O que Manchester City e Guardiola podem ensinar à seleção brasileira sobre defender em 4-2-4
Título sobre o Arsenal pode servir de lição para Ancelotti sobre o 4-2-4 que virou debate na Data Fifa de março
A Data Fifa de março da seleção brasileira foi marcada por uma derrota para a França que inflamou debates sobre o 4-2-4 de Carlo Ancelotti e uma vitória sobre a Croácia com um 4-3-3 “novo” para apaziguar os ânimos. Mas escalar um quarteto ofensivo nada teve a ver com a fragilidade defensiva do Brasil.
O que mudou entre um jogo e outro não foi a forma de defender — em ambos os casos, a Seleção se postou em um 4-4-2 sem a bola. O que mudou foi a postura e a prioridade em que parte do campo cobrir. E Ancelotti pode até mesmo aprender com Pep Guardiola nesse quesito.
Isso porque o Manchester City havia conquistado o título da Copa da Liga Inglesa sobre o Arsenal, antes da Data Fifa, dominando os Gunners justamente ao defender em 4-2-4. De forma agressiva, alta e com propósito semelhante ao de Ancelotti contra a Croácia.
O 4-2-4 defensivo de Guardiola no Manchester City
Na decisão contra o Arsenal, Pep Guardiola usou seu tradicional 4-2-3-1 da atual temporada com a bola, com pontas tradicionais (Jeremy Doku e Antoine Semenyo) e Erling Haaland como centroavante. Rayan Cherki era o camisa 10 com liberdade atrás do ataque.
Sem a bola, no entanto, o time não baixou para um 4-4-2 tradicional, mas para um 4-2-4 que contou com Cherki e Haaland pelo meio. Isso deixava o espaço entre as linhas de meio e de ataque do Arsenal sendo coberto apenas por Rodri e Bernardo Silva. A princípio, imagina-se que foi um erro que deixou o time desprotegido.
A chave para o sucesso do City nesse cenário foi não subir a dupla de atacantes centrais para fechar os zagueiros. Isso deixaria o Arsenal com clara vantagem no meio, que só teria os dois volantes para proteger, além de ficar em desvantagem na própria linha defensiva (dois zagueiros, dois laterais e um goleiro contra quatro atacantes, um 5×4).
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A ideia, então, era que Haaland e Cherki não saltassem para pressionar e se mantivessem mais baixos, fechando as linhas de passe para Declan Rice e Martin Zubimendi, os dois apoios centrais do Arsenal. Isso impedia a progressão central e dificultava a construção do time de Mikel Arteta.
Mais do que isso, o Arsenal muitas vezes fazia contramovimentos entre pontas e laterais. Os defensores avançavam e permitiam que Bukayo Saka e Leandro Trossard caíssem pelo meio, próximo dos volantes e do meia Kai Havertz. A ideia era criar superioridade numérica no meio enquanto tentava deslocar os pontas do City para abrir linhas de passe.
A grande questão foi como os pontas do City atuaram. No 4-4-2, eles estariam mais baixos e provavelmente seriam arrastados pelos laterais dos Gunners. No 4-2-4, no entanto, eles ignoraram a subida dos defensores e, na verdade, adotaram um posicionamento mais estreito, com uma linha de quatro mais fechada.
Isso liberou a linha de passe pelos lados, mas fechava todas as opções de levar a bola até o meio. Enquanto Cherki e Haaland fechavam os volantes, Doku e Semenyo impediam que os zagueiros encontrassem Saka e Trossard nos meio-espaços. Para algum deles receber a bola, teriam que sair do bloco defensivo e se aproximar dos zagueiros, diminuindo seu perigo.
Cobertor curto que ainda tem perigos
A estratégia de Guardiola teve muito sucesso na maior parte do tempo. Mas como um cobertor curto, quando protegia uma área, deixava de cobrir outra: quando os laterais do Arsenal não subiam como de costume, tinham espaço para receber e progredir.
Mais do que isso, se o Arsenal conseguisse progredir com lateral e ponta próximos à linha, era comum ver o Manchester City desprotegido no lado fraco da jogada. Quando Saka tinha a bola, por exemplo, depois de uma construção mais rápida, Trossard e Piero Hincapié, a dupla da esquerda, constantemente chegava na segunda trave em vantagem de dois contra um contra aquele lado da defesa.
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— Manchester City (@ManCity) March 22, 2026
Isso acontecia porque o ponta do lado oposto do City não tinha o ímpeto de recuar rápido o suficiente e acompanhar o lateral que subia nas suas costas. Parte por ser um atacante sem esse instinto, mas parte por padrão tático — caso o fizesse, o time naturalmente se postaria mais baixo e a ideia de Pep não era a de defender tão recuado.
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Onde o 4-4-2 de Ancelotti no Brasil entra na história
A reclamação sobre o 4-2-4 brasileiro deixar o meio-campo desprotegido, na prática, não tem muito fundamento. Diferente do Manchester City, o Brasil da era Ancelotti nunca defendeu em 4-2-4.
Sem a bola, a maior parte do momento defensivo da Seleção foi em 4-4-2, com Vinícius Júnior e seu companheiro falso nove (geralmente Matheus Cunha) como os dois à frente. Os pontas recuavam para a linha de Casemiro e Bruno Guimarães, independentemente de quem fossem.
A grande dificuldade brasileira era a marcação em bloco alto e a pressão, que teve momentos muito positivos contra Senegal, por exemplo, mas ainda é um ponto que Ancelotti não encontrou o equilíbrio ideal.
O Brasil foi pego com as iscas na construção adversária em mais de um jogo, mais notavelmente contra França e Japão. Os japoneses foram os primeiros a dar dor de cabeça à Seleção com uma saída em 3-2 que constantemente encontrava espaço nas alas para progredir.
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Contra os franceses, os atacantes brasileiros subiam pressão em uma saída que tinha Aurélien Tchouaméni baixando para criar um 3-2 e naturalmente se encontravam em desvantagem numérica. Isso piorava quando Ousmane Dembélé e Michael Olise desciam do ataque para criar superioridade no meio, e a França progredia com facilidade.
Contra a Croácia, no entanto, o foco mudou. Os croatas também construíam em 3-2, mas o Brasil preferiu ser como o City contra o Arsenal: fechar as linhas de passe para a dupla de volantes e impedir a progressão pelo meio. Deu certo na maior parte do tempo e, mesmo que a Croácia tivesse longas sequências de passes, não encaixou uma grande construção rápida a partir de uma pressão quebrada.
O Brasil nunca testou um 4-2-4 defensivo como o Manchester City e a ideia pode ser arriscada, apesar de muito efetiva contra equipes que priorizam muito o jogo interior. E escalar o time em 4-2-4 não necessariamente significa que ele deve defender dessa forma — mas Guardiola mostra que há uma forma de fazê-lo com sucesso.