Liderar no Natal é sinônimo de título? O que a história ensina ao Arsenal
Entre liderança de dezembro e desfecho em maio, Gunners enfrentam passado que insiste em se repetir
O Arsenal chegará ao Natal novamente no topo da Premier League. A vitória por 1 a 0 sobre o Everton recolocou os Gunners na liderança poucas horas depois de terem sido ultrapassados, ainda no mesmo dia, pelo Manchester City — que bateu o West Ham por 3 a 0.
O cenário reforça a regularidade do time de Mikel Arteta, mas também reacende um fantasma que insiste em rondar o clube: a dificuldade em transformar liderança natalina em título.
Será a terceira vez em quatro anos que o Arsenal fecha o dia 25 de dezembro no primeiro lugar. E a quinta vez em sua história na Premier League. Em nenhuma das quatro anteriores, porém, o troféu foi levantado em maio.
Um histórico que pesa contra o Arsenal

A primeira frustração veio em 2002/03. Campeão da temporada anterior, o Arsenal liderava no Natal, mas acabou superado pelo Manchester United. Anos depois, em 2007/08, o roteiro se repetiu: queda de rendimento na reta final e apenas a terceira colocação, novamente com os Red Devils campeões.
Sob o comando de Mikel Arteta, o padrão se manteve. Em 2022/23 e na temporada seguinte, o Arsenal também liderou no feriado cristão, mas viu o Manchester City assumir o protagonismo nos meses decisivos. O caso mais doloroso ocorreu recentemente, quando os Gunners chegaram a abrir seis pontos de vantagem sobre os Citizens em dezembro e, ainda assim, terminaram a temporada dois pontos atrás.
Agora o rival — ainda comandado por Pep Guardiola — aparece novamente no retrovisor, somente dois pontos distante, alimentando a dúvida: será que desta vez o desfecho será diferente?
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O que diz a história da Premier League?
O retrospecto geral da liga mostra que liderar no Natal ajuda, mas não garante nada. Em 33 temporadas completas da Premier League, o líder no dia 25 de dezembro acabou campeão em 17 ocasiões — pouco mais da metade. Nas outras 16, a liderança natalina se mostrou ilusória.
Mais do que isso, o Campeonato Inglês tem se tornado um território cada vez mais hostil para quem se acomoda cedo demais.
Nas últimas quatro vezes em que o líder de Natal foi ultrapassado, o título terminou nas mãos do Manchester City. Em três dessas campanhas, a virada veio após desvantagens consideráveis: oito pontos atrás do Liverpool em 2020/21, quatro atrás dos mesmos Reds em 2022/23 e seis em relação ao Arsenal na temporada seguinte — nessa ocasião os Citizens estavam na quinta posição no feriado.
Essa arrancada recente também reforçou uma estatística rara, mas crescente. A temporada 2023/24 foi a quarta vez em que um time fora do top quatro no Natal acabou campeão. Antes disso, somente Manchester United (1996/97), Arsenal (1997/98) e o próprio City (2020/21) haviam conseguido o feito.

Liderança no Natal: simbólica, instável e longe de ser decisiva
Ao todo, já são nove temporadas em que equipes que ocupavam a terceira colocação ou posições ainda mais baixas no dia 25 de dezembro terminaram com o título. O maior exemplo de superação segue sendo o próprio Arsenal de 1997/98, campeão mesmo estando 13 pontos atrás do Manchester United — a maior desvantagem já revertida na era Premier League.
No extremo oposto, a estatística também serve de alerta para quem lidera cedo demais. Em 1998/99, o Aston Villa chegou ao Natal na primeira posição e acabou despencando até o sexto lugar — o pior desempenho final já registrado por um líder natalino.
É nesse contexto que o Arsenal volta a fechar o Natal como referência do campeonato. A liderança reforça a competitividade do time londrino, mas a história deixa claro que o posto tem valor simbólico, não definitivo.
Para Arteta, a pergunta não é se o Arsenal pode liderar — isso ele já provou. O desafio, mais uma vez, será sustentar essa posição quando o calendário apertar e a margem de erro desaparecer.

60 anos atrás: a última vez que o futebol inglês teve um jogo no dia de Natal
Durante décadas, o dia 25 de dezembro fez parte do calendário do futebol inglês. Em um país com poucos feriados nacionais, o Natal era visto como uma oportunidade natural para atrair torcedores, favorecido pelo funcionamento do transporte público e pela ideia do futebol como entretenimento comunitário. Desde o fim do século XIX, partidas disputadas nessa data ajudavam a transformar o feriado em um evento coletivo, especialmente para a classe trabalhadora.
Com o passar dos anos, porém, a relação entre o futebol e o Natal começou a mudar. A própria sociedade inglesa passou a encarar a data de forma mais privada, centrada no ambiente doméstico.
Casas mais confortáveis, novas opções de lazer e o avanço da televisão reduziram o apelo de sair para os estádios. Ao mesmo tempo, a introdução de refletores ampliou o número de jogos noturnos durante a semana, diminuindo a necessidade de concentrar partidas no período festivo.
O fator decisivo, no entanto, foi logístico. A redução dos serviços de transporte no dia de Natal — impulsionada tanto pela menor demanda quanto pelo desejo dos trabalhadores por um dia de folga — tornou cada vez mais difícil levar torcedores aos estádios. Assim, partidas em 25 de dezembro passaram a destoar do restante da programação esportiva e, gradualmente, foram sendo abandonadas.
A última delas aconteceu em 1965, quando Blackpool e Blackburn Rovers se enfrentaram pela Football League. Desde então, o futebol inglês consolidou o Boxing Day — dia 26 de dezembro — como seu grande símbolo festivo.



