Serie A

Thiago Silva, do Milan: “Devo muito ao Nesta”

A Trivela falou com Thiago Silva com exclusividade e o ex-jogador do Fluminense comentou sobre a sua carreira no Milan, perspectivas de seleção brasileira e mais

Um zagueiro chegar à Itália e ter sucesso é tarefa para poucos e bons. Thiago Silva deixou o Brasil em 2008 para juntar-se ao Milan e virou titular da equipe rossonera.

Atuando ao lado de um dos grandes zagueiros italianos, Alessandro Nesta, Thiago fala sobre o perfil exigente do seu companheiro de zaga, que o ajudou a se adaptar ao futebol italiano sendo “chato” nas cobranças, mas sendo amigo também fora de campo.

Aos 25 anos, o zagueiro foi à Copa do Mundo de 2010 como reserva e elogiou muito os titulares Lúcio e Juan, a quem considera os melhores do mundo. O ex-jogador do Fluminense falou sobre a derrota para a Holanda, sobre o contato com Mano Menezes, seu futuro na Seleção e a parceria com David Luiz.

Thiago conta também sobre sua primeira experiência na Europa, no Porto e no Dynamo Moscou, e por que não deu certo. Confira a exclusiva entrevista feita pela Trivela.

Vamos começar falando de Seleção. Muito se fala em renovação. Em sua opinião, é necessário renovar?

Se é necessário ou não eu não sei te dizer, mas o presidente falou que o momento é de renovação e estamos aqui para poder servir à Seleção Brasileira a qualquer momento, independente de quem o técnico chamar, de quem ele escolher, independente da renovação ou não. Agora, isso quem pode te responder é o presidente.

Você, aos 25 anos, é um dos mais cotados para ser o titular da Seleção. Se sente preparado para assumir o posto?
Para tudo na vida eu estou sempre preparado. E essa oportunidade eu sempre quis ter e agora que eu tenho, pode ter certeza que vou treinar muito, tentar jogar bastante no Milan para voltar à Seleção, até porque se eu não jogar, não vou ser convocado. Primeiramente eu tenho que fazer o meu trabalho dentro do clube, assim posso jogar para servir bem a Seleção. Agora, a titularidade dentro da Seleção Brasileira eu acho que não tem. A gente aproveita a oportunidade no momento e creio que vai ser assim até a Copa de 2014.

Um dos que estava sendo bem cotado na sua posição é o David Luiz. Como foi jogar com ele?
Jogar com jogador de qualidade, bastante técnico, é sempre bom. Pela qualidade que ele tem, pela pouca idade, mas pela experiência que tem, é muito fácil jogar com alguém dessa qualidade. Para mim, não teve problema nenhum. Tive apenas dois treinamentos ao lado dele, o terceiro já foi o jogo e a gente se deu muito bem. Procuramos conversar bastante antes da partida e as coisas aconteceram da maneira como a gente gostaria. Vencemos sem sofrer gols, o que é importante. Então agora é dar sequência para estar nas próximas listas.

Na Copa, você esteve com Lúcio e Juan, que são considerados alguns dos melhores zagueiros do mundo. Você acha que eles podem chegar à próxima Copa, mesmo com 32 e 31 anos?
Qualidade e experiência eles têm de sobra. Cabe ao Mano escolher aquilo que ele tem em mente para a Copa de 2014 para que a gente possa fazer um grande Mundial, e no que se trata de renovação eu não sei se seria o ideal. Mas pode ter certeza que esses dois, para mim, são os dois maiores zagueiros do mundo. Embora nem todos concordem, na minha visão, como zagueiro, os dois são exemplos. Já tive o prazer de falar isso para eles pessoalmente.

Na sua opinião, o que levou o Brasil a ser eliminado na Copa? Qual o motivo principal?
Para falar a verdade, eu não sei. Acredito que tenha sido o fato de sairmos do primeiro tempo vencendo por 1 a 0, acho que voltamos para o segundo achando que seria da mesma forma. No primeiro tempo jogamos muito bem, podíamos ter saído com 2 ou 3 a 0 de vantagem e não foi o que aconteceu. Acredito que no segundo tempo entramos com isso na cabeça. Futebol é complicado, no momento que você é superior ao adversário, você tem que matar o jogo. Nós não tivemos, não diria a capacidade, mas a sorte de fazer os gols necessários. Quando fomos atacados, quando a Holanda foi superior a nós no segundo tempo, houve um desequilíbrio, principalmente depois do primeiro gol. Acho que a gente ficou um pouco desatento, mas é algo que acontece no futebol. Se ninguém errar, os jogos acabam 0 a 0 e não teria essa paixão que o povo tem.

Como foi o contato com o Mano?
Todo mundo sabe quem é o Mano, o treinador que é. Pelo menos de fora, sabíamos mais ou menos o método de trabalho, um cara sério, que cobra bastante. No momento que o jogador mais precisa de ajuda, ele ajuda. É um cara que vai dar muito certo dentro da Seleção Brasileira durante muito tempo e a gente espera fazer parte desse sucesso dele.

Você acha que o Milan tem condições de brigar pelo título italiano?
Com certeza, eu acredito que o Milan entra em todo campeonato para vencer. É evidente que não temos o melhor elenco no momento, mas se trata de um time grande, que tem jogado bem a Liga dos Campeões, o Campeonato Italiano. Acredito que, se tivermos um grande início no campeonato e forte na Liga dos Campeões, também podemos ter um bom ano. É meu sonho conquistar um título pelo Milan. Eu espero que esse ano possa acontecer alguma coisa de bom, que a gente possa ter sucesso.

