Como o passado colonialista ajuda a explicar o sucesso das seleções de França e Portugal

Quando se ouviu o brado retumbante às margens do Ipiranga, ele já ressoava décadas antes, desde o outro lado do Atlântico. A independência do Brasil, em 1822, é reflexo direto do contexto trepidante da Europa durante as Guerras Napoleônicas na Europa. Um processo que se intensifica desde a fuga da família real para o Rio de Janeiro. E que é o exemplo mais notável da maneira como os interesses de Portugal e França se chocaram durante os últimos cinco séculos. Duas potências colonialistas que viveram momentos fundamentais de suas histórias colocando vários cantos do mundo sob os seus domínios.
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O Império Português largou na frente na corrida ultramarina, a ponto de expulsar os franceses em suas tentativas de se estabelecer no território brasileiro durante o Século XVII – a França Antártica (Rio de Janeiro) e a França Equinocial (São Luís). No entanto, a França intensificou sua política de expansão além da Europa a partir do Século XIX, independente dos poderes que se sucediam internamente. Entre monarquia, império e república, os franceses se estabeleceram em vastas áreas, principalmente no Sudeste Asiático e na África – onde Portugal seguiu como uma metrópole representativa, apesar de suas crises. Tais possessões atravessariam a metade do século seguinte sob controle francês ou português. Até as guerras de independência tomarem os continentes africano e asiático a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. A França sofreu suas principais derrotas até o início da década de 1960, enquanto Portugal perdeu suas maiores colônias nos anos 1970.
E, depois de ler tudo isso, você me pergunta: o que esse breve resumo da história tem a ver em um site de futebol? Bastante, meu caro. É só olhar para os elencos de França e Portugal que se enfrentam na decisão da Eurocopa deste domingo. A influência das antigas potências colonialistas segue reverberando dentro do campo de futebol. Assim que franceses e portugueses montaram as suas melhores seleções ao longo da história: contando com jogadores que, de uma forma ou outra, recontam o passado de domínios ultramarinos. Alguns deles permanecem como protagonistas e podem ser decisivos no Stade de France. Sem entrar em méritos e deméritos da postura, o fato é que os reflexos são inegáveis.
Da libertação à migração, a França se fortaleceu

A noção sobre uma seleção francesa multinacional se intensificou em 1998. Os Bleus conquistaram a Copa do Mundo com uma equipe multiétnica, composta por diversos imigrantes ou seus descendentes. Obviamente, como uma das maiores economias da Europa, o país se tornou destino de diferentes massas migratórias – em um reflexo que não é exclusivo e pode ser cada vez mais notado em seleções como as de Alemanha, Bélgica ou Suíça. De qualquer maneira, não é mera coincidência que grande parte destes atletas tivessem origem nas antigas colônias. Embora o domínio tenha se encerrado, outros tantos laços econômicos e culturais sustentam esse fluxo.
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A presença de jogadores das colônias na seleção francesa tornou-se marcante a partir da década de 1930. Raoul Diagne foi o primeiro jogador negro a vestir a camisa dos Bleus. Nascido na Guiana Francesa, o defensor vinha de uma família de origem senegalesa influente: seu pai foi deputado na Assembleia Nacional e Ministro das Colônias. No entanto, o craque renegou os desejos de seu patriarca para seguir carreira no futebol. Descoberto pelo Racing de Paris, chegou à equipe nacional em 1931. O “Aranha”, como era conhecido, disputou a Copa do Mundo de 1938 em uma seleção composta por vários imigrantes de países europeus, mas na qual também figurava outro atleta de origem africana: Abdelkader Ben Bouali, nascido na Argélia, que ascendeu de uma família rica para o futebol. Isso sem contar atletas com etnia europeia, mas nascidos nas colônias do norte da África, onde a metrópole fazia investimentos maiores no desenvolvimento local em comparação às posses subsaarianas. Entre estes está Alexandre Villaplane, o pioneiro neste sentido, nascido em Argel e capitão no Mundial de 1930.
No entanto, mais do que a presença destes pioneiros, outro passo fundamental para a que as barreiras ruíssem aconteceu em 1932, quando o futebol francês adotou o profissionalismo – e teve justamente Diagne como um de seus maiores ativistas. Os preconceitos quanto à origem abrandaram, quando o que interessava para contratar um craque era a mesmo a qualidade. Assim, o argelino Ali Benouna chegou à seleção, deixando o seu trabalho nas docas. Assim também, o futebol europeu ganhou o seu primeiro ídolo negro. Larbi Benbarek trabalhava como faxineiro no Marrocos até ser pinçado pelo Olympique de Marseille. Disputou seu primeiro jogo pelos Bleus em 1938 e continuou defendendo o país até 1954, depois de se consagrar com a camisa do Atlético de Madrid.
Durante a década de 1950, com a reconstrução do país e da seleção após a Segunda Guerra Mundial, a presença de jogadores vindos das colônias se tornou corriqueira. O elenco da Copa do Mundo de 1954 tinha um martinicano, um marroquino e um argelino. Já quatro anos depois, a equipe que chegou à semifinal na Suécia acabou protagonizada por Just Fontaine, de etnia francesa, mas nascido em Casablanca, filho de um funcionário da indústria estatal de tabaco. E a presença dos magrebinos poderia ser maior, não fosse a luta de independência que já se dava naquele momento. Em 1958, os principais craques argelinos do futebol francês formaram uma seleção para divulgar a Frente Nacional de Libertação, principal movimento pela descolonização. Entre eles estavam cinco jogadores que já haviam defendido a França, incluindo Abdelaziz Ben Tifour, titular no Mundial de 1954.
A partir da década de 1960, com os processos de independência na África, a quantidade de jogadores árabes se reduziu. Entretanto, o próximo esquadrão formado pelos franceses voltou a buscar auxilio no além-mar. Considerado um dos 125 maiores jogadores no centenário da Fifa, Marius Trésor nasceu em Guadalupe e deixou a ilha caribenha depois de ser contratado pelo Ajaccio. Foi o capitão no Mundial de 1978, com a companhia do martinicano Gérard Janvion. Em 1982, a dupla ganhou a parceria de Jean Tigana, meio-campista cerebral que nasceu em Mali, filho de pai malinês e mãe francesa, emigrando para Marselha aos três anos. Em 1984, Tigana era um dos destaques do time na conquista da Euro.

