Copa do Mundo

‘Ações dos EUA na Venezuela colocam a Copa do Mundo de 2026 em posição vergonhosa’

Questões geopolíticas envolvendo o governo Trump expõe Fifa a críticas às vésperas do torneio

A Copa do Mundo de 2026 já acumula críticas e polêmicas antes mesmo de a competição acontecer. Desde protestos contra as leis anti-imigração do governo de Donald Trump até reclamações relacionadas aos preços dos ingressos.

Nesta quinta-feira (08), o jornalista Leander Schaerlaeckens do periódico britânico “The Guardian” apontou que o Mundial realizado nos Estados Unidos, México e Canadá entrará para a história “entre as mais vergonhosas encarnações do torneio quadrienal” devido às questões geopolíticas do país governado por Trump.

Schaerlaeckens comparou a Copa de 2026 às edições que ocorreram em países comandados por ditadores. Entre eles, Benito Mussolini, em 1934, quando a Itália sediou a segunda edição do torneio mundial em meio ao período da ditadura do regime fascista, além de mencionar a sequência de sedes durante governos militares, como a Argentina, com Jorge Rafael Videla e mais recentemente na Rússia, com Vladimir Putin.

— A natureza problemática desses eventos pode ter sido óbvia na época, mas levou algum tempo para ser totalmente reconhecida; para que não houvesse dúvidas quanto às ações e intenções do governo anfitrião –, afirmou Leander.

Para o jornalista, a diferença no Mundial deste ano com relação às edições citadas é que meses antes do principal evento do futebol mundial é que a problemática ficou ainda mais evidente após a invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro, além das ameaças contra a Colômbia, Groenlândia, México e Canadá, sendo os dois últimos os seus coanfitriões da Copa do Mundo).

— Daqui a alguns anos, quando analisarmos o contexto geopolítico da Copa de 2026 – compartilhada com Canadá e México, mas monopolizada pelos Estados Unidos – provavelmente a colocaremos na mesma categoria das outras. Esperamos que tenhamos clareza absoluta e que esta edição ocupe seu lugar entre as mais vergonhosas encarnações do torneio quadrienal –, destacou o jornalista.

Donald Trump e Gianni Infantino (Foto: Imago)
Donald Trump e Gianni Infantino (Foto: Imago)

Schaerlaeckens também destacou a preocupação com relação ao apoio incansável do presidente da Fifa, Gianni Infantino, a Donald Trump. O mandatário da entidade mundial do futebol chegou a criar um “prêmio da paz” a ser entregue ao executivo dos Estados Unidos, mesmo em meio ao envolvimento em guerras e políticas isolacionistas do país.

— Ainda não sabemos até onde irá esta administração, que prometeu isolacionismo, mas em vez disso entregou o caos geopolítico. Ainda assim, a Copa do Mundo vai acontecer. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, tem se mantido firme em seu apoio a Trump –, afirmou.

O jornalista relembrou que as últimas Copas trouxeram escândalos em novos patamares em comparação com as edições da África do Sul, em 2010, e do Brasil, em 2014. Na época, os torneios foram criticados localmente por excesso de gastos para receber a competição, ainda mais levando em conta as necessidades mais urgentes dos países sede.

— Essas reclamações legítimas parecem insignificantes em comparação com o torneio de 2022 no Catar, obtido por meio de corrupção amplamente documentada e que levou diretamente a muitas mortes e violações dos direitos humanos. O torneio de 2030 ficará marcado por sua abrangência em três continentes, aumentando consideravelmente o impacto ambiental e desmentindo qualquer alegação da Fifa de se preocupar com o clima — destacou.

Violação dos Direitos Humanos e boicote

Para 2034, o jornalista sinalizou novamente o descumprimento recorrente dos Direitos Humanos em mais uma edição, já que a sede da competição será na Arábia Saudita, gerido por Mohammad bin Salman, príncipe herdeiro do país.

— Este país (EUA) não está atualmente em posição de dar lições a ninguém sobre direitos humanos – nem nunca esteve. Catarianos e sauditas não são mais exceções que usam o esporte para promover a imagem da nação. A Copa do Mundo é simplesmente isso que ela representa agora: um veículo conveniente para promover os objetivos de pessoas perigosamente egoístas — declarou.

Gianni Infantino, presidente da Fifa (Foto: Imago)
Gianni Infantino, presidente da Fifa (Foto: Imago)

Para seu artigo no “The Guardian”, Schaerlaeckens diz acreditar que algum movimento de boicote dos torcedores aos eventos da Fifa ganhe força, “embora a lenta queda na aceitação até o ponto em que nos encontramos sugira o contrário”.

— Um boicote desse tipo também não teve sucesso antes do Catar, apesar de muita pressão. É duvidoso que tal boicote consiga constranger muito os homens, e a ocasional mulher, que reprimiram a parte de si mesmos que um dia sentiram vergonha –, escreveu.

Por fim, o jornalista ressalta que a Copa do Mundo seguiu em direção diferente dos Jogos Olímpicos que, segundo o jornalista, “fizeram as pazes com qualquer bagagem sórdida que viesse atrelada ao maior lance para a realização de seus eventos”.

— Quando contarem a história de como a Copa do Mundo se perdeu completamente, apontarão para a edição de 2026, disputada no Canadá, no México e – de forma problemática, vergonhosa e irremediavelmente nos Estados Unidos –, finalizou.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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