‘Não sei se meu sucessor é Trump ou Infantino’: Blatter detona atual gestão da Fifa
Ex-presidente diz que a política se envolveu muito no futebol com as ações do seu compatriota
Joseph Sepp Blatter não esconde a animosidade com o atual presidente da Fifa, Gianni Infantino, a quem se referiu como seu “sucessor” em entrevista ao jornal britânico “Telegraph”. O suíço fez críticas à administração atual da entidade às vésperas do sorteio da Copa do Mundo de 2026.
— Não sei se meu sucessor é Trump ou Infantino. Não posso dizer que eles não devam ter uma boa amizade, mas não vejo exatamente um grande interesse no futebol — disse.
A frase tem relação direta com a principal queixa de Blatter: os laços estreitados com Donald Trump e o herdeiro saudita Mohammed Bin Salman. O ex-presidente da Fifa afirmou que Infantino está mais interessado em agradar líderes mundiais do que em zelar pelo futebol. “Ele está em uma esfera, e acho que está naquela esfera em que amanhã vai organizar futebol na estratosfera. Mas seria difícil ter árbitros”, ironizou.
— Temos 211 associações, e não há uma que se opõe ao trabalho do novo presidente que fala só com líderes de estado e quem trouxe a política para a Copa do Mundo. É um jogo maravilhoso, social, cultural, e pode ser econômico, mas é para o mundo, porque é o jogo mais popular do mundo. Agora, eles dão a impressão de que políticos – de um lado, da Arábia Saudita, e do outro, dos EUA – vão tomar o controle.

A gestão de Sepp Blatter na Fifa se encerrou em 2015 com a renúncia após escândalos financeiros. Ele foi acusado de corrupção na época — posteriormente absolvido, mas ainda há processo civil.
Seu compatriota Infantino deixou o cargo de secretário-geral da Uefa para assumir a presidência da entidade máxima do futebol em 2016 sob a promessa de “resgatar a imagem” da organização.
O atual comandante fez mudanças significativas desde então. Implementou um novo Mundial de Clubes, aumentou o número de seleções participantes da Copa de 32 para 48 e determinou a realização do torneio em três sedes em 2026, o que Blatter se mostrou “ansioso” para ver como vai funcionar.
Canadá, México e Estados Unidos são os anfitriões, mas apenas o governo dos EUA tem tido cada vez mais proximidade com a Fifa.
Além da Copa do Mundo: Blatter questiona ações de Infantino na Fifa com Arábia Saudita e EUA
A aproximação entre Trump e Infantino se intensificou em 2025 e ficou escancarada com o Mundial de Clubes. O chefe da Fifa deve até homenagear o governante com um “prêmio da paz” organizado pela própria instituição pelo fato de ele não ter recebido o Nobel.
— Futebol não deveria conceder um prêmio da paz. Um dia, deveríamos receber um prêmio da paz porque estamos trabalhando pela paz. Acho que é errado — iniciou Blatter.
Outra preocupação do ex-presidente do órgão foram os comentários de Trump que indicavam que ele teria poder de mudar as cidades que receberiam os jogos. “Será o fim. Se os políticos decidirem onde você joga, qual será o futuro do nosso jogo?”, questionou.

No caso da Arábia Saudita, a proximidade entre Infantino e Bin Salman ocorre desde 2020, segundo o jornal britânico. O país até vai receber a Copa do Mundo de 2034.
Será a segunda vez que o Oriente Médio abrigará o torneio. A primeira foi em 2022, no Catar, e a escolha pelos catarianos ocorreu ainda na gestão de Blatter.
— A Arábia Saudita colocou o futebol em risco. Eles são diretores de futebol. Eles dizem o que vai acontecer no futebol, porque o novo presidente (Infantino), quando tem uma ideia, eles simplesmente dão o dinheiro para ela ser feita.
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‘Não deve ser aceito’: Blatter critica falta de suspensão a Cristiano Ronaldo
Essa relação entre Fifa, Estados Unidos e Arábia Saudita também levou Cristiano Ronaldo à conversa.
O português correu o risco de perder os primeiros embates da Copa 2026 por ter recebido um cartão vermelho contra a Irlanda nas Eliminatórias — que poderia gerar gancho de três partidas.
No entanto, houve um encontro entre os líderes dos EUA e da Arábia Saudita com o presidente da Fifa e o astro do Al-Nassr durante evento na Casa Branca e, dias depois, o jogador teve concedido efeito suspensivo para os dois jogos restantes que deveria cumprir.
A entidade informou que a decisão foi tomada “com base no artigo 27 do Código Disciplinar da Fifa”, mas não convenceu Blatter com a justificativa.
— Isso é um princípio que não deveria ser aceito.
Blatter declarou que pretende acompanhar a Copa do Mundo pela televisão e evitar pisar nos Estados Unidos, visto que foi investigado pelo FBI no escândalo financeiro da Fifa.
Suspenso da instituição pela comissão de ética até 2027, ele não descarta retorno após o período. O ano também marca o fim do atual mandato de Gianni Infantino.



