Premier League

Dez méritos do Manchester City e de Guardiola na incrível conquista da Premier League

O time que parecia vulnerável se transformou em uma nova máquina de ganhar jogos de futebol que conquistou a Inglaterra pela sétima vez ao City

“Falei comigo mesmo, com minha equipe, com meus amigos: eu não gosto do time”.

É raro um treinador admitir, de maneira tão franca, que está insatisfeito com o seu time. Mesmo que o tenha feito em um momento posterior, quando já o havia transformado em uma nova máquina de vencer jogos de futebol. Por outro lado, era impossível não reconhecer que o Manchester City estava à deriva. Guardiola teve seu pior começo de liga nacional. Apenas oito pontos nas primeiras cinco rodadas, apenas três vitórias nas primeiras oito. Os problemas da temporada anterior ainda pareciam vivos. A equipe continuava defendendo mal e estava atacando pior. Os reforços não pareciam se encaixar. A suspeita era que seu prazo de validade havia expirado. Guardiola nunca havia ficado tanto tempo ou montado um segundo grande time em um único clube. Era uma situação inédita: um time de Guardiola parecia vulnerável.

Deixar bem clara a situação do Manchester City à altura daquele empate por 1 a 1 contra o West Brom, o jogo que motivou a introspecção de Guardiola em meados de novembro, é importante para medir o quão impressionante foi a maneira como ele conseguiu recuperar a temporada com ela em andamento. Não teve uma inter-temporada ou muitas sessões de treinamento para encontrar o ponto de equilíbrio entre retornar aos princípios da sua filosofia e inserir novos conceitos, especialmente na maneira de defender. Não hesitou em abrir mão de um centroavante, nem de colocar no banco jogadores importantes como Raheem Sterling.

O resultado disso é que a briga pelo título inglês que parecia aberta a todos foi mais uma vez dizimada por uma sequência implacável do Manchester City. Aquele empate contra o West Brom foi a última vez que o City não venceu um jogo até o começo de março. Foram 21 vitórias consecutivas por todas as competições, 15 pela Premier League. O panorama de repente se tornou muito mais familiar: o Manchester City dominando o Campeonato Inglês; um time de Guardiola imponente, controlado, organizado, irresistível.

“Naquele momento, percebemos que não éramos brilhantes e tudo estava pesado, no sentido de que não era natural. Fizemos ajustes, especialmente colocando mais jogadores na frente da área. Eu não gostava da maneira como estávamos jogando. Independente dos resultados, não gostava, não reconhecia meu time, a maneira como deveríamos jogar. Voltamos aos princípios. A, B, C, só isso. Pontas abertos, muitos jogadores pelo meio. Recompor sem a bola, correr que nem animais, e, com a bola, ser mais calmo, mais passes, pensar mais sobre o que precisamos fazer”, explicou Guardiola, na mesma entrevista à BT Sports.

“Após o jogo contra o West Brom, eu refleti e disse: ‘eu não gosto mesmo do que estou vendo”.

Os dez méritos do Manchester City no título inglês

Acalmar-se

Um dos problemas era que os jogadores estavam correndo demais. Não na defesa, na defesa eles têm que correr mesmo, mas no ataque. Corriam muito e corriam errado. Aceleravam as jogadas e cometiam mais erros. Davam chances a contra-ataques melhores ao adversário. Davam, também, mais chances de contra-ataques ao adversário. Então Guardiola teve que pedir que seus jogadores parassem de correr e começassem a andar. “A única diferença é que estamos correndo menos”, afirmou, em janeiro, já se aproximando da liderança. “Estamos correndo muito menos. Quando você joga futebol, você tem que andar – ou correr muito menos. Sem a bola, você tem que correr, mas, com a bola, tem que ficar mais posicionado e deixar a bola correr. Melhoramos isso”.

Esse foi o principal retorno “aos princípios” de Guardiola nesta temporada. O seu estilo nunca foi o heavy metal de Jürgen Klopp, embora tenha refinado seu modelo de pressão na passagem pela Alemanha. Ele é entusiasta do famoso jogo de posição. A bola tem que ser tocada com calma para os caras terem tempo de se posicionarem no campo de ataque. Com as peças no lugar, é possível arriscar um pouco mais, buscar os espaços com propósito, inverter o jogo para criá-los. “Havíamos perdido isso um pouco nesta temporada. Foi culpa minha. A mensagem não foi clara, mas recuamos um pouco para os princípios”, explicou.

