Brasil

Tim Vickery: Entre fé e evidência: O desafio de Neymar para provar que ainda é elite

O "ou vai ou racha" do craque do Santos na semana que define o rumo à Copa do Mundo

Com virose ou sem virose, virou um caso de ou vai ou racha. Com boteco ou sem boteco, é uma questão de botar para quebrar. Estamos no momento mais importante na carreira de Neymar desde a lesão sofrida em outubro de 2023. Dois jogos nesta semana podem ser determinantes na busca dele para ir para a Copa do Mundo.

O Santos viaja na terça para enfrentar o San Lorenzo na Copa Sul-Americana, e no sábado vai subir a Rodovia dos Imigrantes para pegar o Palmeiras. São dois adversários de peso, especialmente o segundo, que vão tratar o Neymar com respeito mas sem piedade. 

São jogos bem maiores que os recentes do Santos. Brilhando contra esses rivais, fora de casa, pode colocar Neymar bem na conversa da convocação do senhor Carlo Ancelotti. Mantendo o nível das últimas partidas, fica difícil ter uma base para colocar ele na lista para a Copa.

Neymar em Brasil x Uruguai
Neymar em Brasil x Uruguai (Foto: IMAGO / Fotoarena)

Até agora a base para convocá-lo fica sustentada basicamente na — na crença que, na hora H, o futebol dele vai voltar e ele vai ser capaz, contra os melhores, de fazer a diferença.

O futebol de Neymar ainda não apareceu

Só pode ser um ato de fé porque falta evidência. Até agora, desde a lesão, não tem provas que ele ainda seja capaz de tal. E a fé vem junto com auto-enganação, a ideia que tudo não passa da culpa de seus companheiros da equipe, tão limitados que estão atrapalhando — uma visão desmentida pela atuação de Santos contra o Bahia no sábado.

Mas a fé em Neymar não trata-se de uma crença totalmente vazia. Se fala bastante que seleção é momento. Não tenho tanta certeza. Se a seleção fosse momento, o Ronaldo não jogaria a Copa de 2002. Acho que seleção é qualidade, sabendo que a qualidade verdadeira aparece nas ocasiões grandes — desde que haja a capacidade física de se mostrar.

O contra-argumento para a presença de Ronaldo em 2002 é a inclusão de tantos bi-campeões no elenco que foi para a Copa de 1966. Grandes jogadores, todos. Mas foi tarde demais. Na corrida entre o atleta e a passagem do tempo, só tem um vencedor.

Quer um exemplo mais recente? Gareth Bale, na última Copa. Queria tanto coroar a sua carreira jogando, enfim, um Mundial pelo País de Gales. Fez de tudo para classificar o time. Mas chegando lá, apesar de ter somente 33 anos, a história das lesões pesou demais. Foi triste assistir ele em campo. Não deu mais.

Neymar em atuação pelo Santos (Foto: IMAGO / Sports Press Photo)
Neymar em atuação pelo Santos (Foto: IMAGO / Sports Press Photo)

Isso se aplica ao Neymar? Quanto sobra do jogador do passado?

Pelo menos podemos comemorar o fato que ele está conseguindo uma sequência de jogos. É importante. Mas tem que mostrar uma evolução mais rápida, daí a importância desses dois jogos.

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O corpo de Neymar mudou e ele também precisa mudar

Até agora, parece que o jogador que fez aquele golaço maravilhoso contra a Croácia não existe mais. Não é uma questão simplesmente de velocidade. Tão fundamental quanto é o equilíbrio, que sustenta o talento de qualquer craque. 

E, em momentos importantes dentro da grande área, o corpo dele está parecendo desequilibrado, e por isso está perdendo algumas oportunidades. Verdade, pode melhorar com ritmo do jogo. Mas parece aconselhável aceitar que o Neymar, no nível mais alto, não pode ser mais arco e flecha.

Mas pode ser o arco. A Seleção tem velocistas. Falta pausa e precisão nos passes. Seria o papel de Neymar.

Neymar marcou em duelo com o Recoleta, pela Sul-Americana
Neymar marcou em duelo com o Recoleta, pela Sul-Americana (Foto: Marco Buenavista/Sports Press Photo/Imago)

(Interessante aqui e no último ciclo houve uma parceria boa entre Neymar e Lucas Paquetá — bem em evidência naquele gol contra a Croácia. Agora fica mais lógico avaliá-los como concorrentes para a mesma função)

É um papel que precisa de boa leitura do jogo, não somente taticamente mas também emocionalmente — e aqui, nessa última, que a volta de Neymar tem sido decepcionante. Entendo que tem uma frustração, como um corpo que está lutando para fazer o que antigamente era tão natural.

Mas tem um excesso de briguinhas, seja com rivais, juízes ou até com torcedores. E essa seleção já tem uma tendência de estar excessivamente pilhado A última coisa que precisa é alguém para elevar ainda mais a temperatura do jogo.

O desafio de Neymar nesses dias, então, é duro. Vai sofrer com os defensores de San Lorenzo e Palmeiras. A melhor vingança — fica frio, circula a bola, escolhe o momento para soltar o passe ou chute decisivo. E até sábado a gente deveria ter uma ideia mais clara sobre as suas possibilidades de ir para a Copa.

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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