Eurocopa 2024

Todos contra a Sérvia: como a Eurocopa reabriu cicatrizes e virou aula prática de geopolítica

Sim, se misturam: torcidas dos países dos Bálcãs, como Sérvia, Albânia e Croácia, acumularam multas por polêmicas extra-campo na Euro

A edição de 2024 da Eurocopa, disputada neste momento na Alemanha, é a prova que o futebol é mais do que um jogo e é impossível se dissociar da política.

Vemos as partidas no continente europeu serem o pano de fundo para as manifestações que fogem do campo esportivo. As mensagens não vieram só das arquibancadas, mas também de jogadores e jornalistas.

Os países da região dos Bálcãs, como Sérvia, Croácia e Albânia, localizados no sudoeste da Europa, foram os protagonistas destas polêmicas. Além do trio que participou da competição, até o Kosovo esteve envolvido.

Balcãs é o nome dado à cadeia de montanhas (em verde mais escuro no centro do mapa), que marca o relevo do território do leste europeu. Por isso, são conhecidos como balcânicos os países que estão localizados nesta região.

Navegue pelo mapa:

Como visto na cobertura da Trivela, a Uefa buscou frear esse clima quente entre as nações com punições esportivas e financeiras.

Mas quais os reais motivos da truculência entre os países balcânicos e como o futebol serviu como barril de pólvora para essas tensões.

O motivo do ódio contra os sérvios e a polêmica com Kosovo

Torcida da Albânia durante a Eurocopa exibe a faixa "Kosovo é Albânia"
“Kosovo é Albânia”: a mensagem da torcida albanesa durante a Eurocopa 2024 (Foto: Icon Sport)

A região dos Bálcãs é um local marcado por disputas de territórios, guerras e tensões que emergem há séculos.

Os casos mais recentes, que potencializam as manifestações vistas na Euro 2024, acontecem muito pelos conflitos armados dos anos 90.

À época, Sérvia, Croácia, Kosovo e outros países, de etnias e culturas distintas, faziam parte da Iugoslávia (1918-1992).

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O mapa da antiga Iugoslávia (Imagem: arquivo Wikipedia)

A partir de movimentos históricos na Europa, como a dissolução de União Soviética e a queda do muro de Berlim, a Iugoslávia começou a ruir com a tentativa de independência de alguns dos territórios, e a capital política da nação, Belgrado (Sérvia), fez de tudo para reprimir isso – explica o professor de política internacional Tanguy Baghdadi, em entrevista à Trivela.

– Quando a Iugoslávia acabou, a Sérvia, que controlava de fato a antiga nação, usou medidas genocidas em diversos momentos contra croatas e albaneses – estes, particularmente no Kosovo. Foram guerras muito sangrentas e violentas envolvendo esses povos. Pela Sérvia ser considerada exatamente o núcleo da Iugoslávia, eles são responsáveis pelas atrocidades inacreditáveis feitas lá na tentativa de impedir a independência ou a separação desses outros países. – detalhou Baghdadi.

A Guerra da Croácia aconteceu entre 1991 e 1995, causando a morte de cerca de 20 mil pessoas.

Já o conflito em Kosovo, país com maioria da população de origem albanesa, se estima que morreram ou desapareceram mais de 10 mil pessoas, além de denúncias de violência contra mulheres por parte do exército sérvio. Exatamente neste ponto onde entram algumas questões que vimos nesta Euro.

Durante o empate em 2 a 2 entre Croácia e Albânia, ambas as torcidas gritaram “mortes aos sérvios“, o que rendeu até ameaça de saída da Federação Sérvia de Futebol da competição.

Já os torcedores sérvios foram punidos pela Uefa por exibir uma faixa com o mapa da Sérvia contando com o território de Kosovo, independente de forma unilateral desde 2008, mas importante para o nacionalismo sérvio, como conta o especialista.

— A região do Kosovo é simbólica para os sérvios porquê, quando eles falam sobre a sua unificação, estão falando sobre a Batalha do Kosovo, que aconteceu no ano de 1314, contra os otomanos, e é considerada o primeiro momento no qual os sérvios todos se uniram em torno de uma identidade própria — explicou, mas ponderando a influência albanesa na região:

— A questão é que o Kosovo tem a maior parte da população etnicamente albanesa. Então, eles querem separar da Sérvia para ficarem como país independente ou se juntar à Albânia. E naturalmente a Sérvia não permite, tanto pela questão simbólica da identidade sérvia, como por uma questão de manutenção do seu território — completou o mestre em relações internacionais pela PUC do Rio de Janeiro.

Inclusive, essa herança albanesa já rendeu provocações dentro do campo.

No duelo entre Sérvia e Suíça, na Copa do Mundo de 2018, Granit Xhaka, filho de kosovares, e Xherdan Shaqiri, nascido em Kosovo, fizeram o símbolo da águia de duas cabeças, que representa a Albânia.

Na atual Euro, o jornalista kosovar Arlind Sadiku teve a credencial caçada pela Uefa após fazer o mesmo símbolo para torcida sérvia.

O nacionalismo albanês que terminou em suspensão

O atacante Mirlind Daku, da Albânia, foi suspenso por dois jogos pelos gritos “F… a Sérvia, F… os macedônios!”, que emitiu, com um megafone, também após o empate com a Croácia na 2ª rodada.

O ódio aos sérvios já foi explicado, mas por que atacar os macedônios?

Isso acontece por uma vertente nacionalista dos albaneses, de uma “Grande Albânia“, que abrangeria partes de outros países, onde também há uma população de albanesa.

— Essa ideia da Grande Albânia diz respeito à ideia de que o Estado deve corresponder à composição étnica. Então, eles consideram que onde há albaneses, ou seja, no Kosovo, na Macedônia do Norte, na Grécia e em Montenegro, é a Grande Albânia. Não é muito diferente de outras ideias que apareceram por aí, por exemplo, da própria Grande Sérvia, a Grande Rússia, onde há sérvios é a Sérvia, onde há russos é a Rússia — expõe o professor.

O esporte pode ser a gasolina para um conflito?

As manifestações políticas citadas mostram como a tensão está no ar e levanta a questão se isso poderia desencadear, quem sabe, um conflito maior.

Para Baghdadi, o futebol não teria esse poder, mas o esporte serve para aflorar algo que já existe.

O especialista relembrou a joelhada do ex-atacante Zvonimir Boban em um policial sérvio em 1990, quando jogava pelo Dinamo Zagreb e enfrentava o time sérvio Estrela Vermelha pelo Campeonato Iugoslavo.

Essa ação, realizada como uma resistência à violência policial contra a torcida croata no estádio, ficou conhecida por ser um dos estopins para iniciar a guerra da Croácia.

– O futebol apenas explicita para todo mundo o que já existe. Então, se o futebol por acaso é visto como algo que amplifica algo, é porque aquilo já existia, já estava lá. É mais um espaço no qual a gente mais consegue ver as coisas do que exatamente onde as coisas acontecem em si. Eu gravei um vídeo recentemente sobre a joelhada do Boban, que é considerado um dos elementos que ajuda na crise entre a Croácia e a Iugoslávia. Mas não é a ajoelhada do Boban que faz aquilo, a ajoelhada do Boban explicita algo que já existia. – conclui Tanguy Baghdadi.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.
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