Em grandes competições, o mapa francês se expandiu um pouco mais na Euro 1992, com a presença de Pascal Vahirua, o primeiro polinésio a jogar pelos Bleus. Até o ápice multiétnico na Copa de 1998. O caledônio Christian Karembeu e o guadalupense Lilian Thuram viveram na França a partir da adolescência. Bernard Lama e Thierry Henry nasceram na Europa, mas seus progenitores vieram das possessões nas Américas. Os pais de Zinedine Zidane deixaram a Argélia quando o país ainda era uma colônia. Já Patrick Vieira nasceu em Senegal, mas se mudou à antiga metrópole durante a infância com a família, que buscava melhores oportunidades. Um movimento que se tornaria cada vez mais comum. Foi o que aconteceu com membros posteriores dos Bleus, como o congolês Claude Makélélé (vindo de uma colônia belga, mas de ligação forte com a França), com o camaronês Alain Boumsong ou com o filho de marfinenses Djibril Cissé.
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No atual elenco da França, 13 dos 23 jogadores repercutem o colonialismo francês em suas origens – e isso porque Karim Benzema e Hatem Ben Arfa ficaram de fora. Evra, Umtiti e Mandanda nasceram na África, de onde vieram os pais de Rami, Kanté, Mangala, Pogba, Sissoko e Sagna. Martial e Coman possuem raízes em Guadalupe. A avó de Cabaye saiu do Vietnã, parte da antiga Indochina Francesa. Payet é de Reunião, ilha no Oceano Índico próxima a Madagascar e povoada pelos franceses no Século XVII. Já o caso mais curioso é o de Matuidi: é filho de um angolano que deixou o continente durante a infância, através do Zaire. Apesar da ascendência, o meio-campista não domina o português ou tem qualquer laço com angola, já que seu pai preserva a cultura banta – grupo etnolinguístico da região.
A identidade africana que levou Portugal ao topo

