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Como fica o PSG no Fair Play Financeiro da Uefa com a contratação de Messi

Nasser Al-Khelaifi, presidente do PSG, disse que antes de contratar Messi, o clube consultou suas áreas comerciais, financeiras e jurídicas para ter certeza que seria possível

Uma das perguntas feitas por quem acompanha o futebol europeu é como o PSG consegue oferecer contratos tão altos e continuar cumprindo o Fair Play Financeiro da Uefa, ainda mais depois de anunciar uma leva de jogadores com altos salários, o maior deles Lionel Messi. Simplificadamente, para cumprir a regra os clubes devem gastar um valor próximo do que arrecadam. Uma das regras é que não se pode gastar mais de 70% das suas receitas com salários. Lionel Messi deve ganhar mais de € 30 milhões por temporada, o que naturalmente gerou questionamentos, que o presidente do PSG, Nasser Al-Khelaifi, respondeu com tranquilidade na coletiva de apresentação do craque argentino.

O dirigente começou agradecendo ao jornalista pela “pergunta muito boa” e justificou. “Sempre seguimos às regulações do Fair Play Financeiro desde o dia e sempre iremos seguir. Antes de fazer qualquer coisa estrategicamente falamos com nosso time comercial, financeiro e jurídico”, afirmou o catariano.

“Nós dissemos que se tivéssemos a capacidade de contratá-lo, o contrataríamos. Se não, não o contrataríamos. O que Leo traz ao clube é imenso e o que a mídia tem que focar é não apenas no lado negativo, mas também há muitos lados positivos que Leo está trazendo em termos comerciais e de mídias sociais. Ele é um grande patrimônio do clube. Tem sido três dias inacreditáveis. Se nós dermos os números a vocês, vocês ficarão chocados”, disse o dirigente, sem, contudo, revelar os números que diz ter.

O dirigente ainda brincou com a questão. “Eu espero que Leo não peça um aumento de salário agora… Mas nós sempre iremos seguir as regulações do Fair Play Financeiro”, disse Al-Khelaifi. “Queremos ganhar todos os jogos e todos os troféus, mas não ganhamos nada ainda. Agora é o momento de trabalhar, trabalhar e trabalhar. Para ganhar troféus você precisa de uma mentalidade vencedora e disciplina”, continuou o presidente do PSG. Ele ainda seguiu na escala de elogios e descreveu Mauricio Pochettino como “o melhor técnico do mundo”.

Recado para Mbappé

A empolgação era compreensível e visível, a ponto do presidente do PSG ter provocado até Kylian Mbappé, que só tem contrato até junho de 2022. Ele não aceitou a renovação e indicou que pretende deixar o clube ao final do seu vínculo. Para Nasser Al-Khelaifi, a contratação de Messi pode ser um trunfo para tentar convencer Mbappé a ficar no PSG.

“Mbappé é jogador do PSG. Ele tem dito publicamente que não quer deixar o time”, desconversou, inicialmente, o dirigente. “Nós sabemos o seu futuro, ele já disse que não quer deixar o time e irá ficar. Ele disse que queria uma equipe competitiva e você não pode ter uma equipe mais competitiva que isso. Ele não tem razão para fazer nada que não ficar. Ele é um parisiense e tem uma mentalidade vencedora. É um dos nossos jogadores”.

Os gastos do PSG e as regras do Fair Play Financeiro

O PSG trouxe alguns jogadores importantes. Achraf Kahimi chegou por € 60 milhões depois de brilhar pela Internazionale; Danilo Pereira, que estava emprestado pelo Porto, foi contratado em definitivo por € 16 milhões; e ainda levou Sergio Ramos, Giorginio Wijnaldum, Gianluigi Donnarumma e, por fim, Lionel Messi, todos que chegaram após o fim dos seus contratos com os antigos clubes. Apesar de chegarem sem o valor de transferência, chegaram com salários altos, o que aumentou a folha salarial do clube.

A folha salarial do PSG estimada para a temporada 2021/22, já com Messi incluído, é de € 364,56 milhões. Isso porque para que Messi receba salários de mais de € 30 milhões líquidos, precisa ganhar o dobro disso, porque os impostos na França para a faixa mais rica da população, que inclui os jogadores da elite do país, é de 51%. Assim, o salário bruto de Messi seria de mais de € 63 milhões. Neymar, o segundo maior salário, recebe mais de € 54 milhões brutos.

Segundo a Deloitte no seu tradicional relatório “Money League” de 2021, o PSG é a sétima maior receita do futebol europeu, com € 540 milhões arrecadados na temporada 2019/20. Ainda não há dados da temporada 2020/21, que acabou em maio, e que não teve público na maior parte do tempo, o que tem um peso na receita de todos os clubes. Considerando essa receita, sem saber ainda a receita de 2020/21, a folha salarial do PSG ocuparia 67,5% das receitas do clube, o que significa que ainda estaria dentro do permitido.

