Champions League

Detonados na Seleção, Thiago Silva e Fernandinho são respeitados e admirados nos finalistas da Champions

Lembrados por momentos ruins em Copas do Mundo, Fernandinho e Thiago Silva são importantes para Manchester City e Chelsea na decisão do título europeu

Copa do Mundo 2014. O Brasil sedia o evento pela primeira vez desde 1950. Em meio a um ano de protestos desde junho de 2013, o país fervilha em termos políticos e sociais. No meio disso, a Copa do Mundo. Não ia ter Copa, mas no fim teve. Teve muita Copa. Dá para dizer até que a Copa no Brasil foi uma das maiores de todos os tempos em vários aspectos, de torcida a jogos em campo. Só que para a seleção brasileira, o que ficou foi uma marca indelével de um fracasso retumbante. Apesar de um sucesso um tanto caótico fora de campo, na organização.

Fernandinho começou a Copa como reserva. Ganhou a posição de um inexpressivo Paulinho. No último jogo da primeira fase daquele Mundial, Fernandinho entrou no jogo contra Camarões e fez um dos gols do time. Foi muito melhor que o então jogador do Tottenham. Ganhou a posição para os jogos eliminatórios, com toda justiça.

Belo Horizonte, 28 de junho de 2014. O Brasil enfrentava nas oitavas de final um adversário que é um freguês histórico, o Chile. Dirigido por Jorge Sampaoli, a equipe chegava àquela Copa do Mundo mostrando bom futebol. Os dois clubes já tinham se encontrado nas oitavas de final de 1998, mas naquele jogo o Brasil de Mário Jorge Lobo Zagallo comandado por Rivaldo e Ronaldo não teve problemas em vencer. Em 2010, a Seleção de Dunga também enfrentou o Chile, então de Marcelo Bielsa, e também não teve problemas. Desta vez seria diferente.

O jogo sofrido, arrastado e perigoso durou mais do que os 90 minutos regulamentares. Um placar de 1 a 1 que levou a partida à prorrogação, com direito a bola acertada pelos chilenos no travessão e tudo. Ali, já ficava claro que o Brasil sentia o nervosismo, um dos grandes temas daquela Copa. O peso de jogar pelo Brasil em uma Copa em casa parecia ser um fardo aos jogadores, de maneira geral. O medo de um vexame em casa era enorme. Mais do que a Copa de 1950, o medo era passar vergonha – algo que o time de 1950 não passou, aliás.

Depois de prorrogação sem gols, pênaltis. Thiago Silva era o capitão do Brasil naquela Copa. A ida aos pênaltis deixava o Brasil pendurado, perto de ser eliminado nas oitavas de final pela primeira vez desde 1990. Pior ainda: jogava em casa e contra um adversário teoricamente pior. Thiago Silva sentou em cima da bola, enquanto os companheiros se preparavam para as cobranças. Foi consolado por Paulinho e Felipão em uma postura que parecia de derrota antes mesmo das cobranças.

Thiago Silva chora, enquanto Fernandinho, no chão, lamenta em jogo contra o Chile (Imago / OneFootball)

O Brasil sobreviveu àquela eliminatória, mas Thiago Silva ficou marcado. Sua trajetória teria esse capítulo que, de fato, era um símbolo de como aquele time do Brasil não parecia preparado, em nenhum sentido, para o desafio que enfrentava. Ele seria cobrado por isso repetidamente. Viraria o “chorão” para muitos torcedores. Até porque o pior ainda estava por vir e o zagueiro sequer estaria em campo. Mas sentiria o golpe, como todos inescapavelmente sentiram. Apesar disso, Thiago fazia uma grande Copa do Mundo. Pensando só nas suas atuações como zagueiro, ele era um dos destaques do Brasil e do Mundial como um todo. Até por isso, sua ausência foi muito sentida quando o Brasil voltou ao mesmo estádio das oitavas para a semifinal.