Em Portugal, a relação entre o futebol da metrópole e das colônias começa a se construir a partir da década de 1920. Naquele momento, os três grandes clubes do país constituem filiais em Angola, estratégia que se repetiria em outros territórios pela África. Uma das intenções da iniciativa era justamente prospectar talentos que pudessem servir às matrizes. Todavia, num primeiro momento, apenas luso-africanos (pessoas de origem portuguesa nascidas ou radicadas na África) ganhavam oportunidades. Um destes foi o lendário Fernando Peyroteo, o primeiro grande astro do futebol lusitano. Nascido em Humpata, em Angola, o atacante vinha de uma família abastada. Começou no Sporting de Luanda, antes de integrar o time leonino em Lisboa. Virou lenda, chegando a capitanear a seleção portuguesa.
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A abertura para os africanos só começa no fim da década de 1940, rompendo segregações que ocorriam entre a metrópole e a colônia. O substituto de Peyroteo no Sporting foi justamente um mestiço moçambicano: Mário Wilson, que depois faria carreira na Acadêmica de Coimbra. Já o primeiro negro a se tornar protagonista no Campeonato Português foi Matateu. Atacante de excelente porte físico e faro de gol, chegou ao Belenenses em 1951. Artilheiro nato, o moçambicano ganhou o apelido de ‘A Oitava Maravilha do Mundo’, anotando mais de 200 gols pela liga. Em 1952, começou a ser convocado à seleção portuguesa.
O sucesso de jogadores criados nas colônias começou a aumentar o interesse pelo futebol português naqueles territórios. Da mesma forma, os clubes lusitanos se acostumaram a buscar talentos na África, sobretudo em Angola e Moçambique. Algo que se refletiu também em uma renovação fundamental na Seleção das Quinas. Portugal sofreu uma séria crise de resultados durante os anos 1950. A reconstrução veio justamente pelos pés dos africanos, que estrelavam o campeonato local. Assim formou-se o esquadrão de 1966.
Base daquela seleção, o Benfica bicampeão europeu em 1961 e 1962 escalou quatro jogadores das possessões ultramarinas em cada decisão da Copa dos Campeões. O goleiro Costa Pereira e o capitão José Águas eram luso-africanos. A camisa 10 estampava as costas de Mário Coluna, talento moçambicano contratado em 1954. Na primeira final, contra o Barcelona, a 8 foi do angolano Joaquim Santana. Compreensivelmente, perdeu a posição para o fenomenal Eusébio. O moçambicano começou no Sporting de Lourenço Marques, antes de ser levado pelos benfiquistas aos 18 anos, em 1960. Dois anos depois, o garoto decidiu a histórica partida contra o Real Madrid, anotando dois gols na vitória dos encarnados por 5 a 3.

Eusébio e Coluna seguiram como referências da seleção portuguesa, terceira colocada na Copa do Mundo de 1966. Os dois craques tinham a companhia de mais dois africanos, ambos titulares: os defensores Hilário e Vicente (irmão de Matateu), nascidos em Moçambique. De certa maneira, a ascensão dos jogadores negros influenciou na política de Portugal em relação às colônias. Para facilitar as transferências, modificou-se a legislação trabalhista a quem tivesse origem africana. Os anos 1960 marcaram um afrouxamento em leis que serviam de barreira, embora ainda se privilegiasse uma elite de residentes na África. A partir de 1956, por exemplo, os atletas contratados precisavam de uma escolaridade mínima para que a contratação fosse firmada.
O sucesso em 1966, por sua vez, foi utilizado pela ditadura Antônio Salazar. Diante da pressão internacional e dos processos de descolonização na África, o Estado Novo defendia uma imagem de uma suposta integração através da seleção. Contudo, havia até mesmo futebolistas envolvidos nas lutas de libertação, que ganharam força principalmente com o restabelecimento da democracia em Lisboa, a partir da Revolução dos Cravos em abril de 1974. Nos meses seguintes, cinco países tornaram-se livres do domínio lusitano: Guiné-Bissau, Moçambique, Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe. Apesar disso, os laços entre as populações permaneceram. E seguiram repercutindo na seleção.
O time semifinalista da Euro 1984 tinha como referência ofensiva Rui Jordão, angolano que se transferiu ao Benfica na adolescência, quando o colonialismo resistia. No torneio continental de 1996, além de luso-africanos como Cadete e Paulo Madeira, havia o cabo-verdiano Oceano. Já a partir dos anos 2000, tornou-se comum os atletas nascidos em antigas colônias que preferiram defender os tugas. Abel Xavier, Vidigal e Rolando nasceram na África, mas foram criados em Portugal. Já Costinha e Luís Boa Morte estão entre aqueles cujos pais imigraram. Isso sem contar as ligações reforçadas com o Brasil dentro dos campos. Com a transferência massiva de jogadores brasileiros, começando na década de 1980, os casos de naturalização se repetiram algumas vezes, a exemplo de Liedson e Deco.
Relações que, no fim das contas, se enraízam também na Euro 2016. O elenco de Fernando Santos tem cinco jogadores nascidos em antigas colônias: Danilo Pereira (Guiné-Bissau), Éder (Guiné-Bissau), William Carvalho (Angola), Nani (Cabo Verde) e Pepe (Brasil). Renato Sanches é filho de uma cabo-verdiana com um são-tomense. Isso sem contar Eliseu e Cristiano Ronaldo, que vieram respectivamente de Açores e Ilha da Madeira, territórios ultramarinos historicamente ligados aos lusitanos. O pai de CR7, aliás, esteve no front durante as guerras de libertação na África, algo que influenciou em sua personalidade e na criação conflituosa do craque. Elos que tornam o Stade de France também um livro aberto da história neste domingo.