Essa abordagem mais cadenciada casou bem com os desafios particulares desta temporada. Como descreveu o jornalista Miguel Delaney em uma coluna ao jornal Independent, foi uma maneira de se adaptar também ao “futebol pandêmico”. Os jogadores passaram a sair menos das suas zonas de cobertura, os laterais começaram a aparecer mais por dentro do que sempre espetados nas pontas, a pressão foi moderada. Tudo isso tem o ótimo efeito colateral de ser menos exigente fisicamente em um calendário com menos tempo para treinamento, recuperação e pré-temporada.

E também ajudou bastante a melhorar a defesa.

Arrumar a cozinha

Guardiola e Rúben Dias, do City (RUI VIEIRA/POOL/AFP via Getty Images/OneFootball)

Os times de Guardiola sempre tiveram uma falha fatal. Quando o adversário escapa da pressão, eles são muito suscetíveis a contra-ataques. Houve momentos em que isso gerou situações estranhas no Barcelona e no Bayern de Munique. Nunca tanto, porém, quanto na temporada passada. A melhor ilustração foi a maneira como o Wolverhampton de Adama Traoré conseguia pegá-los no contrapé com tanta facilidade. Talvez não desse para alcançar o Liverpool de jeito nenhum, mas a cada semana que esse ponto fraco era explorado, a Premier League ficava mais longe. Guardiola tentou soluções emergenciais, como uma dupla de volantes à frente da defesa, com Gündogan e Rodri. Foi com três zagueiros contra o Lyon. O excesso de lesões na defesa e a decisão de não contratar uma reposição a Vincent Kompany também pesaram.

O reconhecimento desse erro veio no mercado seguinte, quando mais de £ 100 milhões foram desembolsados em dois zagueiros. Um deles, Nathan Aké, machucou-se muito e pouco jogou. O outro, porém, chegou para resolver. A ausência de um zagueiro dominante era um diagnóstico comum desde o começo da decadência de Kompany. Guardiola parecia não conseguir encontrar uma dupla de zaga fixa, entrosada e complementar. Conseguiu com Rúben Dias ao lado de John Stones. Desde que foram fixados, a defesa do City se tornou uma das melhores da Europa.

Mas não foi apenas isso. O Manchester City também passou a defender de outra maneira. Tem a ver com o jogo mais cadenciado e com as dificuldades impostas pela pandemia. Conseguiu aprender a moderar a pressão, reservá-la para os momentos certos, recuar um pouco as linhas, até abrir mão da bola se a ocasião pedisse. Essa mudança ficou clara principalmente na vitória sobre o Paris Saint-Germain pela Champions League. Os índices de posse de bola seguem altos. Guardiola não abriu mão do seu estilo, mas as circunstâncias pediram uma abordagem mais equilibrada. E como ele é um gênio conseguiu colocar isso em prática bem rapidinho.

Liderança de Fernandinho

A gente já contou essa história, mas vale ressaltar novamente. Fernandinho tem jogado menos do que em qualquer outra temporada pelo City. Mal passou de 2000 minutos em campo. Mas a influência de um capitão sempre vai além do gramado. Foi algo que o seu antecessor, Vincent Kompany, também fez com muita qualidade: apesar de não estar sendo tão utilizado, fazer a sua parte para manter o vestiário unido e motivado. Isso costuma aparecer em pequenos gestos e atitudes. Às vezes, também em grandes discursos. Pouco antes da virada do ano, Fernandinho recebeu de Guardiola a missão de enviar uma mensagem ao resto do elenco. O treinador não estava satisfeito, achava que nem todo mundo estava dando 100%.

“Com todo mundo reunido, eu falei com o coração para eles. Falei como capitão, né? Disse a eles o que o Pep tinha me dito, que algumas coisas são inaceitáveis. Disse que o que você faz no treino tem reflexo direto no que você vai fazer no jogo. Fui muito honesto. Todo mundo sabia o que eu estava falando, mas precisávamos ouvir outra vez. Precisávamos de um chacoalhão. E foi importante acontecer naquele dia. Embora eu tenha puxado a conversa, todos os outros jogadores também falaram. E concordamos que era preciso algo mais. Ainda tínhamos tempo de mudar o rumo da nossa campanha. Ou poderíamos apenas assistir passivamente ao título ir para outro time”, escreveu no Player’s Tribune.