Belo Horizonte, 8 de julho de 2014. Semifinal da Copa do Mundo. O Brasil, um dos favoritos, cinco vezes campeão mundial, chega para enfrentar uma Alemanha ainda mais favorita. Diante de um Brasil desmantelado, a Alemanha faz 7 a 1, em uma goleada que entrou para a história como uma das maiores humilhações da Copa do Mundo. David Luiz foi um dos protagonistas que ninguém quer ser, símbolo de um Brasil bagunçado e perdido. Outro, Fernandinho, também teve uma atuação terrível. Como, aliás, o time todo e o seu técnico, Luiz Felipe Scolari. Fernandinho teria essa marca na sua carreira por algo que, certamente, ele não gostaria de ter.

Kazan, 8 de julho de 2018. Quatro anos se passaram. O Brasil, desta vez comandado por Tite, mais uma vez chegava às quartas de final da Copa do Mundo. Na Rússia, o time tinha sofrido menos nas partidas anteriores do que em 2014, mas havia problemas e questionamentos também. Em 31 minutos, a Bélgica marcou os gols que decidiram o jogo. Thiago Silva e Fernandinho estavam em campo. O segundo como uma figura que mais uma vez ficaria marcada, até pelo que nem tem culpa.

Thiago Silva protagonizou um lance de bola na trave logo no início. Depois, teve uma ótima partida, como aliás, foi uma boa Copa do Mundo do zagueiro. A defesa brasileira, segura, tinha nele um pilar importante. Fernandinho, reserva naquela Copa, foi titular porque Casemiro, dono da posição, estava suspenso. E mais uma vez, estaria nas fotos dos gols do adversário.

Primeiro, aos 13 minutos, ele marcou um gol contra completamente por acaso. Escanteio da esquerda, o zagueiro Vincent Kompany subiu para cabecear, mas furou. Atrás dele estava Gabriel Jesus, que também furou. Imediatamente atrás estava Fernandinho. A bola bateu no volante e matou Alisson. O Brasil pressionou, mas não conseguia o gol. Eis que aos 31 minutos, a Bélgica aproveita um contra-ataque a partir de um escanteio do Brasil, Lukaku dominou, fez o pivô, girou e partiu em velocidade. Fernandinho ficou pelo caminho. O atacante acionou Kevin De Bruyne, que fez o segundo gol da Bélgica.

No segundo tempo, apesar da pressão brasileira, só um gol foi marcado. O Brasil estava eliminado da Copa do Mundo depois da derrota por 2 a 1. Mais uma vez, Fernandinho estava presente e, mais uma vez, participou de gols adversários. Mesmo que seja discutível o seu papel em ambos os gols sofridos, mas ele participou dos dois. Ele mesmo não pareceu mais disposto a voltar a defender a seleção brasileira diante do mar de críticas, algumas mais pesadas do que deveriam ser. Veterano, ele seguia no seu clube. Lá, escreve dia após dia uma história fantástica, que pode ganhar um novo capítulo no próximo sábado: ele é finalista da Champions League com o Manchester City.

O gol contra de Fernandinho contra a Bélgica, com Thiago Silva observando (Imago / OneFootball)

A construção de uma lenda do Manchester City e da Premier League

Quando se fala sobre qual é o maior jogador brasileiro na Premier League, há diversos nomes que podem ser citados, mas dificilmente algum deles tem a importância de Fernandinho. Antes mesmo do brasileiro chegar ao estádio Etihad, falamos sobre por que o ex-jogador do Athletico Paranaense interessa ao clube. No dia 1º de julho de 2013, o Manchester City pagou cerca de € 40 milhões para contratá-lo.

Quando chegou, o clube já era uma potência, que tinha conquistado o título inglês no inesquecível episódio do gol do milagre de Sergio Agüero. Fernandinho tornou-se um dos principais jogadores da história do Manchester City. São quatro títulos da Premier League, seis Copas da Liga, uma Copa da Inglaterra e duas Supercopas. Além dos títulos, o brasileiro tornou-se fundamental ao time. Primeiro, com Manuel Pellegrini, que comandou o clube de 2013 a 2016. Desde então, Pep Guardiola assumiu o comando da equipe. E poucos treinadores poderiam extrair tanto do jogador quanto o catalão.

