Champions League

A partida de Fernandinho, capitão, na semifinal da Champions é cabal à sua influência na mentalidade do City

Meio-campista foi uma das novidades na escalação e esteve entre os melhores em campo no triunfo sobre o PSG

O Manchester City realizou uma mudança pontual em seu meio-campo, antes do reencontro decisivo com o Paris Saint-Germain pela semifinal da Champions League. Pep Guardiola optou por colocar Fernandinho no lugar de Rodri na cabeça de área. A escolha não era sem motivo, considerando a temperatura do jogo e a consistência defensiva do brasileiro. E o meio-campista, usando a braçadeira de capitão, deixou o campo como uma das grandes figuras na inédita classificação dos celestes à decisão, com a vitória por 2 a 0. No dia de seu aniversário de 36 anos, o veterano fez uma partidaça e ajudou bastante na noite praticamente perfeita do sistema defensivo inglês. Personagem essencial no ciclo vitorioso do City, sai ainda maior, numa noite desde já fundamental à sua carreira.

Fernandinho chegou ao Manchester City em 2013, como reforço de um clube que já enfileirava títulos no futebol inglês. O meio-campista tinha sido uma peça central na construção da dinastia do Shakhtar Donetsk no Campeonato Ucraniano e apresentava até mesmo uma influência ofensiva notável com Mircea Lucescu. Não demorou para que o meio-campista começasse a escrever sua própria história vencedora com Manuel Pellegrini no Estádio Etihad. Uma temporada bastou para que já contribuísse bastante na conquista da Premier League 2013/14. Era apenas o início de uma relação que se prolongaria bastante, mesmo que o paranaense já completasse 29 anos naquele momento.

A história de Fernandinho na Premier League é impecável. O volante está entre os melhores e mais influentes em sua posição no torneio ao longo da década. Se já era um homem de confiança com Pellegrini, virou um ponto de equilíbrio sob as ordens de Guardiola. Os celestes não se notabilizaram pelo trabalho defensivo a partir da chegada do treinador catalão, mas a importância de Fernandinho carregando o piano é inquestionável. Foi uma peça constante à frente da defesa, pela maneira como lê o jogo e oferece combate, mas também por iniciar as construções com muita qualidade técnica. Entrou de vez na história dos Citizens, com mais taças, mas também uma constância que permite se aproximar dos 350 jogos pelo clube.

A idade pesa a Fernandinho, claro. Não é mais o meio-campista incansável que foi durante boa parte de sua trajetória acima dos 30 anos. Na temporada passada, até acabou reinventado como zagueiro por Guardiola. Mas, com os reforços no setor, o brasileiro passou a frequentar mais o banco de reservas em 2020/21. Isso não diminuía necessariamente seu peso nos vestiários, como um dos jogadores mais experientes do grupo e também um dos mais antigos do clube. Prova disso, acabou nomeado como novo capitão, após a despedida de David Silva. Em campo, virou uma escolha eventual, sem muitas vaidades para aparecer no banco. Mas nada que reduzisse sua influência na própria guinada do City nesta temporada.

O Manchester City já tinha iniciado sua sequência positiva em dezembro, mas não era nada fora de série e ainda ocupava a terceira colocação na Premier League após o Boxing Day. Durante um treino antes da virada do ano, Guardiola se incomodou bastante com a falta de comprometimento de seu elenco e ficou possesso. Os erros se repetiam, ninguém voltava para marcar, a intensidade não era a de sempre. O treinador, então, passou sua insatisfação ao capitão. Reclamou que nem todo mundo estava entregando 100%. Coube a Fernandinho pedir mais aos seus companheiros. Uma conversa comandada pelo veterano aconteceu nos primeiros dias de janeiro e se tornaria cabal ao melhor momento do City na temporada. Ao sucesso na Champions, inclusive.

“Com todo mundo reunido, eu falei com o coração para eles. Falei como capitão, né? Disse a eles o que o Pep tinha me dito, que algumas coisas são inaceitáveis. Disse que o que você faz no treino tem reflexo direto no que você vai fazer no jogo. Fui muito honesto. Todo mundo sabia o que eu estava falando, mas precisávamos ouvir outra vez. Precisávamos de um chacoalhão. E foi importante acontecer naquele dia. Embora eu tenha puxado a conversa, todos os outros jogadores também falaram. E concordamos que era preciso algo mais. Ainda tínhamos tempo de mudar o rumo da nossa campanha. Ou poderíamos apenas assistir passivamente ao título ir para outro time”, contou Fernandinho, em texto recente ao Players’ Tribune. No jogo seguinte, o City atropelou o Chelsea em Stamford Bridge. A nova fase se consolidaria com a arrancada na Premier League.

