Amistosos da seleção brasileira feminina deixam quatro certezas para a Copa América
Jogos contra o Japão expõem mudanças importantes e elevam as expectativas ao grupo comandado por Arthur Elias
A seleção brasileira feminina enfrentou o Japão em dois amistosos no estado de São Paulo e aplicou 5 a 2 no placar agregado (3 a 1 na última sexta, na Neo Química Arena, e 2 a 1 nesta segunda, em Bragança Paulista). Os duelos foram preparatórios para a Copa América, que será de 12 de julho a 2 de agosto, e deixam em evidência a reformulação pretendida pelo técnico Arthur Elias.
O treinador mesclou a equipe titular para dar oportunidade à nova safra, e jogadoras experientes, como a atacante Ludmila e a zagueira Tarciane, ficaram no banco de reservas.
As conclusões dos amistosos da seleção brasileira feminina
As mexidas e adaptações foram o suficiente para a Trivela chegar a quatro certezas sobre o panorama do Brasil feminino na Copa América.
1. Novos rostos no ataque
As partidas diante das japonesas evidenciaram o bom e jovem poderio ofensivo que Arthur Elias tem à disposição. Dudinha, aos 19 anos, foi o destaque do embate na Neo Química Arena em 30 de maio. A atacante do São Paulo marcou dois dos três gols e ainda sofreu um pênalti.
Jhonson, que também tem 19 anos, brilhou no Estádio Cicero De Souza Marques, em Bragança Paulista, com o gol da virada apenas seis minutos depois de entrar em campo. A jovem promessa, uma das artilheiras do Campeonato Brasileiro feminino pelo Corinthians, substituiu Marta na ocasião e recebeu a assistência de Kerolin, duas de suas inspirações nos gramados.

Além das joias de destaque, os cinco gols do Brasil mostram repertório de jogadas. Houve bola na rede oriunda de pressão no meio-campo adversário, outra em transição de velocidade ou em bons toques da defesa ao ataque com inversão do lado do campo, como essa assistência de Gio Garbelini para Kerolin, fazer o 3 a 0 no primeiro confronto.
3 X 0, BRASILLLLLLLLLLL ⚽✨ SABE DE QUEM??? É DA KEROLINNNNNN!!!! É DO BRASIIIIIL 🇧🇷🇧🇷🇧🇷 #FutebolNaGlobo #AquiÉBrasil #AmistosoDaSeleçãoFeminina pic.twitter.com/9yynDiwXM1
— TV Globo 📺 (@tvglobo) May 31, 2025
2. Liderança e comando do meio-campo
No espírito de renovação, a Seleção tem um nome importante para liderar o grupo tanto na Copa América quanto no ciclo da Copa do Mundo de 2027: Angelina.
Aos 25 anos, a meio-campista do Orlando Pride toma conta da zona central e justificou o uso da braçadeira de capitã na ausência de Marta com postura de liderança dentro e fora das quatro linhas.
Um dos momentos emblemáticos ocorreu na marca dos 23 minutos da etapa final do jogo primário, quando Angelina atravessou o campo e quis entregar a faixa à Marta, que se preparava para entrar. A camisa 10 inicialmente recusou, mas depois recebeu a honraria.
A Angelina atravessando o campo todo para entregar a faixa de capitã pra Marta para que ela já entre em campo trajada
A Marta falando "Pode ficar!!" e ela insistindo em entregar a Faixa para a Rainha pic.twitter.com/TzPLyk1DMA
— Central Day Rodriguez 🦅 (@MagzinhaSalazar) May 31, 2025
Angelina exibe inteligência tática tanto na defesa quanto no ataque, com 84% dos passes certos na Neo Química Arena e 80% em Bragança Paulista. No primeiro confronto também registrou cinco cortes, dois desarmes e cinco duelos ganhos, além de uma assistência e um passe decisivo, segundo o “Sofascore”.
A partida seguinte foi de três cortes, um desarme, quatro duelos vencidos e um passe decisivo.
Números de Angelina em Brasil x Japão
- Minutos jogados: 180
- Assistência: 1
- Passes decisivos: 2
- Finalizações: 2
- Duelos ganhos: 9
- Cortes: 8
- Desarmes: 3
A jogadora se potencializou com Arthur Elias e reforçou entender bem as diferenças entre o estilo de jogo adotado por ele e o de Pia Sundahage. O técnico busca estratégia mais “ofensiva e agressiva”, segundo ela, enquanto a antecessora era mais direcionada à “disciplina tática”.
3. Postura diferente com Arthur Elias
Quem acompanhou o trabalho de Pia Sundhage e de Arthur Elias à frente da seleção conseguiu perceber as diferentes personalidades e estilos de jogo. Isso também se refletiu nos resultados de um trabalho iniciado pela sueca (especialmente na parte física) e aperfeiçoado pelo treinador, reforçando o acerto na união de um futebol mais ofensivo, de intensidade e da mescla entre jogadoras experientes e novos talentos.
O pouco tempo de trabalho de Elias — que continuou com uma reformulação necessária do elenco — surtiu efeito rápido e significativo. Em 2024, um ano após ele assumir o comando, a seleção disputou a Copa Ouro, a She Believes Cup e os Jogos Olímpicos de Paris, conquistando o pódio em todas elas. Vale salientar a vitória sobre a Espanha, que eliminou a potência mundial e atual campeã do mundo nas Olimpíadas.
Na Copa Ouro e nos Jogos Olímpicos, a seleção ficou com a segunda colocação, perdendo para os Estados Unidos em ambas as ocasiões. Já na She Believes Cup, o Brasil perdeu para o Canadá, mas venceu o Japão e garantiu a medalha de bronze.