Fernandinho ganhou a admiração de Guardiola. Ele já era um dos líderes do elenco quando o catalão chegou e ganhou mais protagonismo. Ao ponto do técnico dizer que ele mesmo, como jogador, não seria titular do Manchester City, porque “Fernandinho é muito, muito melhor que eu”.

Frank Lampard, ex-jogador lendário do Chelsea e que atuou brevemente no Manchester City, avaliou Fernandinho como um pilar da forma como o Manchester City joga. Guardiola, por sua vez, chegou a dizer, em 2019, que o time não tinha substituto para o que ele faz em campo. Quem não vê tudo isso, fica com a imagem das Copas, de um jogador que saiu do Brasil cedo sem ter jogador em um dos clubes mais poderosos do Brasil para deixar uma lembrança saudosa. Os torcedores do Athletico Paranaense lembram dele.

Na última temporada, 2019/20, já mais veterano, Fernandinho perdeu espaço para Rodri, novo contratado. Diante da necessidade do clube, se tornou zagueiro. Foi muito bem, correspondeu e resolveu um problema do time. Parecia ter mudado de posição, mas o clube tratou de contratar Rúben Dias, recuperar John Stones e ver Aymeric Laporte como um dos jogadores confiáveis do setor.

Fernadinho voltou a atuar no meio-campo. Sem atuar com a mesma frequência de antes, passou a ser usado em alguns jogos. Não por coincidência, alguns jogos de muito peso, como na própria Champions League, quando brilhou na semifinal contra o PSG. É o capitão do Manchester City. Se o clube conquistar o título, será ele a levantar o troféu. Mais do que isso: Fernandinho foi um dos pontos-chave para a taça chegar mais uma vez, como explicamos aqui. Dentro e fora de campo, diga-se.

Fernandinho, capitão do Manchester City, com a taça da Premier League da temporada 2020/21 (Imago / OneFootball)

Com tudo isso, Fernandinho é uma escolha fácil quando falamos de maiores brasileiros da história da Premier League. Gilberto Silva está na conversa, tal como Roberto Firmino também tem o seu espaço e que Juninho Paulista foi desbravador na sua época. Fernandinho, porém, está há oito anos em um clube vencedor e histórico. Participando de várias formas da construção do período mais vencedor do clube. Tornou-se ídolo e continua com moral para seguir na Inglaterra, aos 36 anos.

Mesmo sendo criticado no Brasil, Fernandinho alcançou um nível de reconhecimento e admiração no seu clube, Manchester City, na Premier League e na Europa como um todo. Um reconhecimento que dificilmente ele terá no Brasil, onde a sua imagem foi muito associada a duas eliminações em Copas do Mundo. Algo que ele compartilha com um jogador que estará do outro lado do campo: Thiago Silva.

O maior zagueiro da Europa

Monstro. O adjetivo era usado para Thiago Silva na sua época de Fluminense, quando se tornou um dos melhores da sua posição no Brasil e em toda a América do Sul. Quando deixou o Fluminense, em janeiro de 2009, rumo ao Milan, Thiago já era visto como um jogador de alto potencial. Foi para o clube onde teve alguns dos melhores para ensinar.

No clube italiano, Thiago teve uma breve experiência com Paolo Maldini, nos últimos seis meses de atuação do veterano. Além dele, Alessandro Nesta foi muito importante. Em uma entrevista à Trivela, em 2010, Thiago contou como o italiano chegava a ser chato no começo, mas que devia a ele as boas atuações. O suficiente para entender alguns segredos da posição. Não demorou para Thiago Silva conquistar os rossoneri. Virou uma referência, ao ponto de ser também um líder, ainda que sem ser o capitão – o dono da braçadeira após a aposentadoria de Maldini foi Massimo Ambrosini.

Em 2012, foi para o Paris Saint-Germain, em um momento que o Milan passava por problemas financeiros. Conquistou Paris. Tornou-se capitão do time e vestiu a braçadeira em todos os anos que esteve no clube da capital francesa, de 2012 a 2020. Empilhou taças domésticas: foram sete campeonatos franceses, seis Copas da Liga e cinco Copas da França. Também capitaneou o time até a final da Champions League na sua última temporada pelo clube, em 2019/20, quando já sabia que o seu contrato não seria renovado.

