Champions League

‘Futebol 2.0 x Haramball’? Estilo do Arsenal não pode ser desmerecido frente à metodologia do PSG

Luis Enrique e Mikel Arteta têm filosofias de jogo bem distintas e medirão forças na final da Champions League

A Puskas Arena, em Budapeste, na Hungria, será o palco da grande final da Champions League. Atual campeão europeu, o PSG de Luis Enrique terá a chance de manter sua hegemonia. Do outro lado, o Arsenal de Mikel Arteta vem embalado com o fim do jejum de 22 anos sem vencer a Premier League. Dois dos melhores e mais caros elencos da Europa.

O duelo deste sábado (30), às 13h (horário de Brasília), também coloca frente a frente duas filosofias bem distintas entre os treinadores espanhóis. Enquanto os Parisienses ficaram conhecidos por serem avassaladores com a posse, praticando um futebol intenso e ofensivo, os Gunners se fortaleceram no trabalho sem bola, com marcações firmes e dominância em jogadas ensaiadas.

Não à toa, Luis Enrique comanda o melhor ataque do torneio da Uefa com 44 gols marcados. Arteta, por sua vez, é dono da melhor defesa com apenas seis gols sofridos na Liga dos Campeões. Embora ambos tenham tido sucesso nesta temporada com suas preferências táticas, o Arsenal recebe mais críticas do que o PSG por suas atuações.

Mas a discussão sobre os sistemas não pode ser desrespeitosa. Você pode até não achar divertido o que os Gunners fazem em campo, mas é inegável que a estratégia pode ser tão eficaz quanto a dos Parisienses para erguer a orelhuda.

Quem será que leva a melhor? A redação da Trivela escolheu quem vai ser o campeão da Champions League.

O contraste das avaliações sobre PSG e Arsenal

Arteta é o técnico do Arsenal
Arteta é o técnico do Arsenal, IMAGO / Action Plus

Um exemplo claro foram as avaliações contrastantes das semifinais da competição. O PSG fez uma decisão eletrizante e imprevisível contra um Bayern de Munique a sua semelhança, cujo placar agregado dos dois jogos terminou em 6 x 5. Já os Gunners eliminaram um Atlético de Madrid igualmente conservador com um 2 a 1 na soma dos resultados.

Para quem gosta de gols, o jogo praticado pelo clube francês pode ser exaltado como uma espécie de “futebol 2.0”, uma revolução digna de diversos elogios. Ao mesmo tempo, as apresentações da equipe inglesa receberam o estigma do “haramball”, um anti-jogo que desperta repulsa em quem desaprova uma escola mais defensiva.

— Com o 5 a 4 do PSG sobre o Bayern, estávamos nas nuvens. Agora estamos de volta ao planeta Terra (empate por 1 a 1 entre Atlético de Madrid x Arsenal). No jogo entre PSG e Bayern vimos futebol total, no outro, vimos apenas futebol — disse Thierry Henry à “CBS Sports Golazo Network” após o confronto de ida, no dia 30 de abril.

— Francamente, foi entediante (Arsenal 1 x 0 Atlético de Madrid). Não teve nada a ver com uma semifinal. Faltou intensidade, criatividade e qualidade no ataque. Após 35 minutos, tive vontade de ligar para que a Uefa cancelasse o jogo, mandasse os jogadores saírem de campo e anunciasse que a final seria disputada entre Bayern de Munique x PSG — disparou Wesley Sneijder a “Ziggo Sport” após a partida de volta, no dia 5 de maio.

Luis Enrique, técnico do PSG
Luis Enrique, técnico do PSG. (IMAGO / ZUMA Press Wire)

Esses foram apenas alguns comentários que compararam a definição dos dois finalistas da Champions. Um dos poucos nomes a se posicionar contra a chuva de gols de PSG x Bayern de Munique foi Alessandro Melli. O ex-atacante italiano, com passagens por Parma, Sampdoria e Milan, valorizou um maior equilíbrio defensivo, o que dividiu opiniões.

