Eurocopa 2024

Como a Eurocopa acompanhou a integração dos países da Europa além do futebol

Comparada com a Copa América, a Eurocopa é relativamente recente. No entanto, a afirmação de um torneio continental na Europa a partir do fim da década de 1950 faz um sentido enorme. Corresponde com o contexto da construção de uma integração cada vez maior entre os países europeus. E, muitas vezes, caminhou lado a lado ao panorama histórico e político da região. Algo que se nota principalmente por reflexos da sociedade nas tabelas da Euro ao longo desses 56 anos.

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A ideia de se criar um campeonato europeu de seleções, na verdade, surgiu de muito antes. Em 1927, o secretário-geral da Federação Francesa de Futebol, Henri Delaunay, sugeriu a formação do torneio à Fifa. No entanto, a ideia não saiu no papel naquelas primeiras décadas, tanto pela concorrência que poderia se causar com a recém-fundamentada Copa do Mundo, como também pelos entraves políticos que passaram a se desenhar no continente e que acabaram desencadeando a Segunda Guerra Mundial. A única iniciativa concreta neste sentido veio entre cinco países (Itália, Áustria, Tchecoslováquia, Hungria e Suíça), que entre 1927 e 1935 disputaram três edições da Copa Internacional da Europa Central – a versão de seleções da histórica Copa Mitropa.

Durante a segunda metade da década de 1950, contudo, o ambiente na Europa mudou bastante. Os países já cicatrizavam as feridas abertas após a Segunda Guerra Mundial. A reconstrução foi seguida pela recuperação econômica. Além disso, em um mundo que se dividia na Guerra Fria, os países da porção ocidental se agrupavam dentro de uma cooperação, ao mesmo tempo que a União Soviética erigia a sua Cortina de Ferro à leste. A noção de uma comunidade europeia teve as suas bases lançadas em 1957, quando Bélgica, França, Itália, Luxemburgo, Holanda e Alemanha Ocidental firmaram o Tratado de Roma – que, no futuro, se desenvolveria como a União Europeia.

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No entanto, se a política ainda separava, o futebol mantinha sua capacidade gigantesca de integrar. Em 1955, o lançamento da Copa dos Campeões ajudou a aproximar os países através de seus clubes. Já a competição europeia de seleções teve o seu pontapé inicial, enfim, em 1958, com o início das Eliminatórias. Mostras de aproximação cultural, apesar de alguns atritos políticos que se expuseram dentro de campo.

Naquela primeira edição, a Eurocopa contou com ausências notáveis. Os britânicos, mais uma vez, desdenharam de um torneio que fugisse de seus tradicionalismos. Enquanto isso, Alemanha Ocidental e Itália polidamente recusaram. E, na tabela, o entrave político repercutiu. O General Francisco Franco não permitiu que a Espanha viajasse a Moscou para enfrentar a União Soviética nas quartas de final. Abriu, assim, o caminho para o título soviético. Na fase final, disputada na França, três países da Cortina de Ferro se colocaram em confronto com os anfitriões. A URSS derrotou a Iugoslávia na decisão.

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Com o tempo, a Eurocopa passou a ter seu peso reconhecido pelos demais países. Em 1964, Inglaterra e Itália entraram nas Eliminatórias, o que a Alemanha Ocidental e a Escócia fariam a partir de 1968. Já a fase final, com apenas quatro participantes, refletiu um bocado o jogo de forças da Guerra Fria. Até 1976, quando o formato se manteve, foram 11 participações de países de comunistas e nove de capitalistas. Porém, o lado ocidental prevaleceu no alto do pódio: Espanha, Itália e Alemanha Ocidental deixaram o placar geral em 3 a 2, contra os títulos da União Soviética e da Tchecoslováquia.

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Naquele momento, estar presente na fase final da Eurocopa era mais difícil do que chegar à Copa do Mundo. E o crescimento do torneio continental culminou na expansão do número de participantes para oito, a partir de 1980. O contexto da Europa também se transformava, em um período no qual tanto a economia do futebol se fortalecia. Só que, do lado oriental, os países comunistas começavam a perder representatividade, até pelas dificuldades internas que enfrentavam com o desmoronamento das estruturas comunistas.

Do ponto de vista geopolítico, talvez não haja uma edição mais emblemática da Eurocopa do que a de 1992, a última com oito participantes. Também a última com as divisões da Guerra Fria ainda refletidas na tabela. A Iugoslávia, cotada como uma das favoritas, perdeu sua vaga na fase final por causa das guerras de independência. A antiga União Soviética, desmembrada, disputou o seu único torneio de futebol como a Comunidade dos Estados Independentes – composta por 11 das 15 repúblicas soviéticas. Já a Alemanha fazia a sua primeira participação unificada, convocando três jogadores que defenderam a seleção alemã-oriental: Matthias Sammer, Thomas Doll e Andreas Thom.

O ano de 1992 também representaria outras quebras importantes, tanto no contexto geral quanto no futebolístico. Em fevereiro daquele ano, os membros da Comunidade Europeia assinaram o Tratado de Maastricht, que firmou a União Europeia, com uma aproximação ainda maior dos países na economia e na estrutura política. Já em agosto, a Copa dos Campeões virou Liga dos Campeões, sob as expectativas de alavancar o potencial financeiro do principal torneio de clubes do continente.

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A Eurocopa também viveu novas transformações em 1996, com 16 seleções. Inaugurou um período no qual as nacionalidades estavam cada vez menos limitadas às fronteiras, diante da globalização, assim como acompanhou a transformação do cenário dos clubes com o impacto da Lei Bosman. O torneio de seleções, no fim, servia tanto para expor uma Europa que ganhava fôlego economicamente e também para representar as novas fragmentações locais, com países que se classificaram pela primeira vez depois do desmembramento das antigas potências. O ápice deste processo veio em 2012, com a Ucrânia se tornando uma das sedes.

Por fim, a Euro desenha um novo caminho a partir de 2016. Se há uma crise instaurada sobre o futuro da União Europeia, o torneio de seleções se pulveriza. A atual edição será a primeira com 24 seleções, quase metade do total de países que disputa as Eliminatórias. Enquanto isso, em 2020, realizará uma edição sem sede fixa, com vários países recebendo os jogos da fase final. Tudo isso em um continente que convive com os debates constantes sobre austeridade econômica e papel do nacionalismo. O que será no futuro? Difícil traçar um caminho. Mas é bem possível que a Eurocopa permaneça refletindo.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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