“Certa vez um repórter me perguntou: ‘Você nunca se cansa de vencer?’. Olha, a resposta é não. Muito pelo contrário. É muito melhor do que perder, né? Cada título tem um sabor especial, e ganhar só te dá mais energia para continuar. Quando você chega nessa mentalidade, quando você está totalmente focado na próxima vitória, é como se… talvez essa analogia soe um pouco estranha… é como estar no meio do furacão. Seu senso de percepção é totalmente diferente daqueles do lado de fora, mesmo que você esteja sendo sacudido de um lado para o outro. Você entra na rotina e bloqueia o barulho, o vento, a chuva. Nesse momento, você só precisa vencer e seguir. Vamos! Ok, ganhamos hoje, mas agora nós nos preparamos para o próximo jogo, o desafio seguinte. Não há tempo para reflexões nem para comemorar propriamente. Todos os jogadores falam isso, né? Parece clichê, mas é a verdade. Você precisa ter esse comportamento para se manter na melhor forma. No meu caso, estou no meio do furacão há muito tempo. Faz 15 anos desde que cheguei à Europa. 15 anos!”, afirmaria ainda o veterano, no mesmo texto.

Voltando ao olho do furacão e superando alguns problemas físicos, Fernandinho passou a participar mais da Premier League nesta segunda metade de temporada, enquanto o City poupava suas principais escolhas pensando na Champions. Porém, Guardiola concedeu novas chances em momentos de peso. A presença na final da Copa da Liga soava como uma grande homenagem. O meio-campista tinha sido titular e importante ao longo da campanha, com assistência nas quartas contra o Arsenal e gol na semifinal diante do Manchester United. Contra o Tottenham, o capitão não participou diretamente do tento, mas fez uma partida excelente e merecidamente recebeu a taça, sua primeira com a braçadeira. Numa equipe que não possui titulares tão garantidos assim e permite rotações sem que ninguém faça bico, Guardiola daria novamente um voto de confiança para Fernandinho, na Champions. Sua escalação contra o PSG nesta terça parecia evocar sua mentalidade e sua segurança, virtudes necessárias para arrematar a classificação após o triunfo em Paris.

Fernandinho não foi o melhor em campo, mas jogou como em seus melhores tempos. Protegeu bem a cabeça de área e garantiu solidez ao lado de Ilkay Gündogan. O Manchester City marcou de maneira excepcional ao longo da noite. Fechou os espaços, teve um tempo de bola perfeito para os bloqueios, não permitiu as conexões do PSG. A dedicação de Riyad Mahrez e Phil Foden contribuiu para a firmeza de Oleksandr Zinchenko e (quem diria) Kyle Walker nas laterais. No miolo de zaga, Rúben Dias foi fenomenal e não à toa levou o prêmio de melhor em campo, na ótima parceria com John Stones. Fernandinho também teve sua parte nesse encaixe, como uma referência por sua ferocidade nos combates e pelo posicionamento fora de série.

Fernandinho terminou o jogo com números expressivos. Foram cinco desarmes, três cortes e três interceptações, além de um chute travado. O meio-campista ainda cometeu quatro faltas, mas foi exatamente uma pancada que ele sofreu que terminou de definir o confronto. Ángel Di María perdeu a cabeça num lance na lateral e deu um pisão no pé do brasileiro. Foi para o chuveiro mais cedo e, com um a menos, o PSG não faria mais nada. A classificação inédita ao Manchester City seria um presente de aniversário mais que especial a Fernandinho. Inesquecível, premiando um trabalho de quase oito anos no clube.

“O City elevou o sarrafo da minha mentalidade vencedora, mas eu já tinha isso comigo antes de me mudar para a Inglaterra. Nunca fui aquele jogador de técnica refinada, mas jamais fugi da batalha. Meus companheiros, técnicos e torcedores sabem que podem contar comigo. Sempre darei o meu sangue. Sempre”, comentaria também ao Players’ Tribune. Uma postura que se referendou ainda mais nesta terça-feira de Champions League e que sublinha por que Guardiola, a quem o brasileiro chama de “revolucionário”, o leva tanto em consideração. O volante é a personificação de uma fome por vitórias que se repete tanto com os Citizens na Premier League, mas que não gerava o mesmo impacto na Champions, por diferentes motivos. Que, agora, se apresenta num momento de maior equilíbrio do time. Estando dentro de campo ou não, Fernandinho tem sua parte naquilo que se vivencia e se sente nos vestiários celestes.

No Brasil, Fernandinho acaba tantas vezes associado às suas participações em Copas do Mundo. De fato, sucumbiu com o restante do time contra a Alemanha em 2014 e teve erros fatais contra a Bélgica em 2018. Se não conseguiu ser tão preponderante na Seleção, sua história no futebol europeu, e principalmente no Manchester City, apresenta um sucesso muito maior. E se torna uma imagem bem mais forte do que foi sua carreira. Nada melhor para superar essa rejeição, então, que o veterano ganhe uma chance de conquistar a Champions com a braçadeira de capitão. Sua figura na semifinal diante do PSG já fica gravada na memória do Estádio Etihad. Quem sabe, pronto a um passo a mais, que dimensione sua grandeza como um personagem central aos Citizens e, em particular, ao trabalho de Guardiola.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo