Brasil

Vídeos, GPS e intensidade: como Zubeldía transformou o São Paulo em tão pouco tempo

Trivela conta como técnico argentino fez uma imersão para se adaptar tão rapidamente ao São Paulo

Como se fosse um centroavante nato, Ferraresi limpa a marcação e finaliza com a parte de fora do pé direito para marcar um belo gol, o seu primeiro com a camisa do São Paulo. A comemoração é à altura do feito. O zagueiro sai em uma corrida inabalada, de braços abertos, para encontrar o abraço de Luis Zubeldía no meio do caminho. No calor do momento, o técnico mandou a hierarquia às favas. Invadiu o campo para vibrar com o venezuelano como se fosse um de seus comandados, e não o comandante da equipe.

A cena do triunfo por 3 a 1 do Tricolor sobre o Vitória, no último domingo (5), no Barradão, é um retrato fiel de como o argentino tem vivido o ambiente do clube desde que chegou para assumir a equipe. É como se Zubeldía respirasse o São Paulo, conforme relatos ouvidos pela reportagem da Trivela. O treinador fez uma espécie de imersão nas pouco mais de duas semanas desde que desembarcou na capital paulista para mapear o elenco e acelerar a implementação de suas ideias.

Não é por acaso que o técnico acaba de encerrar uma maratona de cinco jogos em 14 dias ainda invicto no cargo. São quatro vitórias (todas elas fora de casa) e um empate. Após um período de turbulência, o São Paulo hoje vive o seu melhor momento na temporada e acaba de garantir a vaga antecipada às oitavas de final da Libertadores. Tudo fruto dos esforços do argentino para se adaptar ao clube o mais rápido possível — e não o inverso.

“Estamos bem. Não pretendo usar superlativos para definir a atuação da equipe até agora. Um bom trabalho já é suficiente. Eu gosto de equipes sérias, que têm os pés no chão”. (Luis Zubeldía)

Tecnologia é aliada para conhecer o elenco

De imediato, Zubeldía sabia que teria pouquíssimos minutos de trabalhos em campo para conhecer seus jogadores e implementar suas ideias de jogo em meio ao calendário que previa uma partida a cada 2,8 dias. O técnico já tinha uma boa ideia das características do elenco pelos enfrentamentos que teve com o São Paulo quando comandava a LDU em 2023. Antes mesmo de desembarcar na capital paulista, o argentino já sabia como driblar a escassez de tempo.

Para a estreia no cargo, por exemplo, Zubeldía planejou a equipe com André Silva como extrema pela direita. O centroavante nunca havia atuado antes na posição, mas o técnico consultou os dados do GPS do jogador para mostrar ao atacante que ele tem capacidade de executar a função. Deu certo, e o São Paulo venceu o Barcelona-EQU por 2 a 0 em Guayaquil. 

Zubeldía assistiu a vídeos de Luciano para tirar o melhor do camisa 10 (Foto: Rubens Chiri/São Paulo)

O treinador também revelou que assistiu a um compacto dos gols marcados por Luciano para entender como o artilheiro da equipe em 2024 pode render mais em campo. A partir da análise deste material, o treinador percebeu que o camisa 10 é uma peça-chave para equipe, com um papel que vai bem além de terminar as jogadas, seja com gols ou assistências. Por sua movimentação constante para ocupar espaços na entrada e dentro da área, Luciano é importante para ajudar o São Paulo a circular a bola próximo à meta do adversário e aparecer como ameaça à defesa rival.

— Eu tive a possibilidade de fazer um compacto e ver junto com meu estafe os gols de Luciano em 2023. Porque eu conheço os jogadores, mas às vezes eu preciso lembrar com imagens. E se você olha os gols de Luciano em 2023 e anos anteriores, também pode se dar conta de que o que fez hoje (domingo) não é uma casualidade. Por isso era muito importante, em um processo de circulação de bola, ocupar os espaços, ter como ameaça sempre o Luciano — explicou Zubeldía após a partida no Barradão.

Técnico teve conversas individuais para acelerar adaptação

Além da tecnologia, o olho no olho também foi parte importante do processo de adaptação do treinador. Zubeldía teve conversas individuais com os jogadores para explicar com detalhes o que ele espera de cada um dentro de campo em termos de movimentação e comportamento.

— Desde que o mister chegou, a gente vem entendendo bem o que ele pede para fazer dentro de campo. No começo, foram mais conversas, mais vídeos. Ele chamava individualmente na sala para falar o que ele queria individualmente de cada jogador. A equipe inteira entendeu a forma que ele gosta de controlar as partidas, e viemos fazendo bem isso aí — afirma o lateral-direito Igor Vinicius.

Intensidade até na hora do aquecimento

Zubeldía desembarcou no Brasil com a intensidade como marca registrada de seu trabalho. Foi assim, ao menos, que ele conquistou sucesso nos tempos de LDU, quando até os treinamentos exigiam o máximo dos atletas. O relato é de que os jogadores do São Paulo consideram os treinos do argentino mais intensos do que o de seu antecessor, Thiago Carpini — apesar de o técnico ter desconversado, quando perguntado por isso em entrevista coletiva.

Mesmo sem acesso diário às atividades, é possível perceber a intensidade de Zubeldía antes e durante os jogos. Um ponto curioso é que o treinador acompanha os trabalhos de aquecimento antes das partidas de dentro do gramado. E com muitos gritos de incentivo e cobrança. Com a bola rolando, o argentino permanece agitado à beira do campo a todo o instante, com muitas orientações e pedidos para o São Paulo se manter intenso.

— Eu quando falo de intensidade e ritmo de jogo, estou me referindo a ter um controle do jogo. Às vezes, se interpreta mal a intensidade, e relacionamos a intensidade com o que físico. Mas não é só isso. Intensidade técnica, intensidade posicional para poder ter jogadores juntos, para ter uma boa circulação, para depois dar profundidade ao ataque. Estou tratando de que cada vez se faça melhor, e não é fácil. Hoje (quinta-feira, 2 de maio) jogamos pela Copa do Brasil, depois Bahia, depois no Chile. Minha ideia é que cada vez tenha um melhor ritmo de jogo através do controle da bola para cada vez mais ser uma equipe mais profunda. Isso deve nos fazer cada vez mais uma equipe mais equilibrada — explica o treinador.

Os próximos três jogos do São Paulo

  • São Paulo x Fluminense — Brasileirão — segunda-feira, 13 de maio, às 19h (horário de Brasília) — Transmissão: Premiere (TV por assinatura)
  • São Paulo x Barcelona-EQU — Libertadores — quinta-feira, 16 de maio, às 21h (horário de Brasília) — Transmissão: ESPN (TV fechada) e Star + (streaming)
  • São Paulo x Cruzeiro — Brasileirão — segunda-feira, 20 de maio, às 20h (horário de Brasília) — Transmissão: SporTV (TV fechada) e Premiere (TV por assinatura)
Foto de Eduardo Deconto

Eduardo Deconto

Eduardo Deconto nasceu em Porto Alegre (RS) e se formou em Jornalismo na PUCRS. Antes de escrever para a Trivela, passou por ge.globo e RBS TV.
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