Tim Vickery: Por que a Copa de 2026 resgata a verdadeira magia do Mundial
Copa do Mundo com 48 seleções tem seus problemas, mas também desperta lembranças de uma época em que o futebol era menos globalizado
Estou entrando no ano novo com uma empolgação que vem me pegando a cada quatro anos desde 1974.
Ali, com oito aninhos, comemorei o réveillon com ênfase especial — estava faltando poucos meses até a minha primeira Copa do Mundo! Eu estava pronto para ser convocado, mas não adiantou: a seleção inglesa nem classificou. Nenhum problema. Não diminui em nada a minha ansiedade para ver a bola rolar. Fiquei contando os dias, colecionando as figurinhas e olhando o calendário com impaciência, implorando para o início do torneio.
Tantas décadas depois, ainda sinto um pouco daquela criança dentro de mim quando inicia o ano da Copa. E tem uma coisa que liga a Copa de 26 com os mundiais do passado.
Aumentar o torneio para 48 times não é perfeito. Trata-se de uma quantidade desconfortável das seleções. Com 32 passando para a fase mata-mata, perde muito do risco (daí a graça) da fase dos grupos.
E a gente volta para a situação de quando tinha 24 times: como a Irlanda se esforçou para demonstrar em 1990, nem precisa ganhar um jogo sequer para se tornar campeão. Uma sequência de empates pode ser suficiente para ir longe — o que funciona com um convite a futebol cauteloso.

Por outro lado, não tem como negar que a África estava precisando de mais vagas. Com forças bastante equilibradas no continente, normalmente a safra dos classificados foi muito diferente em cada Copa — e aí, ficou muito difícil uma seleção adquirir a experiência que vem de uma sequência de Mundiais.
E já que nenhum continente (estou falando da Europa e América do Sul) ia abrir mão de vagas, a única saída era ampliar mesmo — com as dores de cabeça de um torneio com 48 times.
E as oportunidades também.
Porque acho que vamos ter zebras nos campos da América do Norte. Até por causa desse fato que não é necessário fazer muito para ir longe na competição. Pode ser ruim para a qualidade do espetáculo, mas bom para a construção de narrativas.
Imagino que nomes que vão para a Copa relativamente desconhecidos vão sair do Mundial como estrelas globais — e se vai ser somente uma fama warholiano de 15 minutos nos holofotes, mesmo assim o brilho vai ser intenso.
Isso me lembra da minha primeira Copa, ali em 1974, e de todas as outras nos próximos vinte anos.

Porque naquela época, antes da globalização do futebol, uma grande parte da magia da Copa vinha justamente do poder de descobrir — uma das sensações mais profundas que a gente tem. Antes do torneio, você não conhecia os jogadores das outras seleções — personalidades que, durante a Copa, rapidamente se transformaram em figuras amadas, odiadas, admiradas ou desprezadas com uma intensidade profunda.
Era assim até e incluindo a Copa de 1994, quando, te juro, o torcedor inglês mediano entrava na Copa sem saber quem era Romário. A graça veio do processo de conhecer ele e tantos outros no percurso do teatro no campo.
A globalização do jogo tirou muito desta força. Nas últimas Copas, os grandes nomes das grandes seleções já eram muito conhecidos pela grande maioria dos torcedores.
Mas agora, com 48 times, acho que tem espaço para intrusos — e isso, friso, é um componente importante na verdadeira magia do Mundial. Mais um motivo, então, para entrar em 2026 com aquele frisson de entusiasmo.
Tem uma acusação fácil aqui — que eu aceito 100%. Que eu estou me esforçando demais para frisar o lado positivo.
Não posso negar. Tem muita coisa dessa Copa que merece ser criticada duramente. A política migratória do principal anfitrião é um afronto a decência. O preço dos ingressos é um crime contra os melhores valores do futebol como jogo de inclusão, e o argumento apresentado para justificar é um absurdo.
Qual é o senso em levantar fundos para o desenvolvimento do futebol explorando aqueles — os torcedores — que são a essência do futebol? O calor extremo vai ser um desafio para a qualidade do jogo e a saúde dos envolvidos.
Mesmo assim, a criança de oito anos que sobrevive dentro de todos nós está querendo acreditar na Copa do Mundo. Vou contar os dias e olhar o calendário com impaciência e com (quase) a mesma empolgação de 1974.



