La Liga

A possível saída de Messi é reflexo direto do caos que se instaurou nas finanças do Barcelona

O contexto da saída de Messi é amplo e aponta à situação delicada das contas do Barcelona, bem como às disputas de bastidores pela Superliga

Em sua nota oficial sobre a saída de Lionel Messi, o Barcelona se exime de culpa e também tira o peso da responsabilidade dos ombros do craque. Segundo os blaugranas, “os obstáculos econômicos e estruturais (regra de La Liga espanhola)” impediram a formalização do contrato mesmo com “a clara intenção das duas partes” na renovação. Diante da disputa de bastidores que se desencadeou nos últimos dias, o teor do comunicado permite que o clube bote pressão sobre a liga pelos rumos da situação. Porém, se a despedida de Messi chega a um limite, ela corresponde também as inúmeros erros de gestão do Barça – em consequências inclusive dos próprios contratos anteriores firmados com o camisa 10.

Desde o último ano, estava muito claro como o Barcelona deixou suas finanças prestes a implodir. A administração de Josep Maria Bartomeu é uma das piores que se tem notícia no futebol europeu. A renúncia do dirigente foi motivada pelo escândalo de corrupção e de difamação envolvendo seu mandato, mas estava mais do que óbvia a incapacidade do presidente na gestão da agremiação.

As dívidas decolaram nos últimos anos, fruto de uma série de apostas caras que não se pagaram em campo e mesmo das renovações contratuais suntuosas, em especial do próprio Messi. O clube operava no limite do que poderia pagar em salários, com uma folha que chegou a superar os €500 milhões em 2018/19, mais de €100 milhões acima de qualquer outro clube europeu. E a pandemia agravou ainda mais o cenário, com a retração da economia e a perda de receitas, não somente as relacionadas às arquibancadas.

Em janeiro de 2021, o Barcelona publicou seu balanço referente à temporada 2019/20. A situação parecia suficientemente caótica, com dívidas totais na casa de €1 bilhão, enquanto os débitos de curto prazo chegavam aos €730 milhões. Por mais que os blaugranas permanecessem com um dos maiores faturamentos do futebol mundial, a pandemia reduziu esses valores. As arquibancadas fechadas secavam uma fonte importante, enquanto o consumo de produtos licenciados se reduziu e as receitas televisivas diminuíram. Também se reportam perdas em contratos comerciais, a exemplo de uma diminuição no valor do patrocínio da Rakuten para estampar a camisa. Mesmo vendas de jogadores se tornaram mais difíceis para gerar dinheiro, sem que a maioria dos clubes tivesse bala na agulha.

No fim das contas, o coronavírus causou um impacto inicial de €200 milhões nos cofres do Barcelona, representando 20% a menos da arrecadação prevista anteriormente. Paralelamente, o endividamento aumentou. O clube precisou captar empréstimos bancários para cobrir os rombos e os vencimentos próximos de outros débitos aumentavam a pressão.

A situação gerou uma bola de neve no Barcelona. As muitas dívidas provocadas por jogadores contratados, arrastando-se ao longo da amortização, se somaram aos gastos elevados com folha salarial e também aos empréstimos contraídos para contornar as perdas provocadas pela pandemia. O resultado disso é expresso na gestão de Joan Laporta, que tenta desarmar a bomba deixada por seu antecessor. O Barça não tem dinheiro para contratações e seus principais negócios nesta janela de transferências se voltaram a atletas sem contrato.

Com o calo apertado, somente uma readequação tornaria possível a adição de novos jogadores ao Barcelona. A redução de salários nas renovações é urgente, algo que ganha um apelo junto aos medalhões para que o time se torne mais competitivo. Todavia, ainda são necessárias as vendas de jogadores como Philippe Coutinho ou Ousmane Dembélé para aliviar a situação – algo difícil pela instabilidade de ambos e pela própria retração do mercado de transferências com a pandemia. Não à toa, a diretoria também cogita abrir mão de nomes pouco aproveitados, como Miralem Pjanic, apenas para se livrar dos salários.

Tais medidas acontecem porque o Barcelona corre contra o tempo para se adequar ao sistema de controle financeiro de La Liga, uma questão vital. Diferente do Fair Play Financeiro da Uefa, La Liga não olha as contas passadas, mas sim estipula um teto gastos futuro. Tal valor é elaborado através de uma análise que leva em conta receitas, lucros e perdas. Com a arrecadação em retração e as dívidas enormes, esse limite do Barcelona se reduziu bastante para 2020/21. O montante precisaria se reduzir em cerca de €200 milhões, segundo estimativas, para evitar penalidades dentro de La Liga e até mesmo para viabilizar a inscrição de novos contratados.

