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A pandemia deixou tudo um pouco estranho no futebol europeu. Estádios vazios, pré-temporada menor, mercados mais modestos, muitas lesões. Todos os times emanam certa vulnerabilidade. Até o Bayern de Munique, entre tantas vitórias, foi goleado pelo Hoffenheim. Os problemas do Manchester City, porém, parecem um pouco mais profundos e derivam, não apenas, mas em grande parte, de uma situação até agora inédita na história da humanidade: Guardiola comandando um processo de transição.

Antes de seguir em frente, melhor colocar a situação em perspectiva. Quando falamos em problemas no Manchester City, não quer dizer que o time será rebaixado ou ficará em décimo ou será eliminado na fase de grupos da Champions League. É em relação ao altíssimo nível que o time apresentou durante duas temporadas da Premier League, ao que sabemos que Guardiola consegue tirar da sua equipe e ao tamanho do investimento que foi feito desde que o catalão chegou do Bayern de Munique – e, ampliando, desde a chegada dos Emirados Árabes.

Em que pesem as ponderações gerais dos efeitos da pandemia, que valem para todos os clubes, em alguns meses de nova temporada o Manchester City demonstrou uma fragilidade incomum mais de uma vez. Sofreu no segundo tempo contra o Wolverhampton, foi goleado pelo Leicester, apenas empatou com Leeds e West Ham e, no último sábado, foi derrotado pelo Tottenham, em uma partida que, de certa forma, encapsula os problemas nos dois lados do gramado.

Sim, o Manchester City teve seus quase 70% de posse de bola, mas foi fácil demais para o Tottenham se defender contra eles. Os Expected Goals do City, estatística avançada que considera a qualidade das finalizações para chegar a um número estimado de gols que certo time deveria ter marcado na partida, foi de 2.18, mas, aos 40 minutos do segundo tempo, ainda estava 1.6, antes de duas boas chances na reta final, quando o jogo já estava praticamente decidido.

Na defesa, Ndombélé teve muita liberdade para lançar Son ao primeiro gol e, depois, Kane, longe de ser o jogador mais rápido do mundo, ganhou de Rodri na corrida, puxou o contra-ataque e abriu na esquerda para Lo Celso, que também superou De Bruyne na velocidade e tocou na saída de Ederson para ampliar. A milésima manifestação em pouco mais de um ano dos buracos que existem na defesa do Manchester City.

A temporada passada havia sido bastante irregular, mas a campanha tão perfeita do Liverpool na Premier League mascarou os problemas. A pontuação foi baixa para os padrões de Guardiola – apenas 81 pontos -, mas quantos jogos não foram disputados com máximo esforço porque o título estava fora do alcance? Era, em outras palavras, fácil encontrar desculpas para o desempenho na liga nacional. Houve mais uma conquista na Copa da Liga, uma semifinal na Copa da Inglaterra e mesmo à queda para o Lyon havia justificativas. O acaso teve um papel determinante e a Champions League tem sido mesmo uma pedra no sapato do técnico.

Agora que a irregularidade tem se confirmado de uma maneira mais alarmante, precisamos prestar atenção à causas. Há quatro pontos principais que ajudam a explicar por que o Manchester City chega ao começo da quinta temporada sob Pep Guardiola em um momento de tanta oscilação: erros de mercado, desempenhos individuais abaixo do esperado, um potencial desgaste do treinador e da sua filosofia e, principalmente, um momento de transição.

Sterling, do Manchester City, com Guardiola (Foto: Getty Images)

Desempenhos individuais e mercado

O Manchester City tem uma política de mercado. Contrata jogadores jovens, mas não tão jovens assim. Baixa idade, potencial de crescimento e certa experiência entre os adultos para poderem jogar imediatamente. Foi o caso de Gabriel Jesus, por exemplo, campeão brasileiro como um dos principais nomes do Palmeiras antes de se mudar para a Inglaterra. Leroy Sané já batia bem na bola pelo Schalke 04, Ferrán Torres era titular regularmente pelo Valencia.

Isso é ótimo porque acelera o processo de adaptação. Mas não acelera tanto assim. Quando um time troca Vincent Kompany por Rúben Dias, há uma queda. David Silva por Phil Foden, formado nas categorias de base do City, também. Leroy Sané por Torres? A mesma coisa, além de haver diferença nas características dos jogadores. Os únicos prontos que Guardiola contratou foram jogadores periféricos, como Gündogan, Danilo, Kyle Walker, Nolito, Claudio Bravo e companhia.

Logo, seu mercado exige paciência. Por outro lado, o clube está em modo “ganhar agora” e, pelo que investe, precisa mesmo estar, mas isso cria uma certa distância entre a política de reforços e os objetivos de curto prazo. Funcionou em um primeiro momento porque a garotada se inseriu a um núcleo duro com Kompany, Fernandinho, Silva, De Bruyne e Agüero. Desses, apenas o meia belga continua no clube, segue jogando em altíssimo nível regularmente e sem se machucar.

A expectativa de que os jovens se tornassem esse núcleo duro tem sido frustrada. Sané, para começar, foi embora. Sterling, Bernardo Silva e Laporte estão em má fase. Stones nunca se desenvolveu no zagueiro dominante que talvez quem sabe em circunstâncias bem específicas ele poderia ser. E o mesmo vale para Gabriel Jesus: ainda com 23 anos, e muito chão pela frente, não está mostrando capacidade de liderar a linha ofensiva de um top 5 do futebol europeu, por mais que seja ótimo jogador, por mais que seja maravilhoso como peça de elenco, por mais que tenha potencial de se transformar em um desses atacantes.

