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A 777 Partners chega ao Vasco com experiências em Sevilla e Genoa, mas há poucas lições favoráveis dessas empreitadas

A 777 Partners vive uma guerra política em seus três anos na Espanha, como acionista minoritária, enquanto não completou uma temporada num Genoa em crise

O Vasco se tornou mais um clube de peso do futebol brasileiro a oficializar sua transformação como SAF. Nesta segunda-feira, os cruzmaltinos assinaram um “memorando de entendimento” com a 777 Partners, para investimentos no clube. A companhia americana vai desembolsar R$700 milhões por 70% de participação na SAF, além da dívida assumida. Segundo a nota oficial, o investimento será finalizado nos próximos 90 dias, sujeito à aprovação dos sócios. A promessa é de modernização e aporte financeiro para fortalecer os vascaínos. E, assim como aconteceu em outros clubes brasileiros, o Vasco pode olhar para fora. A 777 Partners possui negócios também no Sevilla e no Genoa.

A 777 Partners atua em diferentes áreas e entrou no futebol a partir de 2018. Primeiro, a companhia americana se tornou sócia minoritária do Sevilla, com cerca de 10% das ações. Já o grande passo veio em setembro de 2021, quando adquiriu 99,9% do Genoa. Cabe dizer, no entanto, que o tempo de parceria não significa muito, assim como o momento dos clubes. A atuação dos americanos é vista de maneira mais favorável na Itália do que na Espanha.

O trabalho bem feito pelo Sevilla, afinal, precede o investimento da 777 Partners no clube. E, apesar do aporte financeiro, não foi a venda de ações em 2018 que permitiu um salto tão significativo aos rojiblancos. O sucesso no Nervión é muito mais explicado pela política de contratações desenvolvida por Monchi, algo que construiu o crescimento dos sevillistas desde o início do século e se renovou com o retorno do dirigente esportivo nos últimos tempos, rendendo as boas colocações em La Liga e as conquistas frequentes na Liga Europa. A voz da 777 Partners por lá é pequena e ainda assim conflituosa.

Há uma divisão entre a 777 Partners e diversos membros do Sevilla. A intenção da companhia americana era aumentar sua participação nos rojiblancos e comprar ações de outros grupos da direção. Em setembro de 2020, porém, os investidores acusaram que representantes desses acionistas cobraram um preço além do combinado previamente para efetuar as vendas. A partir de então, a 777 se aproximou de José Maria del Nido, mandatário dos sevillistas de 2002 a 2013, que teve importância na ascensão do clube e que também foi condenado por corrupção. Houve uma tentativa frustrada de derrubar o atual presidente, José Castro, que não se concretizou. Também tentaram abrir o capital da agremiação, em outra tentativa frustrada.

Tornou-se aberta a queda de braço entre os americanos e grande parcela dos demais acionistas, assim como da torcida. Com o pequeno percentual, os investidores da 777 perderam inclusive seu lugar no conselho administrativo. E enfrentam críticas constantes pela própria maneira como tentaram ampliar sua influência nos bastidores. As derrotas políticas se tornaram frequentes e membros da 777 admitiram o arrependimento quanto ao fato de serem acionistas minoritários dos sevillistas, sem controle do negócio ou influência direta nas estratégias. O presidente José Castro igualmente já deu declarações de arrependimento sobre negociar a chegada dos americanos. Mas, por enquanto, eles ainda não deixaram o Nervión.

As lições deixadas pelo Sevilla influenciaram o negócio da 777 Partners com o Genoa. Numa liga de investimento americano crescente e donos geralmente majoritários, a companhia tinha o caminho aberto. Adquiriu 99,9% do Grifone em negócio junto a Enrico Preziosi, que presidiu o clube a partir de 2003, após uma passagem pelo Como. As quase duas décadas sob as ordens de Preziosi, todavia, foram bastante turbulentas aos rossoblù. O clube chegou a ser rebaixado para a Serie C por manipulação de resultados e também foi envolvido em fraudes na venda de jogadores. O período mais estável na Serie A aconteceu na virada da década, com algumas campanhas na parte de cima da tabela e uma participação na Liga Europa – o clube perderia a licença para uma segunda participação em 2014/15. De qualquer maneira, o padrão foi lutar contra o rebaixamento.

A 777 Partners desembolsou €150 milhões para adquirir o Genoa junto a Preziosi, em valor que incluía assumir as dívidas do clube. A chegada dos novos investidores foi seguida por uma série de mudanças na diretoria dos rossoblù. O mau início na Serie A também resultou na contratação do técnico Andriy Shevchenko, que não duraria mais do que 11 partidas no cargo. De certa maneira, a herança dos péssimos anos com Preziosi pesou bem mais do que a iniciativa do 777 nos últimos meses. A prioridade do novo grupo é contornar a dívida, antes de buscar saltos maiores.

No mercado de janeiro, o primeiro com os novos donos, foram gastos quase €20 milhões em reforços. Um detalhe interessante foram as compras de jovens como Kelvin Yeboah (21 anos), Morten Frendrup (20), Silvan Hefti (24), Albert Gudmundsson (24) e Johan Vásquez (23). Também foram emprestados quatro jogadores, sendo Nadiem Amiri o mais renomado. E saíram diversos medalhões, incluindo o ídolo Goran Pandev, que criticou a maneira como os veteranos estavam sendo tratados como responsáveis pelos maus resultados. Nestas primeiras semanas, porém, o Genoa acumula empates e não encontrou um caminho na Serie A. A equipe, agora treinada pelo alemão Alexander Blessin, está na penúltima colocação do campeonato – a seis pontos de sair do Z-3.

O Genoa é o passo à frente da 777 Partners em relação ao Vasco. Além do mais, a prioridade da companhia é o futebol europeu, mais rentável aos investimentos por suas cifras. Ainda assim, em termos de torcida e representatividade, os vascaínos abrem também enormes possibilidades aos americanos. É ver o nível de comprometimento e de acertos nas decisões, considerando que as experiências até agora não permitem tirar tantas lições sobre um perfil da nova SAF.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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