Ao fim das principais disputas, a seleção brasileira partiu para os testes em outros quatro amistosos antes de encerrar o ano. Venceu e empatou com a Colômbia em jogos disputados em casa. Contra a Austrália, fora, o Brasil foi soberano e venceu os dois confrontos, encerrando um jejum de oito anos.
Quebrar jejum, inclusive, tem feito parte da trajetória da seleção com Elias. Em 2025, o Brasil venceu os Estados Unidos na casa das adversárias, encerrando um período de onze anos sem derrotar a seleção estadunidense.
A própria Marta definiu a chegada de Arthur Elias como positiva. A rainha falou sobre o estilo ofensivo de jogo do treinador, valorizando a liberdade das jogadoras em campo, em comparação com o sistema de jogo “mais conservador” de Pia.
4. Potencial do futebol feminino
Não restam dúvidas sobre o potencial do futebol feminino em caráter mundial, que segue quebrando recordes de público durante os torneios. Nos últimos anos, o Brasil viu de perto o retorno crescente do público nos estádios durante os jogos.
Em Pernambuco, no amistoso contra a Jamaica, em junho de 2024, a Arena Pernambuco recebeu 33.272 pessoas, estabelecendo um novo recorde de público do futebol feminino no Nordeste.
Um ano depois, contra o Japão, 33.325 pessoas estiveram presentes na Neo Química Arena para acompanhar a vitória por 3 a 1 no primeiro dos dois amistosos contra as japonesas, em jogos preparatórios para a Copa América Feminina.
Os números comprovam o trabalho que passou a ser feito — com atraso — de divulgação da modalidade no país. A adesão do público, as transmissões dos jogos em TV aberta e a cobertura da imprensa reforçam o trabalho que deveria ter começado décadas atrás, e que serão cruciais para a Copa do Mundo de 2027 no Brasil.

Mas, acima de tudo, não deixam dúvidas de que o público quer ver as mulheres em campo, refletindo o sonho e criando oportunidade para as novas gerações de meninas e mulheres que sonham em jogar futebol.
A seleção brasileira feminina tem mais um amistoso antes da disputa da Copa América. A adversária é a França, em 27 de junho, às 16h10 (de Brasília), no Stade des Alpes, em Grenoble. O grupo comandado por Arthur Elias embarca rumo ao Equador em seguida para o torneio sul-americano.
O Brasil, atual campeão, está no grupo B com Colômbia, Paraguai, Venezuela e Bolívia e estreia em 13 de julho, contra as venezuelanas, no Estádio Gonzalo Pozo Ripalda, em Quito.



