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PSG maquia € 125 milhões em suas contas

O Fair Play Financeiro foi lançado sob a esperança de que pudesse frear as desigualdades entre clubes bancados por magnatas e aqueles que tentam manter suas contas equilibradas. No entanto, com o passar do tempo, as dúvidas sobre a eficácia do método começaram a pairar. E, às vésperas do início de sua aplicação, começam a surgir os indícios de que não demorará muito para as regras começarem a ser quebradas.

Um dos principais ameaçados pelo controle de gastos, o Paris Saint-Germain é candidato a ser o primeiro a burlar o sistema. Comprado pelo Qatar Sports Investments (QSI) em 2011, o clube torrou desde então mais de € 250 milhões apenas em reforços. Gastos desenfreados para colocar o time na elite do futebol europeu, mas que passam longe da sustentabilidade financeira pregada pela Uefa.

Os “outros produtos” do PSG

Os temores sobre o Paris Saint-Germain são reforçados principalmente pela falta de transparência em suas contas desde que foi adquirido pelo QSI. Anualmente, os parisienses precisam apresentar um relatório financeiro à DNCG (Direção Nacional de Controle de Gestão), entidade ligada à Liga de Futebol Profissional (LFP) e que cuida da contabilidade dos clubes franceses. Nos dois últimos anos, a diretoria não abriu esses documentos ao público.

Os números divulgados pela DNCG, entretanto, evidenciam a maquiagem realizada pelo PSG em seus balanços. O prejuízo de € 5,5 milhões apresentado em 2011/12, na primeira temporada monitorada pelo Fair Play Financeiro é relativamente baixo e não colocaria o clube em xeque junto à Uefa. Para ser reprovado nas competições continentais da temporada 2014/15, quando as regras começam a valer, o déficit teria que ser superior a € 45 milhões.

Mas, conforme destacado pelo blog britânico “Financial Fair Play”, há um item que chama atenção entre as receitas (veja a imagem). Sem serem especificados, os “outros produtos” renderam € 125 milhões aos parisienses – mais do que os ganhos com dias de jogo, mídia e acordos comerciais. Obviamente, uma maneira de não explicitar o apadrinhamento da QSI nas contas. Sem esse montante, os parisienses apresentariam déficit de € 130 milhões.

Balanço PSG

A explicação para o mistério teve suas pistas dadas em janeiro deste ano, quando o Paris Saint-Germain anunciou polpudo acordo de patrocínio com a Qatar Tourist Authority (QTA), com qual o clube se tornou embaixador do turismo no país do Oriente Médio. Pela tarefa, o grupo dará € 150 milhões anuais ao PSG. E, curiosamente, o valor poderia ser pago de maneira retroativa.

A princípio, o “retroativo” dava ideia de que o dinheiro valeria também para os meses anteriores da atual temporada, não contemplados pelo negócio. Contudo, conforme alertado pelo jornal Le Parisien, esta foi a forma encontrada pelo QSI para fechar também as contas de 2011/12. Os “outros produtos” vêm exatamente do patrocínio, benevolente ao pagar gastos de quando o acordo sequer existia.

Os riscos de punição

A expectativa agora recai sobre como o assunto será tratado pelo Órgão de Controle Financeiro dos Clubes (CFCB), ligado à Uefa, mas que atua de forma independente. A entidade já demonstrou não estar disposta a aliviar as punições aos transgressores, ao banir o Málaga da próxima edição da Liga dos Campeões para a qual se classificar por não quitar seus débitos.

Segundo as regras do Fair Play Financeiro, todas as transações entre partes relacionadas (como a QTA e o QSI) devem ser avaliadas pelo organismo, que determinará um valor justo para o negócio. O fato é que o acordo dificilmente se manterá em € 200 milhões, já que a QTA não tem qualquer ação de marketing relacionada ao PSG, como patrocínio de uniforme ou naming rights de estádio. Para comparação, o governo do Azerbaijão paga € 20 milhões anuais ao Atlético de Madrid para propagandear o turismo no país na camisa rojiblanca.

Caso o CFCB admita irregularidades nos negócios do PSG, o mais provável é que o clube receba uma pena parecida com a do Málaga, perdendo a vaga na próxima competição continental para a qual se classificar, ou tenha sua premiação pela participação na atual Liga dos Campeões congelada – o que, convenhamos, não fará falta. Um dos primeiros testes para saber se o Fair Play Financeiro deverá ser levado a sério não só pelos clubes, como também pelo público.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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