Copa do Mundo 2026

As ‘cábalas’ da Argentina: Como torcedores e até jogadores alimentam a superstição rumo ao título

Da fumaça de Palo Santo às manias dos torcedores na Copa do Mundo em busca do tetra albiceleste

BUENOS AIRES (ARGENTINA) – Um torneio como a Copa do Mundo não é feita apenas de tática, gols e grandes atuações. Fora das quatro linhas, alguns torcedores e jogadores criam seus próprios rituais na esperança de ajudar a sua seleção a conquistar a vitória. Vale vestir sempre a mesma camisa, assistir aos jogos no mesmo lugar, sentar na mesma cadeira ou até repetir exatamente a rotina que deu sorte na partida anterior.

Na Argentina, as superstições são parte fundamental da cultura do futebol e ganham ainda mais força durante o Mundial. A campanha do título em 2022, no Catar, foi marcada por histórias de torcedores que seguiram à risca seus rituais, alimentando a crença de que qualquer mudança poderia “quebrar a sorte” da equipe comandada pelo técnico Lionel Scaloni.

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Conhecidas localmente como “cábalas”, as superstições argentinas estão enraizadas no futebol do país. Um dos maiores símbolos dessa tradição é Carlos Bilardo. Campeão do mundo como treinador em 1986, o ex-técnico ficou famoso por seus inúmeros rituais, como repetir exatamente a mesma rotina quando a seleção vencia, manter os mesmos horários e evitar qualquer mudança que pudesse “quebrar a sorte”.

Carlos Bilardo, técnico da Argentina, na Copa do Mundo de 1990
Carlos Bilardo, técnico da Argentina, na Copa do Mundo de 1990. Foto: IMAGO / WEREK

As “manias” de Bilardo atravessaram gerações e ajudaram a consolidar a ideia de que, em uma Copa do Mundo, nenhum detalhe é pequeno demais quando o assunto é proporcionar sorte à Argentina no torneio. Em 2026, as ‘cábalas’ argentinas parecem estar funcionando novamente, já que a equipe de Scaloni assegurou sua vaga em uma nova final.

Atual seleção argentina tem “cábala” com Palo Santo

Na seleção atual, uma “cábala” que chama a atenção é a defumação com Palo Santo, uma madeira aromática extraída da árvore chamada “Bursera graveolens”. Os zagueiros Lisandro Martínez e Cristian ‘Cuti’ Romero, junto do lateral Nahuel Molina, defumam o vestiário e a concentração da Albiceleste com a madeira, e cada um tem uma função específica.

Lisandro é o responsável por acender o palo santo, enquanto Cuti Romero é quem tem que levar o acendedor na mala. Por fim, Nahuel Molina precisa estar com os dois colegas para que a superstição dê certo.

— Quando chegamos ao Catar, não sei se foi por causa do ar-condicionado ou o quê, eu fui o primeiro a ficar doente. Fiquei de cama por três ou quatro dias, com febre, dor de garganta, não conseguia falar. E liguei para o Marito (Di Stéfano, o roupeiro) e disse: ‘Traga-me Palo Santo, incenso’. O Cuti costumava me zoar muito. — explicou o jogador do Manchester United.

Trio formado por Lisandro Martínez, Cuti Romero e Nahuel Molina ficou conhecido como ‘La Banda del Palo Santo’.
Foto: IMAGO / Sebastian Frej

— Primeiro comecei no quarto e depois fizemos em todos os lugares. Tínhamos o hábito de acordar, acender o Palo Santo, o incenso, sair para a varanda, onde o sol brilhava… E agradecíamos, visualizávamos, desejávamos a Copa do Mundo o tempo todo — seguiu o jogador.

Lisandro se recuperou, jogou e ajudou a Argentina a ser campeã do mundo. Agora, em 2026, a superstição segue viva e na edição 2026, a “La banda del Palo Santo”, segue defumando o hotel e a concentração antes dos jogos decisivos.

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Torcedores argentinos mantêm superstições no Mundial 2026

Agora, na Copa do Mundo de 2026, as tradições continuam vivas, e não apenas entre os jogadores. Nas arquibancadas, nas fanfests e dentro de casa, os torcedores argentinos também seguem seus próprios rituais à risca em dias de jogo.

Em Buenos Aires, a Trivela conversou com alguns deles para descobrir quais são as superstições que mantêm durante o Mundial e até onde estão dispostos a ir para tentar dar uma força à seleção capitaneada por Lionel Messi.

— Minha maior superstição até agora, a que eu mais respeitei, foi não comprar uma camisa da Argentina. Em 2022 eu não tinha uma, então para essa Copa também decidi não comprar. Ontem, depois do primeiro gol da Inglaterra, saí da cozinha e fui para o meu quarto. Peguei uma costura para fazer e fiquei ouvindo o jogo de lá, exatamente como tinha feito contra a Suíça [no confronto pelas quartas de final]. Só saí quando a partida acabou — contou a torcedora Micaela Galli.

Além disso, há quem faça questão de assistir às partidas sempre no mesmo lugar, cercado pelas mesmas pessoas ou até usando a mesma roupa da campanha do título de 2022. As chamadas “cábalas” fazem parte da cultura do futebol argentino e, para muitos, qualquer mudança pode colocar a sorte em risco. A lógica é simples: se funcionou uma vez, não há motivo para mudar.

— Eu assisto ao jogo no mesmo lugar, com os mesmos amigos de sempre. Meu amigo Lucas e meu amigo Kevin estão sempre comigo na Fan Fest, e essa é a minha principal cábala — explicou o torcedor Diego Zani.

Seja evitando comprar uma camisa, mudando de cômodo durante a partida ou repetindo exatamente o mesmo roteiro a cada jogo, as superstições seguem sendo tratadas como parte da campanha da Argentina rumo ao título. Em um país onde o futebol ocupa um lugar quase sagrado, muitos torcedores acreditam que qualquer detalhe pode fazer diferença.

Foto de Gabriella Brizotti

Gabriella BrizottiRedatora de esportes

Formada em jornalismo pela Unesp, sou uma apaixonada pelo esporte em geral, principalmente o futebol. Dentre as minhas paixões, está o futebol argentino e suas 'hinchadas'.

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