O que você pode falar do Massimiliano Allegri, novo técnico da equipe? O que você conhece dele?
Ele é bastante tranquilo, mas no momento que tem que cobrar, ele cobra bastante, não permite que você não faça o que ele pede. Ele brinca com a gente fora do campo, antes dos treinos, até mesmo antes dos jogos, mas no momento de trabalho é bastante sério, bastante correto e que cobra bastante. Os jogadores têm que ser cobrados. E da forma que ele está trabalhando está no caminho certo para fazer grandes partidas pelo Milan, e eu espero que essas grandes partidas concretizem com o título do italiano ou mesmo da Liga dos Campeões no final do ano.

Você jogou e foi titular com o Nesta, um dos grandes zagueiros italianos. Como foi esse contato, deu para aprender alguma coisa?
A cada dia que a gente levanta da cama, aprendemos alguma coisa. Dentro do futebol, aprendemos muito mais do que a gente pensa. O Nesta é um cara que me ajudou bastante desde o início. Um cara que no começo chegava a ser chato, para falar a verdade. Eu até discutia com ele muitas vezes, é um cara que me cobrava muito, porque o futebol brasileiro e o futebol italiano são bem diferentes, mas é algo que acontece. Graças a Deus, hoje, por essas minhas boas atuações que eu tive pelo Milan no ano passado, eu devo muito a ele. É um cara que sempre está comigo, me dando apoio, embora passe um pouco dos limites. É um cara chato, mas é um boa praça, tranquilo, que eu tenho certeza que vai ficar guardado com muito carinho no meu coração, um cara especial. Além de um grande jogador, um cara especial também fora de campo.

Lembrando do seu início de carreira, Thiago, você mudou de vida drasticamente do Rio de Janeiro para Alvorada, no Rio Grande do Sul, para jogar no RS Futebol. Como foi mudar para um lugar tão diferente?
Olha, é sempre difícil mudar, principalmente de estado e pela idade que eu tinha, 16 anos. No começo foi muito complicado pelo fato de falar com as pessoas que você gosta só pelo telefone, não ter a chance de pagar uma passagem para eles irem para Alvorada ou no fim de semana ir para o Rio de Janeiro. Eu passava o ano inteiro sem contato, sem ver meus parentes, meus amigos. Foi um começo muito complicado. Mas o que seria da gente se não fossem esses momentos? As coisas que vêm fáceis pode ter certeza que também vão embora fácil. As coisas que vêm com um pouco mais de sacrifício vale mais a pena. Hoje eu estou muito feliz onde estou, devo muito ao RS, ao próprio Juventude, que me ergueu no Campeonato Brasileiro da Série A, depois consequentemente o Fluminense por abrir as portas depois de um problema que eu tive no pulmão. Infelizmente não posso falar a mesma coisa do Dynamo Moscou e do Porto, onde eu não tive a oportunidade de jogar, que duvidaram muito de mim.

Não guardo mágoa de ninguém, sou um cara bastante tranquilo. Se tivesse que jogar bem para agradar essas pessoas, pode ter certeza que eu faria porque é o que eu mais gosto de fazer, é o que eu mais amo na minha vida. Logicamente depois do meu filho.

O Porto e o Dynamo Moscou não te deram a estrutura para você se recuperar plenamente, foi isso?
No Porto eu fui contratado para atuar no time principal. Chegando lá, eu tive uma decepção, depois de treinar só no time B. Então para mim não foi uma coisa legal sair do Brasil para jogar em um time B, mesmo sendo da Europa. Eu acho que as pessoas teriam que ter me visto de uma outra forma, mas são coisas que acontecem no futebol diariamente. Graças a Deus eu dei a volta por cima, estou em um grande clube da Europa, que era o meu sonho.

Em se tratando do Dynamo de Moscou, foi um clube que cumpriu com seus deveres, até do meu tratamento. Eu digo que eu não guardo mágoa porque eu não tive a oportunidade de jogar e de fazer aquelas pessoas felizes. A confiança que eles me deram, mesmo estando sem jogar no Porto ao me contratar, foi uma prova. Infelizmente eu não consegui, em função dessa doença que eu tive, mas foi um clube que sempre cumpriu com seus deveres, pagou o salário mesmo enquanto eu estava parado, continuava fazendo os pagamentos tudo direitinho. Infelizmente não tive chance de jogar. Hoje é pensar no meu presente, no futuro, que eu tenho certeza que virão coisas boas para mim.

No RS você teve a chance de jogar com o Éderson, que também foi convocado pelo Mano, estava no grupo e acabou se lesionando. Você teve oportunidade de conversar com ele, lembrar desse tempo?
Quando você fica um bom tempo sem ver os amigos e reencontra é uma coisa muito legal. Eu passei três anos, três anos e meio com o Éderson no RS. Todo dia a gente ficava no quarto dele jogando videogame, ele, o irmão dele e outros colegas que a gente tinha. Depois de reencontrar, a coisa não foi muito diferente. Ou ele ia no meu quarto ou eu ia no quarto dele, ele estava junto com o Neymar e eu estava junto com o Réver. Foi uma coisa legal que aconteceu dentro da Seleção, dois jogadores que saíram do RS hoje na Seleção, representando o Brasil. É uma coisa pela qual as pessoas têm orgulho da gente. Infelizmente ele teve essa contusão e foi logo no primeiro lance dele, um lance estranho, mas infelizmente isso acontece no futebol.

Eu espero que ele se recupere o mais rápido possível e possa estar logo em uma lista do Mano e a gente possa manter esse nosso contato, não só pelo telefone, mas contato também na Seleção, de eu ir à casa dele no Brasil, ver os familiares dele que eu tenho um carinho muito grande. É um orgulho enorme fazer parte da Seleção Brasileira hoje e ter a companhia de um amigo seu, que começou junto contigo em um momento difícil.

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