O título não foi para outro time.

Ter um improvável artilheiro

Gündogan comemora gol pelo City (RUI VIEIRA/POOL/AFP via Getty Images/OneFootball)

O cara que dava um pouco mais de cadência ao meio-campo do Manchester City era David Silva. Não é coincidência que ele tenha jogado menos na temporada passada, especialmente na segunda metade, e nada no começo desta porque… agora defende outro clube. O substituto natural acabou sendo Gündogan, mas, em uma tentativa de cobrir os buracos defensivos, ele estava muito recuado, como um segundo volante ao lado de Rodri. Uma das chaves para a arrancada foi liberar Gündogan para ser mais David Silva. Ele passou a pisar as mesmas áreas do campo, ali pela meia-esquerda. Mas com uma diferença: em vez de fornecer cadência, Gündogan passou a fornecer gols. É o artilheiro da campanha na Premier League, com 12 gols. Mostrou uma capacidade sobre-humana para entrar na área na hora certa e finalizar de ângulos incomuns. Chegou a ter aproveitamento de 70% em seus chutes. Gündogan foi a primeira contratação de Guardiola no Manchester City. Por muito tempo, pareceu um fracasso. Não dá mais para dizer isso.

Abrir mão de centroavante

Gabriel Jesus e Sergio Agüero (Foto: Justin Setterfield/Imago/One Football)

Guardiola não inventou o Falso 9, mas colocar Lionel Messi nessa função no time mais devastador do século ajudou a popularizá-lo. É basicamente um jogador de ataque com liberdade para circular bastante e com qualidade de finalização, em contraste com aquele clássico centroavante que ganha o seu pão brigando com zagueiros dentro da área – evidentemente, há tons de cinza entre cada um dos extremos. Com Lewandowsi e Sergio Agüero, não foi muito necessário recorrer a essa alternativa nos últimos anos, mas ela voltou com tudo nesta temporada. O argentino teve problemas de lesão, pegou Covid-19 e caminha para o fim da sua passagem pelo City. O reserva imediato seria Gabriel Jesus, sem muita moral com o chefe. Então simplesmente não houve um centroavante. Vários jogadores se revezaram como o atacante mais avançado do time: Ferrán Torres, Sterling, Mahrez, De Bruyne, Bernardo Silva. Dependia da escalação e do adversário. Gündogan, com 12 gols neste momento, é o artilheiro com a menor quantidade total de tentos de um campeão da Premier League. Mas quatro outros jogadores marcaram pelo menos sete: Sterling, Mahrez, Jesus e Foden. No fim, não fez diferença. Acabou sendo um trunfo a mais para o campeão.

Ter dinheiro

Ferrán Torres, anunciado pelo Manchester City (Foto: Divulgação/City)

Isso sempre ajuda, não? O Manchester City teve que segurar um pouco os gastos para não dar bandeira ao Fair Play Financeiro da Uefa, que chegou a excluí-lo de duas temporadas de futebol europeu, antes de a decisão ser revertida na Corte Arbitral do Esporte – não por inocência, mas por uma tecnicalidade. Dinheiro nunca faltou ao clube-bandeira do país que tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo. Isso significa que, no momento em que muitos tiveram que reduzir os gastos por causa da pandemia, o City não estava tão debruçado em planilhas, calculando receitas e bilheterias que não existem mais. Gastou até mais do que na janela anterior. Mas esse é apenas o primeiro passo. Tem que acertar os reforços também. Aké não pode nem ser avaliado por ter jogado tão pouco, mas Rúben Dias foi um golaço. Achar um zagueiro que fez a temporada que ele fez, diante da escassez de excelentes jogadores da posição, foi essencial. O seu impacto rivaliza com o de Van Dijk no Liverpool. Ferrán Torres também ajudou. Fez muitos gols importantes no momento em que as coisas estavam dando errado. Depois, perdeu um pouco de espaço, mas ainda é muito jovem.

