empresa que está mal falada na mídia. A gente ficou super preocupado, mas nosso contrato tem uma salvaguarda muito forte com relação à inadimplência. A gente retoma a participação acionária por R$ 1 mil – completou o dirigente.

Além do Everton e do Vasco, a 777 Partners também é dona do Hertha Berlin, da Alemanha, do Genoa, da Itália, Standard Liège, da Bélgica, e do Red Star, da França. Recentemente, a empresa também comprou o Melbourne Victory, da Austrália. Além disso, a 777 também tem uma pequena participação (5%) do Sevilla, da Espanha.

Foto de Gabriel Rodrigues

Gabriel RodriguesSetorista

Jornalista formado pela UFF e com passagens, como repórter e editor, pelo LANCE!, Esporte News Mundo e Jogada10. Já trabalhou na cobertura de duas finais de Libertadores in loco. Na Trivela, é setorista do Vasco e do Botafogo.

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