— Um jogo que já não prevê mais defesa, marcação, nem proteção no meio-campo, esse futebol para mim dá literalmente nojo… Sabem quem ama esse futebol? As televisões, os narradores e os torcedores para quem basta ver gols, mas que não entendem nada deste jogo. O futebol atual virou a nova NBA — desabafou Melli no final do mês passado.

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O que Luis Enrique e Mikel Arteta dizem um sobre o outro?

Mesmo adversários, Luis Enrique e Mikel Arteta não escondem a admiração que nutrem um pelo outro. Em coletiva na última semana, o técnico dos Parisienses parabenizou o treinador dos Gunners por conquistar o título inglês depois de três vices consecutivos, destacando sua eficácia tanto na defesa, quanto no ataque, diante de rivais da primeira prateleira mundial.

— Acho que eles mereceram ganhar o campeonato, fizeram uma temporada brilhante. Sem a bola, são o melhor time do mundo, e com ela conseguem marcar muitos gols. É uma combinação maravilhosa — confidenciou.

Ao jornal “Marca”, Arteta também aplaudiu Luis Enrique. O treinador do Arsenal apontou que o técnico do PSG precisa ser exaltado por se manter fiel a sua ideologia ao longo da carreira. Não custa lembrar que ele disse que sua equipe seria ainda mais forte sem Kylian Mbappé, que anunciou sua transferência para o Real Madrid, no primeiro semestre de 2024.

— Ele é alguém que teve a liderança de seguir um caminho e, mesmo com todo o barulho contra ele, continuar nesse caminho e acabar vencendo da maneira que venceu. Ele é um exemplo para todos — pontuou.

Cada um faz seu melhor com o contexto que tem à disposição

Que fique claro que todo mundo é livre para achar um futebol mais bonito do que o outro, até porque gostos são individuais. Só que não dá para ignorar que os espanhóis extraem o máximo potencial de seus times com base no contexto em que estão inseridos.

Na França, Luis Enrique pode gozar de um orçamento quase ilimitado para reforçar seu grupo. Dominante na Ligue 1 e na Copa da França, os Parisienses podem se dar ao luxo de revezar seus titulares domesticamente para que eles estejam mais descansados na Champions League, cujo foco permite maior gasto de energia para manter uma pressão sufocante a nível continental.

Quando Luis Enrique foi contratado em julho de 2023, o PSG nunca havia vencido a Liga dos Campeões, que sempre foi o grande objetivo do projeto assumido pela Qatar Sports Investments (QSI) em 2011. Por mais de uma década, os Parisienses reuniram estrelas para realizar seu sonho, mas a meta só foi alcançada quando o técnico priorizou o jogo coletivo.

No caso de Mikel Arteta, dinheiro também não é um problema, porém, a competição interna é bem mais acirrada, o que dificulta o rodízio ao longo da temporada. O treinador assumiu os Gunners em dezembro de 2019, quando a Premier League estava no auge da disputa entre o Liverpool de Jürgen Klopp e o Manchester City de Pep Guardiola.

Antes de Arteta, o Arsenal só foi campeão da liga nacional na temporada dos Invencíveis, em 2003/04, e chegou a apenas uma final de Champions em sua história, em 2005/06. Para voltar a ser protagonista, era preciso recuperar a mentalidade vencedora, e não necessariamente aplicar um futebol vistoso.

O técnico apostou em uma abordagem mais cautelosa para tentar competir com o gegenpress dos Reds e o jogo de posição dos Citizens. No começo, Arteta sofreu e foi contestado, mas finalmente colheu os frutos de um processo longo e desgastante, mas que foi abraçado pelos jogadores.

Não importa qual seja o desfecho da decisão do torneio da Uefa, a taça estará em boas mãos, já que ambos os clubes foram absolutos em seus respectivos parâmetros. A estética é discutível, mas, no final das contas, futebol ainda é sobre fazer mais gols do que seu adversário, desde um 6 x 5 empolgante, até um 2 a 1 sem tantas emoções.

Foto de Matheus Cristianini

Matheus CristianiniRedator

Jornalista formado pela Unesp, com passagens por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia. Na Trivela, é redator de futebol nacional e internacional.

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