Brasil

Extracampo do Palmeiras fez força para tumultuar a temporada, mas o time foi mais forte para ser campeão

O campeão brasileiro teve bastidor tumultuado enquanto o time, mais uma vez, fazia sua parte

Que o Palmeiras tem um dos bastidores mais conturbados e tragicômicos do futebol brasileiro, nem é preciso falar. Que a torcida é também das mais combativas e engajadas, menos ainda. Mas, em 2023, enquanto o bicampeão brasileiro seguia lutando com grande chance pelas taças mais cobiçadas, a parte política do clube era pura efervescência, num nível poucas vezes antes visto.

A diretoria de futebol, que contratou pouco, era alvo da torcida. As principais organizadas bateram de frente com a presidente Leila Pereira, que retaliou não apenas a arquibancada, mas também a parte do conselho deliberativo que lhe faz oposição.

Já no banco de reservas, ao mesmo tempo em que era excelente com o time, Abel Ferreira tinha seus enroscos com a imprensa por mais um ano. Com direito até ao treinador sacar o celular da mão de um jornalista que filmava uma discussão do diretor Anderso Barros com a chefia de arbitragem de um jogo contra o Atlético-MG, no Mineirão. E, em uma das muitas suspensões de Abel, o auxiliar João Martins ainda disse que “o sistema” não queria o Palmeiras bicampeão.

E foi assim, com direito a acusações, entrevista coletiva desastrosa, compra de avião, perseguição, suspensão de benefícios, brigas, rupturas, lei do silêncio e até uma providencial trégua que o Palmeiras terminou o ano com três troféus novos em sua prateleira.

Palmeiras funciona como um relógio. Mas um relógio nervoso

Se já conseguiu tudo que conseguiu com tanta polêmica na sua coxia, fica até difícil imaginar até onde o time iria se o clube tivesse um pouco mais de calmaria para trabalhar.

Por mais um ano, Abel Ferreira e sua comissão foram impecáveis no “campo-bola-três pontos”, como gostava de dizer o ex-técnico do clube, Jair Picerni. No que toca à parte técnica do trabalho de bastidores, como a preperação física, departamento médico, e até questões mais administrativas, a diretoria também fez tudo que podia.

O clube não atrasa salários, nao atrasa pagamentos a fornecedores, não contrai dívidas que não pode honrar, enfim, tem uma execelência de processos incomparável no Brasil, cantada e decantada por todas que têm contato com esse aspecto do clube. O que falta ao Palmeiras é um pouco de paz.

Brigas tem de chegar ao fim

Não há como essa tensão absoluta entre parte da torcida, a diretoria e o conselho deliberativo continuar. Há uma bomba-relógio prestes a explodir, que só se manteve em contagem segura nesse ano por conta dos resultados no campo.

Leila Pereira precisa entender que o time é dos seus torcedores. Assim como parte da torcida, goste ou não, precisa entender que Leila está na cadeira máxima da hierarquia por um processo legitimado – eu não disse legítimo – e que não vai ceder a pressões e xingamentos. Ou, como disse jocosamente, “Batucada de tambores e bombas”. Não tem cabimento que as lojas das empresas dela sejam depredadas, por exemplo.

Não foi por acaso que o Palmeiras engrenou de vez depois que a Mancha passou a ignorar Leila Pereira. E depois que a mandatária também deixou o egocentrismo de lado e retirou suas rusgas da arena pública.

Leila precisa entender que, como presidente, é funcionária do Palmeiras. E que, se focar na administração, algo em que ela já mostrou ser excelente, seu legado ficará automaticamente gravado para sempre na História.

Tendência é um número maior de reforços

Se quer um pouco mais de paz em 2024, a diretoria precisa reforçar o time. Não se trata de trazer muitos nomes ou medalhões, para criar um efeito moral. Mas, dentro da sua filosofia, o clube não pode ter lacunas no elenco como neste ano, em que o time simplesmente não repôs a saída de Danilo.

Como há eleição no fim da temporada, a tendência é que outros nomes, além do já contratado Aníbal Moreno, cheguem. Existe essa necessidade, não se trata de jogar para anagriar votos, mas sim de cumprir com as obrigações.

Do ponto de vista político, porém, novos atritos no âmbito político devem acontecer. E, embora a oposição não tenha qualquer chance de derrubar Leila no pleito, as brigas vão surgir com ainda mais frequência.

Outro ponto importante seria que a comissão técnica também assumisse uma postura menos beligerante, em especial em relação à imprensa. Isso, porém, de antemão já se pode cravar que não irá acontecer.

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata Lima

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.
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