É bastante provável que a receita do PSG tenha diminuído em 2020/21, mas também é certo que ela aumentará significativamente em 2021/22, especialmente pela volta da torcida ao estádio. A presença de Messi, claro, deve ser um impulso nas receitas comerciais, mas normalmente esse impacto é superestimado pelos clubes. Como o Fair Play Financeiro da Uefa é feito após a temporada, com análise dos anos anteriores, só lá saberemos se o clube cumpriu as regulações.

PSG usa bem o afrouxamento da Uefa

O Fair Play Financeiro foi afrouxado pela Uefa, com razão, em função da pandemia. O limite de prejuízo por temporada foi aumentado de € 30 milhões na soma das três últimas temporadas, com os donos do clube podendo arcar com até € 25 milhões em aportes financeiros. Para amenizar o impacto, a Uefa afirmou que o ano fiscal de 2020 será unido ao de 2021, para evitar que as perdas pesem muito, como explicamos no texto.

Os clubes poderão ter perdas superiores a € 30 milhões desde que provado que foi relacionado à pandemia. Além disso, o período não será não de três anos, como é habitual, mas de quatro anos, incluindo 2018, 2019, 2020 e 2021, sendo que os dois últimos contam como uma temporada só.

O histórico do PSG com o Fair Play Financeiro

As suspeitas de burlar a regra, porém, são mais antigas. Em 2013, o PSG maquiou € 125 milhões em suas contas. Por isso, em 2014, o PSG foi punido pela Uefa por violações do Fair Play Financeiro com multa de € 60 milhões e restrição de inscrição de jogadores por uma temporada. Embora tenha sido dura, foi facilmente contornada pelos catarianos.

Pouco depois, naquele mesmo ano, na contratação de Serge Aurier, o clube fez um empréstimo com compra programada, de forma a driblar o Fair play Financeiro. Foi um expediente que se tornou comum e a Uefa mudou a regra: qualquer empréstimo com compra programada passou a contar para a temporada em que o empréstimo é feito, não mais na seguinte.

O clube não desistiu de driblar a regra. Em 2017, depois de gastar € 222 milhões para levar Neymar para o PSG, os parisienses levaram também Kylian Mbappé para o Parque dos Príncipes em uma operação que totalizava € 180 milhões. Um desafio ao Fair Play Financeiro da Uefa. Como não computar as duas transferências em uma mesma temporada?

Como a compra programada faria com que a transferência contasse já naquela temporada, o PSG fez um empréstimo condicionado a metas. Empréstimos condicionados, baseados comumente em número de jogos, gols ou mesmo a acessos ou descensos de divisão, não entravam na contabilidade do clube na mesma temporada, justamente pelo fato de serem condicionados e poderem não acontecer. O PSG fez um contrato de empréstimo com o Monaco e condicionou o pagamento por Mbappé à permanência do PSG na primeira divisão francesa. Mais um drible na regra.

Vale lembrar que o PSG já viveu controvérsias em relação ao Fair Play Financeiro. Segundo revelações do Football Leaks, a Uefa acobertou fraudes financeiras de PSG e Manchester City. As revelações se tornaram um escândalo, a ponto da Uefa ter se mexido para reabrir investigações. Como era esperado, a reabertura dos processos de investigação não levaram a nada.

A Uefa já mostrou ser, no mínimo, grosseiramente incompetente ao aplicar o Fair Play Financeiro. Em 2020, depois de punir o Manchester City com a exclusão por dois anos de competições europeias, a Uefa foi derrotada no Tribunal Arbitral do Esporte, meses depois, em um processo que provou a infração do clube, mas não o puniu porque a Uefa errou o procedimento.

Com tudo isso, é preciso que a Uefa esteja atenta. Sabemos que a entidade é leniente e sua fiscalização é no mínimo bastante deficiente. A própria situação do Barcelona é bastante conhecida. O clube estava no limite do permitido em relação a gastar no máximo 70% do seu orçamento com salários, com a diferença que a Uefa analisa depois que aconteceu e La Liga faz uma análise prévia, o que dificultou para o clube registrar o contrato acertado com Messi. Clubes como o Real Madrid e a Juventus vivem problema similar (não por acaso, os últimos integrantes da odiosa ideia da Superliga). Fica claro que a Uefa precisa reformular o seu sistema, além de melhorar os seus processos. Há, no mínimo, bastante incompetência por ali.

Em relação ao PSG, o clube diz que fez as contas, analisou a situação e isso terá que ser provado quando divulgarem as contas desta temporada, em 2022. É possível que consiga cumprir as regulamentações. Mas a falta de transparência do clube e a leniência da Uefa deixam as pessoas cada vez mais desconfiados que esta é uma dança de cartas marcadas.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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