Thiago Silva, do PSG (Imago / OneFootball)

Thiago Silva está longe do estereótipo do zagueiro europeu. Não é particularmente alto (tem 1,83 metro), nem especialmente forte. Tem duas qualidades que o tornam extremamente eficiente: tempo de bola e posicionamento. Além disso, é muito técnico com a bola nos pés. Não por acaso, já era um dos melhores da sua posição em toda a Europa quando atuava pelo Milan. Era, discutivelmente, o melhor zagueiro em atuação na Europa. Até hoje, ainda é um dos grandes, apesar de veterano.

Acostumado a ser líder, foi para a Copa do Mundo como capitão do PSG para usar a braçadeira também da Seleção na Copa do Mundo de 2014. Sucumbiu em meio à pressão em um momento, contra o Chile, antes dos pênaltis. Não conseguiu ali ser o líder que o Brasil precisava naquela Copa. Sabia o que significa a Seleção, ainda mais em Copa do Mundo, muito mais ainda no Brasil. Ainda assim, em atuações, estava entre os melhores da posição até que ficou suspenso, após o jogo contra a Colômbia. Não esteve no 7 a 1.

Passou por uma Copa América 2015 em que começou como reserva, ganhou a posição e foi mal em campo. Precisou reconquistar o seu espaço, mas conseguiu fazer isso. Formou uma dupla experiente e elegante com Miranda na Copa 2018. Suas atuações, mais uma vez, foram de alto nível. Mas a pecha de “chorão” pelo desmoronamento nas oitavas de final da Copa 2014 nunca foi apagada. Muitos o viam como um jogador incapaz de liderar, mesmo com o histórico de ser um capitão muito elogiado em seu clube.

O seu clube, em 2018, era o PSG. Mas deixou de ser em 2020. Aos 35 anos, o clube quis renovar o setor. E mesmo já veterano, foi contratado pelo Chelsea. Tinha propostas mais lucrativas, não só em salário, mas em tempo de contrato. Preferiu fazer um contrato de uma temporada com o clube inglês, dando a opção ao clube de renovar, se assim quisesse. Apostou em si mesmo e no seu próprio futebol, seguro que tinha nível para atuar ali.

Passou a jogar na liga mais badalada do mundo, em um clube onde a pressão é sempre forte. Em Stamford Bridge, se estabeleceu. São 33 jogos na temporada, com ótimas atuações ao longo do da campanha que acabou no quarto lugar na Premier League e na final da Champions League – além da final da Copa da Inglaterra, perdida para o Leicester.

Na última partida do Chelsea na Premier League, Thiago Silva teve um encontro especial. Na partida, o Chelsea perdeu do Villa por 2 a 1, mas mesmo assim se classificou à Champions League. John Terry, ídolo e ex-capitão do Chelsea, agradeceu por ter recebido a camisa de Thiago Silva. “Que jogador é Thiago Silva! Muito bom ver você, companheiro. Lenda”, escreveu o atual auxiliar técnico do clube de Birmingham.

Thiago Silva, do Chelsea (Imago / OneFootball)

Thiago Silva provou o seu valor atuando na linha de três zagueiros do Chelsea, especialmente quando Thomas Tuchel chegou ao clube. Os dois trabalharam juntos em Paris e o alemão sabe como aproveitar o talento do brasileiro, sempre muito técnico.

Sua missão na final da Champions League é das mais difíceis. Enfrentar o ataque poderoso do Manchester City, Thiago terá pela frente jogadores técnicos e rápidos. No Estádio do Dragão, ele pode conquistar o título que não conseguiu em Lisboa, em 2020, após derrota contra o Bayern de Munique. Seja ele ou Fernandinho, um dos massacrados em jogos da seleção irá se consagrar com o título mais pesado da Europa. Ainda que continuem sendo questionados no Brasil. Não é possível apagar o passado, mas os dois jogadores construíram uma história e uma carreira espetaculares. Merecem todo respeito, no mínimo. E, não por acaso, são muito admirados por onde passaram. Não conquistaram isso facilmente. Trabalharam muito e atuaram no mais alto nível para poderem receber os louros que, merecidamente, colhem atualmente.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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