Histórias Olímpicas

Jürgen Croy: a Alemanha do lado de lá do Muro tinha sua muralha no gol

Jürgen Croy foi o único jogador presente em todas as partidas disputadas por sua equipe na Copa do Mundo de 1974 e nos Jogos Olímpicos de Munique-1972 e Montreal-1976, com direito a uma medalha de ouro e uma de bronze

A lista de grandes goleiros europeus nos anos 1970 costuma ser liderada por um craque alemão: Sepp Maier, campeão do mundo e da Europa com a seleção da Alemanha Ocidental. Mas, do lado de lá do muro de Berlim, em meio ao falso amadorismo em que se inseriam os jogadores sob o regime comunista, houve outro camisa 1, presente nos principais feitos da seleção da Alemanha Oriental: Jürgen Croy, o único jogador presente em todas as partidas disputadas por sua equipe na Copa do Mundo de 1974 e nos Jogos Olímpicos de Munique-1972 e Montreal-1976, com direito a uma medalha de ouro e uma de bronze.

Croy nasceu em outubro de 1946, pouco mais de um ano após o fim da Segunda Guera Mundial, na cidade de Zwickau, estado da Saxônia, leste da Alemanha, próxima a Leipzig e Dresden, área então sob influência da União Soviética que se tornaria em 1949 a República Democrática da Alemanha. Em 1961, quando o Muro de Berlim seria erguido no meio da capital dividida (embora geograficamente localizada no lado oriental) como o símbolo definitivo da cisão, o jovem Jürgen já era um gigante de quase 2 metros de altura que arriscava suas primeiras pontes no BSG Aktivist Karl Marx, um clube da cidade ligado à indústria de mineração. Ele jogava na equipe desde os 8 anos e começou como atacante, mas aos poucos foi experimentando e pegando gosto pelo gol.

Dois anos depois, perto de completar 17, Croy, que era filho de um operário da fábrica de automóveis Horch, foi jogar no Motor Zwickau, o principal clube da cidade, bancado justamente pela empresa. Em abril de 1965, quando já ensaiava seu acesso ao time principal, teve a primeira chance de brilhar do lado ocidental do país: foi titular da Alemanha Oriental na conquista da Copa da Juventude da Uefa, vencendo a Inglaterra por 3 a 2 na final, disputada em Essen. O torneio é considerado equivalente à atual Euro Sub-18.

Levado ao time principal meses depois, num regime em os jogadores formalmente trabalhavam como operários, militares ou burocratas do serviço público, Croy estreou já na segunda rodada da temporada 65/66 da Oberliga, a primeira divisão do país: a dois meses de completar 19 anos, foi a campo numa vitória por 2 a 1 sobre o Hansa Rostock. Jogou 24 das 26 partidas daquela edição, e dali para a seleção foi um pulo: estreou com vitória por 1 a 0 sobre a Suécia, num amistoso em 17 de maio de 1967.

Era o fecho de uma ótima temporada. O Motor Zwickau havia terminado a Oberliga em terceiro e vencido a Copa da Alemanha Oriental, com vitória por 3 a 0 sobre o Hansa Rostock na final. Dois anos depois, o time mudou de nome para Sachsenring Zwickau, passando a adotar o nome da empresa que o mantinha, mas com pouco sucesso esportivo coletivo, sempre ficando pelo meio da tabela. Individualmente, porém, Croy foi se firmando na seleção e, entre 1971 e 1972, atuou em duas frentes, em jogos pelas eliminatórias da Eurocopa e também do torneio seletivo para a Olimpíada de Munique – a vaga veio após triunfos contra Itália e Iugoslávia.

O goleiro Jürgen Croy, da Alemanha Oriental (Imago / OneFootball)

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No torneio olímpico, a provável melhor geração reunida pela Alemanha Oriental começou com duas goleadas, 4 a 0 sobre Gana e 6 a 1 na Colômbia, mas perdeu o primeiro lugar do Grupo D para a gigante Polônia, esta certamente com sua maior seleção de todos os tempos. O torneio foi disputado no mesmo formato que a Copa teria dois anos depois, com dois grupos de quatro seleções definindo os finalistas.

Os alemães do leste já estrearam na segunda fase com derrota para outra potência, 2 a 0 a Hungria, que buscava o tricampeonato sob a regência de Antal Dunai. Um 7 a 0 sobre o México reabilitou a equipe, que garantiu a chance de disputar a medalha de bronze com uma histórica vitória sobre a Alemanha Ocidental, 3 a 2, diante de 80 mil torcedores no Estádio Olímpico de Munique.

Dois dias depois, a equipe empatou por 2 a 2 com a União Soviética, no mesmo local. Sem gols na prorrogação e sem previsão de pênaltis, as duas seleções dividiram a medalha de bronze. Curiosa coincidência: o jogo foi apitado pelo brasileiro Armando Marques, que um ano depois veria outra decisão, a do Paulista entre Santos e Portuguesa, também terminar com a premiação dividida, mas essa é outra história…

Eleito o melhor jogador da Alemanha Oriental naquele ano, Croy seguiu como o muro que protegia a meta de uma seleção em seu auge. Em 20 de setembro de 1973, vestiu a camisa 1 em uma das mais importantes vitórias: um 2 a 0 sobre a Romênia, em Leipzig, que garantiu a liderança do Grupo 4 das Eliminatórias europeias e deixou o time a um passo da Copa do Mundo – vaga depois confirmada com um 4 a 1 sobre a Albânia, em Tirana.

