Inglaterra

Mais Mourinho que Guardiola: Como mudança de Arteta fez Arsenal sair da fila na Premier League

Arteta conquista seu primeiro título de Premier League depois de sete anos de reconstrução e frustrações com os Gunners

O Arsenal confirmou seu título inglês nesta terça-feira (19), depois do Manchester City não conseguir vencer o Bournemouth, fora de casa, pela 37ª rodada da Premier League. Faltando apenas uma rodada, o time de Mikel Arteta não conseguiria mais ser alcançado.

Depois de sete anos à frente dos Gunners, Arteta finalmente conseguiu superar Pep Guardiola, seu mentor nos tempos de City. Ainda teve Jurgen Klopp e Arne Slot o atrapalhando nesse período. Mas diversos fatores se alinharam para que isso pudesse acontecer na temporada 2025/26.

A história que calejou Arteta e o Arsenal

Arteta chega aos Gunners no fim de 2019, depois de tentativas frustradas do clube de manter o legado de Arsène Wenger, que havia deixado a equipe em 2016. Sua primeira temporada completa viu um Arsenal em 5º lugar na Premier League, mas com uma base promissora.

Em 2022/23, o salto foi claro. O Arsenal liderou a Premier League por grande parte da temporada, só para ver o Manchester City ultrapassá-los na reta final e criar o primeiro trauma. Mas viria outro logo em seguida.

Na temporada seguinte, novamente Arteta veria o time segurar a taça, mas perdê-la para o Manchester City por apenas dois pontos de diferença. Uma corrida em que ambos venceram os cinco últimos jogos da temporada, e o Arsenal ainda teve a melhor defesa da liga.

Mikel Arteta durante West Ham 0 x 1 Arsenal
Mikel Arteta durante West Ham 0 x 1 Arsenal (Foto: Dennis Goodwin / Pro Sports Images / Imago)

No ano passado, a corrida foi menos parelha. O Liverpool de Slot começou arrasador e se manteve, apesar de raros sustos. O Arsenal seguiu como a melhor defesa da liga, mas teve dificuldades ofensivas e mesmo com apenas quatro derrotas, acabou empatando muito: 14 jogos, quase metade do campeonato. Isso brecou as chances de título.

No fim, essas experiências traumáticas moldaram Arteta, e o próprio Arsenal se moldou ao longo dos anos. De um time vistoso que chegou muito perto do título duas vezes, para uma equipe mais burocrática, mas com dificuldade de vencer, até a equipe que finalmente saiu da fila em 2025/26.

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Bolas paradas, defesa forte e projeto consolidado com Arteta

A defesa forte é marca registrada do Arsenal que briga pelo título nos últimos quatro anos. Nos últimos três, foi o time menos vazado da Premier League. Isso também se deve à sequência do projeto com o treinador.

Gabriel Magalhães é o segundo jogador mais utilizado por Arteta em sua carreira, com 258 jogos em seis temporadas. Só perde para Bukayo Saka (291 jogos, em sete temporadas). Ben White é o quinto (189) e Saliba é o sexto (183), ambos com cinco temporadas. A espinha dorsal da defesa foi coesa durante toda a era Arteta.

E mesmo com diversos reforços de peso, o treinador consolidou um grupo forte e que joga junto com frequência. Declan Rice, em apenas três temporadas, já tem 157 jogos. Mais do que Granit Xhaka (147 em quatro anos) e Kieran Tierney (132 em seis anos), por exemplo. Mikel Merino, em duas temporadas no clube, já tem 77 jogos.

Bukayo Saka, meia do Arsenal (Foto: IMAGO / Every Second Media)
Bukayo Saka, meia do Arsenal (Foto: IMAGO / Every Second Media)

E os jogadores mais usados pelo espanhol se mantiveram relevantes durante todos esses anos. Saka é o grande nome do time, enquanto Gabriel Martinelli, o terceiro com mais jogos com o treinador, foi crucial durante os sete anos da era Arteta. Martin Odegaard é o quarto na lista e está no time há seis anos. O processo foi longo, mas se manteve constante.

E nesse processo, alguns pontos foram cruciais em todo o ciclo. A defesa forte e impositiva foi um deles, e as bolas paradas sempre se fizeram constantes com Arteta — não somente agora, como parece.

O número quase escrachado de gols de escanteio na atual temporada cria a imagem de um time sem brilho, o que não é verdade. O Arsenal puramente construiu tantos artifícios que, agora, pode contar com diferentes formas de levar perigo, o que não acontecia em anos anteriores.

Arteta ‘mais Mourinho que Guardiola’ e declínio do Manchester City

Em seus primeiros anos no Arsenal, Arteta era um claro ex-auxiliar de Pep Guardiola. Formou um time que dominava com a posse, entrava no último terço com ultrapassagens pelos lados e os famosos cutbacks, os cruzamentos rasteiros para trás. Foi vice-campeão assim, apesar do futebol vistoso.

A “casca” criada com as perdas de título, no entanto, moldou o treinador. Ele passou a tomar decisões mais conservadoras, mas, mais do que isso, não teve medo de mudar quando sentia que precisava. Isso foi algo que implodiu suas chances em temporadas anteriores, quando teve de lidar com lesões cruciais, como a de William Saliba, em 2023.

Nesse ano, Arteta mexeu. Colocou Myles Lewis-Skelly, que vinha jogando pouco, em jogos cruciais na reta final da Champions League, e viu o time melhorar em um momento fundamental da temporada. Colocou Martinelli no banco. Segurou retornos de lesão de Saka e Odegaard. São decisões de “gente grande” que ele não tomou antes.

E o sucesso do Arsenal também passa pelo insucesso dos concorrentes. A temporada atual teve um Liverpool em baixa de forma quase inexplicável, além de um Chelsea bagunçado após um início promissor e, mais do que isso, um Manchester City em fim de ciclo.

Pep Guardiola se despedirá do clube ao fim dessa temporada e, mesmo com títulos da FA Cup e da Copa da Liga, não brigou tanto quanto o esperado na Premier League. Mesmo que tenha dado um susto nos Gunners na reta final, precisava ter começado melhor.

Além da despedida de Guardiola, que venceu seis das dez edições de Premier League que disputou, o City perderá Bernardo Silva e John Stones, pilares da era Guardiola, nessa temporada. Também contou com nomes como Rúben Dias, Josko Gvardiol e Rodri em temporadas inconstantes de desempenho e lesão.

No fim, o Arsenal campeão é uma soma de fatores em um quebra-cabeça que poderia ter dado outro resultado. É a consolidação de um projeto sólido com destaques sendo importantes em todas as temporadas com Arteta, mas também o aprendizado do treinador com erros do passado, a mudança de postura e ideias, e inegavelmente o declínio da concorrência.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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