Diante disso, o próprio Messi cedeu para alinhar sua permanência na renovação que se desenhava. O atacante chegou a votar no pleito presidencial do Barcelona e não escondia que a volta de Laporta poderia abrir o caminho à sua continuidade. Da mesma maneira, o próprio Laporta usou tal possibilidade de manter Messi como seu trunfo eleitoral. O acordo vislumbrado entre ambas as partes reduziria pela metade o salário do craque nesta temporada, para que as contas pudessem ser fechadas no Barça. Haveria um aumento salarial apenas na próxima temporada e o contrato se estenderia por cinco anos, ainda com uma função de embaixador ao argentino no futuro que permitiria tornar mais flexível tal acerto. No fim, tudo ruiria nesta quinta.

Cabe dizer que, embora tenha aberto mão de dinheiro por ora, Messi também pleiteava um Barcelona mais forte. Um de seus interesses era de que o clube ainda tivesse capacidade de trazer um reforço de peso para a defesa. A vinda de Cristian Romero, da Atalanta, seria um pedido direto de seu companheiro de seleção. O fracasso nas tratativas, com a possível mudança do beque para o Tottenham, passou a ser visto então como um ponto de fricção. Todavia, parece pouco para fazer Messi desistir do clube de sua vida.

Entretanto, segundo o Mundo Deportivo, Laporta teria sido mesmo um ator fundamental para frear a renovação. O dirigente estaria “cansado de tantas idas e vindas” em relação à assinatura e também das novas demandas. Repensar o impacto econômico que a permanência de Messi geraria é um ponto, embora o contexto se sugira bem mais amplo. Não parece coincidência que a atitude do Barça ocorra na mesma semana em que La Liga alinhou um acordo que injetará dinheiro na competição, ao passo que tirará o poder decisório e a autonomia dos dois gigantes espanhóis.

Horas depois de anunciar o adeus de Messi, o Barcelona também publicou um comunicado se opondo ao acordo de La Liga com o fundo de investimento CVC. O clube considera que a operação não foi discutida o suficiente pelos clubes e põe em xeque a longa duração do vínculo, que comprometeria direitos de transmissão durante os próximos 50 anos. Tal trato impediria a criação de uma Superliga, como ainda pretende o Barça. De maneira até incongruente, o clube questiona o movimento de La Liga diante do “cenário pós-pandêmico”, algo que os próprios catalães não pensaram quando ajudaram a lançar a Superliga.

O dinheiro injetado pela CVC em La Liga poderia ampliar o teto salarial do Barcelona e, em consequência, também acomodaria a renovação de Messi sem romper os limites estipulados pela competição. Contudo, os blaugranas não parecem dispostos em dispensar seu projeto individual para garantir a permanência de seu ídolo máximo. E o cerne da questão está nas dificuldades financeiras do clube. Se tanto Barça quanto Real ainda se agarram à Superliga como bote de salvação, a péssima situação financeira indica o porquê de preferirem essa saída para evitarem um encolhimento econômico, dentro de uma bolha que os dois clubes alimentaram.

Diante de tal realidade que o Barcelona se impôs, a permanência de Messi dependia de malabarismos. Mas nada indica que a saída do craque representará apenas um alívio às contas. Sem o camisa 10, os blaugranas perdem também seu maior apelo comercial. Se o time dentro de campo dependia demais do argentino, também há uma dependência na própria imagem atrelada a Messi. Muito provavelmente, a arrecadação com acordos de patrocínio e com venda de produtos tende a cair sem o gênio. É outro risco claríssimo que se corre em meio a esta movimentação. Em alguns aspectos, o adeus também representará seu custo.

Fato é que, quando o Barcelona tenta indicar que “as regras de La Liga” resultaram na impossibilidade de renovar com Messi, o clube varre para baixo do tapete sua própria responsabilidade. Laporta herdou o caos de Bartomeu e o caminho escolhido vai mais pela busca de uma autonomia egocêntrica do que uma cooperação com a Liga – nem que isso provoque novas disputas de bastidores e coloque um ponto final na história do maior barcelonista de todos. Afinal, se Messi sair, a presidência atual tem suas desculpas para se livrar do fardo, muito embora siga com outros problemas gigantescos para lidar.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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