Tim Vickery: A dupla fé de Ancelotti com Neymar na Seleção e o teste do ‘amor duro’
Colunista da Trivela analisa escolha de treinador da Seleção por craque do Santos que tomou conta do noticiário
Quando o Carlo Ancelotti cruzou o Atlântico para se tornar técnico da seleção brasileira, fiz um podcast com um cidadão chamado Chris Bryant, um acadêmico (e técnico amador) que é amigo de Ancelotti e ajuda ele a escrever os seus livros.
O Chris quis muito frisar uma coisa. Para entender o Ancelotti, tem que saber que mentalmente ele é jogador. Pensa como jogador. Pensa como jogador que era, um meio campista muito sólido, mas não um grande talento. Veja os times deles divididos entre os talentos, e os jogadores (que nem ele) que dão sustentação para os talentos. E tem uma verdadeira reverência para os talentos.
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Um ato de fé em Neymar
Ajuda bastante a explicar o que aconteceu na segunda-feira. Porque convocou um talento (embora quanto desse talento ainda sobrevive permanece uma dúvida), quebrando o critério que ele mesmo estabeleceu.
Sempre foi falando que o Neymar seria convocado caso tivesse merecendo.
Claramente, baseado nas atuações das últimas semanas, não está — e, nas entrelinhas, Ancelotti confessou isso na coletiva da imprensa. Ficou bem desconfortável com a pergunta sobre a comparação entre Neymar e João Pedro, e admitiu que o atacante do Chelsea merece estar no grupo.
Quando falou que Neymar tem mais um mês para melhorar a condição física, foi uma confissão que não foi o desempenho até agora que ganhou o seu lugar no grupo. Foi o que o talento seria capaz de produzir.
Trata-se, na verdade, de um ato de fé — fé no talento de Neymar, e fé na própria capacidade de Ancelotti de lidar com a situação criada por ele mesmo.
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Seleção brasileira: O espetáculo e o vestiário
O que foi armado pela CBF na segunda-feira foi um tipo de circo. E vamos deixar claro que isso não é totalmente uma crítica. Não sei porque a palavra “circo” é sempre vista como pejorativa por aqui. Gosto de circos — desde que não maltrate os animais.
Mais uma sala cheia de celebridades e influenciadores cria um ambiente de espetáculo de entretenimento em vez de análise rigorosa. E a reação do nome de “Neymar Júnior” mostra que essas forças circenses agora estão dentro do vestiário.
Aí vem o segundo componente da decisão do Ancelotti. Além da reverência para o talento, o técnico tem fé na sua própria capacidade de fazer o circo agradável para todos.
O técnico tem um ego — bem necessário na função, e bem justificado depois de tantas conquistas.
Com certeza, ele ja está ciente dos riscos.
Já ouviu que ele está trazendo um jogador que tem que ser o centro das atenções, mas que não tem mais capacidade de ser “o cara” do time, que Neymar no banco é problema, que a imprensa vai embarcar numa campanha para forçar ele como titular, que Neymar e parças logo vão criar um ambiente que foge do controle.
O teste do “amor duro”
Ancelotti já ouviu tudo, e conclui — confio no meu taco, sei como domar os leões. E agora, depois de conceder status especial a Neymar para convocá-lo, vem a grande virada. “Não quero estrelas,” falou o técnico depois de trazer de volta a maior delas. Ancelotti está tentando frisar que Neymar, pela primeira vez na carreira dele na Seleção, não passa de mais um no grupo.
O técnico deixou claro que, neste momento, não enxerga Neymar como titular no jogo de estreia, e que cabe ao jogador nos treinos conquistar o seu lugar. E uma dose do que se chama em inglês “tough love” — amor duro, ou tratamento rigoroso para o seu próprio bem. Pode ser um conceito chegando um pouco tarde na vida de Neymar, e vai ser fascinante ver se dá para aplicar essa filosofia durante a Copa inteira.
Pensando bem, será fascinante ver se dá para aplicar essa filosofia na semana que vem contra o Panamá.
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