É bizarro que isso seja mencionado em um clube que gastou € 900 milhões em cinco anos, mas, para acelerar o processo, o Manchester City precisa dar algumas tacadas certas no mercado, mesmo que seja necessário vender alguns dos seus jogadores para financiá-las. A prioridade precisa ser um zagueiro dominante para estancar a sangria da defesa. Alguém como Koulibaly, que poderia ser esse cara se o City não tivesse sido fresco ao se recusar a negociar com o Napoli por causa da negociação de Jorginho com o Chelsea.

E um novo centroavante. Não dá mais para continuar esperando o momento em que Agüero, 32 anos e um histórico de lesões tão longo quanto sua lista de gols, voltará a jogar em alto nível todas as semanas. Se sobrar um troco, vale a pena considerar pelo menos uma opção de velocidade pelos lados, característica em falta desde a saída de Sané.

Eu também diria que precisa resolver as laterais, mas, depois de atirar € 200 milhões no problema e sair com João Cancelo, Kyle Walker e um Benjamin Mendy que nunca joga, será que adianta?

O fato é que, com Sterling, Bernardo Silva e Laporte jogando mal, Agüero machucado, Silva, Sané e Kompany fora do clube, sem reposições à altura, lá se foi toda a espinha dorsal do time bicampeão inglês.

Pep Guardiola, do Manchester City (Marc Atkins/Getty Images/OneFootball)

Transição

É o ponto mais fascinante porque é novo. Guardiola nunca teve que trocar os pneus com o carro andando. O processo sempre foi o mesmo: limpar a casa, trazer ou desenvolver jogadores que se encaixam em seu estilo, dominar a liga nacional por dois ou três anos e depois ir embora aos primeiros sinais de desgaste. No Bayern de Munique havia menos sujeira a ser limpa em um time que havia conquistado a Tríplice Coroa, mas, em termos gerais, assim tem sido a experiência Guardiola.

O Manchester City, porém, quer mais. Clube historicamente médio da Inglaterra que recebeu uma injeção sobrenatural de dinheiro nos últimos anos, ele quer ser transformado. Em especial, substituir a cultura de fracassos que fazia dele um motivo de piada pelas impressões digitais do maior treinador do mundo, em busca de uma identidade. Como xeiques não sabem nada de identidade futebolística (e até aí, empresários norte-americanos e oligarcas russos também não), o jeito é importar alguém que saiba.

O City preparou-se para este momento. Trouxe Ferran Sorriano e Txiki Bergiristain, antigos dirigentes do Barcelona, para acomodar Guardiola assim que fosse possível. O Bayern de Munique queria algo parecido do catalão e ficou claro que três anos não são o bastante. Por isso, Guardiola entra em seu quinto ano, com contrato para mais dois, um momento sem precedentes em sua relativamente curta carreira.

Acontece que os ciclos de times de futebol de sucesso são geralmente menores. Os melhores treinadores da história que tiveram longevidade além do normal, como Alex Ferguson, Matt Busby, Bill Shankly, Bob Paisley ou Arsène Wenger, tiveram que montar dois ou três para continuar vencendo. Nem chegou a ser uma escolha para Guardiola se manter com os mesmos caras porque o tempo lhe obriga a renovar: Kompany e Silva foram embora, Fernandinho está ficando velho, Sergio Agüero não consegue mais ter sequência. O único mais experiente que segue na mesma toada é o espetacular De Bruyne.

O processo é dolorido e leva tempo. Ninguém acertará todas as reposições e, no caso do City, que foca em jogadores mais jovens, alguma paciência é necessária antes de determinar o que foi um sucesso e o que foi um fracasso. Principalmente, o treinador precisa ser implacável com quedas de rendimento, o que pode ser complicado, do ponto de vista pessoal, dependendo das relações que ele tiver com os jogadores.

O único momento da carreira de Guardiola mais ou menos parecido com este foi em sua primeira temporada pelo City. Mas, quando um treinador chega a um clube novo, há sempre um período de moratória. É compreendido que ele precisa de certo tempo (no futebol europeu e no caso de treinadores como Guardiola) para desenvolver o seu estilo de jogo, é esperado que ele faça mudanças na equipe e no elenco. Ele tem poder e distanciamento para isso.

Agora, a situação é diferente. Guardiola está há quatro anos no Manchester City e, se há problemas, ele também é um dos responsáveis. Não chega de fora com carta branca para mudar o que quiser. Isso já foi feito, o clube já está moldado para ele. E, por exemplo, será que um outro treinador que chegasse ao Etihad ano passado não teria decidido que chegou a hora de investir em um sucessor para Agüero?

Nada disso significa que a temporada acabou para o Manchester City. Em primeiro lugar, ainda estamos em novembro. Em segundo lugar, Guardiola é o melhor treinador de todos os tempos – para mim, pelo menos – e encontrar soluções é o que ele faz. Não está fora de questão que ele tape os buracos rápido o bastante para brigar pelo título da Premier League, ou até ser campeão em uma edição em que a pontuação necessária será mais baixa, e chegar longe na Champions League. Seria um grande feito, mas não exatamente surpreendente, considerando o que sabemos que ele pode fazer.

Mas estamos acostumados a ver os times de Guardiola em perfeita sincronia, amassando todo mundo, conquistando a maioria dos títulos. No máximo, assistimos a alguns primeiros passos tortos em um novo projeto. Uma equipe vulnerável como a das últimas semanas, em um estágio tão avançado de seu trabalho, é inédito e precisaremos aprender a lidar com isso sem ficar tão assustados.

 

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