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O atacante que trocou a fama na Europa por um país independente

Estrela do Saint-Étienne, então campeão da Ligue 1, e nome forte para defender a seleção francesa na Copa do Mundo de 1958. O sucesso imediato poderia virar a cabeça de qualquer jogador de futebol. Mas foi o que aconteceu com Rachid Mekhloufi. O atacante de 21 anos deixou a carreira promissora em busca de um ideal.

Mekhloufi se juntou à equipe da Frente de Liberação Nacional, que lutava pela independência da Argélia: “Eu era um pouco como uma criança mimada no Saint-Étienne. Mas vi e ouvi coisas. Todos os argelinos, mesmos os mais mimados, tinham que pensar na Argélia. No momento em que parti, virei a página. Para mim, pessoalmente, a página foi virada porque sabia que poderia nunca mais jogar pela França ou pelo Saint-Étienne novamente. O que eu consegui com a equipe da FLN não pode ser comprado nem como todo o ouro do mundo”.

A equipe servia como embaixadora da luta da FLN na Argélia. Além de Mekhloufi, vários outros jogadores da Ligue 1 se uniram à causa. Como Mustapha Zitouni, ídolo no Monaco e pretendido pelo Real Madrid, ou Mohamed Maouche, tido como o substituto de Raymond Kopa no Stade Reims. Sem ser reconhecida pela Fifa por pressão dos franceses, o time passou a rodar o mundo fazendo amistosos para divulgar seus ideais, sobretudo contra seleções de países comunistas e  do norte da África.

A grande vitória da FLN veio em 1962, com a independência da Argélia. O time de rebeldes, então, serviu como embrião da seleção argelina. Pouco depois, os jogadores reconquistaram a permissão para voltar a atuar na Ligue 1. Recebido com desconfiança pela torcida do Saint-Étienne, por ter protestado contra o imperialismo francês, Mekhloufi precisou de um lance de genialidade para voltar a ser ovacionado. Nos anos seguintes, recolocaria os Verts na primeira divisão, seria mais três vezes campeão nacional e marcaria mais de 150 gols.

A história de Mekhloufi é o segundo episódio da série “Os Rebeldes do Futebol”, produzida pelo cineasta francês Gilles Rof e apresentada por Eric Cantona. O documentário apresenta cinco histórias de ídolos do futebol que utilizaram suas influências para tentar mudar a realidade social e política de seus países. No primeiro capítulo, a narrativa mostra como Didier Drogba ajudou a encerrar uma guerra civil na Costa do Marfim. A série é exibida pelo canal Al Jazeera, que disponibiliza os episódios (em inglês) semanalmente em seu site.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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