Achar um lateral esquerdo

Bernardo Silva, João Cancelo e Raheem Sterling (Foto: ATTILA KISBENEDEK/AFP via Getty Images/One Football)

A lateral esquerda é a posição mais aberta do Manchester City desde a chegada de Guardiola. Ele teve que se virar com Kolarov e Clichy quando chegou e investiu pesado para ter Benjamin Mendy, que vinha de uma ótima prestação pelo Monaco campeão francês. Mendy, porém, teve muitos problemas de lesão e, mesmo recuperado, não conseguiu convencer o treinador a confiar 100% em seu futebol. Muitas alternativas foram tentadas – Fabian Delph, Zinchenko, Laporte, Danilo, Angeliño -, menos a de contratar um outro lateral esquerdo. No fim, quem se firmou por ali foi João Cancelo. Lateral direito de origem, ele funcionou muito bem centralizando, participando da construção das jogadas como se fosse um meia. Talvez não resolva a questão para sempre, mas, como Delph em alguns momentos, Zinchenko em outros (inclusive nesta temporada quando Guardiola precisou dar uma fechada no setor contra o PSG), foi um quebra-galho que deu certo.

Dar espaço a Phil Foden

Foden, do Manchester City (Foto: Imago / One Football)

Era engraçado quando Guardiola dizia que Foden merecia mais espaço no Manchester City, como se isso não dependesse única e exclusivamente dele. As saídas de Leroy Sané e David Silva abriram espaço para que o garoto de Stockport, na região da Grande Manchester, pudesse finalmente se sentir um titular do Manchester City. Ainda tem caminho para percorrer. Começou jogando apenas 15 rodadas da Premier League, embora o tenha feito em 11 dos 12 jogos da Champions. Às vezes como meia, mas geralmente aberto pela esquerda, marcou 14 gols e deu dez assistências por todas as competições. Sempre se esperava que fosse um dos jovens ingleses mais promissores. Ele teve paciência e mostrou que isso era mesmo verdade.

Contratar Juanma Lillo

Guru, mentor, mestre: cada redator escolhe a descrição favorita. Fato é que Juanma Lillo foi uma das grandes influências na formação de Guardiola como treinador, ao lado de Johan Cruyff – o que não é um elogio pequeno. É um treinador veterano de quase três décadas que, se nunca conquistou um título, conquistou mentes e corações com suas ideias sobre futebol. Após perder Doménec Torrent, auxiliar que o acompanhava desde o início, e também Mikel Arteta, Guardiola precisava de um novo braço direito. E aí não dá para dizer que o mestre virou pupilo, mas uma pessoa próxima, que ele respeita e em quem pode confiar. “Sem ele, estar onde estamos seria impossível”, afirmou Guardiola, em janeiro, já na liderança da Premier League. “Ele vê coisas que eu não consigo ver. Ele tem um sexto sentido. Especialmente nos momentos ruins, ele me acalma e me faz ver a situação verdadeira do time, além do resultado. Ele sempre tem a visão de ver coisas que eu não vejo”.

Rodri, enfim, parece o sucessor

Rodri, do Manchester City (Getty Images)

A posição de volante é a mais crucial no time de Guardiola. É o cara que tem que começar a construção a partir do campo de defesa, enquanto os jogadores ofensivos se posicionam, equilibrando precisão e coragem. Defensivamente, precisa estar sempre bem colocado para interceptar passes longos, matar contra-ataques, ganhar duelos por baixo e pelo alto. É muita coisa para um homem só. Fernandinho sempre brilhou nessa função. Na temporada passada, ele foi deslocado à defesa para cobrir desfalques por lesão, mas, de qualquer maneira, o tempo é implacável com todo mundo. O City havia preparado a sucessão com a contratação de Rodri. Os primeiros sinais não foram ótimos. Dentro do contexto, porém, a dificuldade foi compreensível: ele tinha que se adaptar a uma função muito exigente e particular, a pandemia cortou a temporada e tudo meio que deu errado. A sua ascensão agora tem sido notável. Também porque Guardiola fez ajustes na maneira como o time se comporta, ele tem jogado de uma maneira mais confiante e segura, enfim parecendo o próximo da linhagem de grandes volantes dos times de Guardiola. Fez 50 jogos na temporada.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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