Croy seria titular em todos os jogos do Mundial, inclusive no épico 1 a 0 sobre os ocidentais, em Hamburgo, que garantiu ao time a liderança do Grupo A e o “direito” de enfrentar Brasil e Holanda na segunda fase – também foi ele o goleiro enganado pela artimanha brasileira na barreira no gol de Rivellino, na sofrida vitória canarinho por 1 a 0.

De volta a seu lado do muro, Croy conseguiu liderar o modesto Sachsering ao segundo título da Copa da Alemanha Oriental, com uma vitória nos pênaltis sobre o Dynamo Dresden, o bicho-papão do país, pegando a cobrança decisiva de Hans-Jorg Dörner, seu companheiro de seleção. No mesmo ano em que se formou em Educação Física, iniciou também uma inédita jornada europeia: o time foi enfileirando sucessos na hoje extinta Recopa, passando por Panathinaikos, Fiorentina (nos pênaltis) e Celtic, até parar nas semifinais diante do Anderlecht, que seria o campeão em cima do West Ham. Foi nesse embalo que Croy cruzou o Atlântico para disputar sua segunda Olimpíada.

Jürgen Croy, da Alemahha Oriental (Imago / OneFootball)

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A vaga da Alemanha Oriental nos Jogos veio depois de vencer um playoff contra a Grécia e depois um grupo com Tchecoslováquia e Áustria. Na primeira fase, o grupo foi desfalcado de última hora pela Nigéria, que boicotou a Olimpíada, assim como Gana e Zâmbia, também classificadas, e mais de 20 outros países africanos, como protesto pela permanência da Nova Zelândia, que havia feito uma excursão com seu time de rúgbi pela África do Sul, rompendo o embargo provocado pelo apartheid.

Na estreia, os alemães ficaram no 0 a 0 com um Brasil que levava seu time mais forte do período do amadorismo, com Carlos, Junior e Edinho, futuros craques de Copa do Mundo. Uma vitória por 1 a 0 sobre a Espanha garantiu a classificação para as quartas de final, onde atropelaram por 4 a 0 uma França que tinha, com a camisa 11, um cabeludo garoto do Nancy chamado Michel Platini.

Embalada, nas semifinais a Alemanha Oriental bateu a União Soviética por 2 a 1 e avançou à decisão contra a Polônia, uma de suas algozes quatro anos antes. Desta vez, porém, não teve jeito para a turma de Deyna e Lato. Hartmut Schade, que havia perdido um gol incrível logo aos 5 minutos, abriu o placar em seguida após uma cobrança de falta pela esquerda que cruzou a área e voltou após um passe da direita. Aos 14, uma linda tabela só com toques de primeira terminou num chute cruzado de Martin Hoffman, sem chance de defesa.

A Polônia descontou com Lato, já aos 14 do segundo tempo, após cobrança de escanteio, e então Croy apareceu, com várias defesas e mostrando muita coragem para sair do gol nas bolas altas. Aos 37 minutos, Reinhard Häfner ganhou um pé de ferro no meio-campo e escapou em velocidade para definir o placar de 3 a 1 e a conquista da Alemanha Oriental. No vídeo abaixo é possível assistir à boa parte da partida, inclusive os quatro gols.

De volta para casa, Croy recebeu de novo o prêmio de jogador do ano no país, que repetiria em 1978. Seguiu defendendo a seleção, porém de forma cada vez mais esparsa, sem ser convocado para a campanha de prata nos Jogos de Moscou-1980, e despediu-se em 19 de maio de 1981, exatos 14 anos e dois dias depois da estreia, numa goleada por 5 a 0 sobre Cuba. Ao todo, sem contar as presenças olímpicas, foram 86 partidas, com 74 gols sofridos.

No mesmo ano despediu-se também do clube, que vinha fazendo campanhas cada vez mais precárias e próximas do rebaixamento – que viria logo depois, na temporada 1982/83. Assumiu logo depois o posto de técnico da equipe, conseguindo um acesso, depois outro descenso e por fim um novo acesso, em 1988, quando então deixou de vez o campo – mas não o futebol, assumindo postos na federação alemã oriental e no próprio Sachsering, que, após a unificação, virou simplesmente Zwickau e nos últimos anos, depois de passagens ruins nas ligas regionais, firmou-se na 3.Liga, a terceira divisão alemã.

Jürgen Croy, ex-goleiro da Alemanha Oriental (Imago / OneFootball)

Aos 74 anos, Croy hoje é um senhor aposentado que joga golfe nas horas vagas e acompanhe de perto o futebol local. Em fevereiro deste ano, deu entrevista ao site alemão Sportbuzzer antes do clássico regional entre o Zwickau e o Dynamo, apostando numa vitória do seu clube (que perdeu por 2 a 0), mas contando que torcia torcendo pelo acesso do clube de Dresden – que terminou como campeão e jogava a segunda divisão da Bundesliga na próxima temporada.

Satisfeito com a fama e as conquistas que obteve, Croy contou que, no seu auge como goleiro, chegou a ser convidado pelos dirigentes da federação da Alemanha Oriental para jogar no Dynamo, então o grande clube do país. Poderia ganhar mais títulos, disputar a Copa dos Campeões… Mas preferiu seguir perto de casa. “Mais importante que ganhar títulos para mim era estar com a família e os amigos.”

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Fernando Cesarotti

Fernando Cesarotti é jornalista há 22 anos e professor há sete. Na Copa de 2018, escreveu a coluna 'Geopolítica das Copas' na Vice. Hoje, entre uma aula e outra, produz o OlimpCast, podcast que conta histórias dos Jogos Olímpicos. No Twitter, @cesarotti.

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