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Aposta arriscada e controversa do Corinthians em Diniz tem encaixes que podem fazer sentido

Após passagem que terminou negativa no Vasco, técnico com estilo de jogo peculiar chega com muita pressão ao Alvinegro

A rejeição da torcida do Corinthians a Fernando Diniz, técnico anunciado como substituto de Dorival Júnior, faz total sentido. O profissional que estava no Vasco até fevereiro tem somado trabalhos recentes negativos e acumula 29 derrotas só nas últimas três edições do Brasileirão, trabalhando, além do Cruz-Maltino, em Cruzeiro e Fluminense.

É um nome que carrega também uma forma muito peculiar e diferente de ver o futebol, praticamente inédita no futebol mundial. Um treinador que vive o esporte intensamente e soma episódios de explosões de raiva à beira do campo contra os próprios jogadores.

Osmar Stabile, presidente do Alvinegro, e Marcelo Paz, diretor de futebol, sabem de todo esse pacote, mas decidiram apostar em Diniz por entenderem que o estilo de monopolizar a posse de bola casa com o elenco corintiano, apontou o “Uol”. A “ESPN” publicou que o técnico também vê o grupo de jogadores de forma positiva para sua filosofia de jogo.

É até que, olhando nome a nome, realmente há encaixes que fazem sentido. A trajetória de Diniz no Corinthians começará com muita controvérsia, dúvidas e críticas justas, mas quem quiser ser mais otimista pode ver alguma luz no fim do túnel se o novo comandante conseguir implementar seu estilo de jogo. Entenda nessa análise da Trivela.

Como elenco do Corinthians se encaixa nas ideias de Diniz

Apesar de os melhores jogadores do Timão estarem no ataque, no caso Memphis Depay e Yuri Alberto, o meio-campo é onde há maior número de opções e jogadores com perfil que podem ser decisivos para Fernando Diniz implementar sua filosofia de jogo.

Raniele e Matheus Pereira, por exemplo, são os típicos volantes que o técnico usa para jogar entre os zagueiros em uma saída de bola muito sustentada e com opções de passe. Ambos são especialistas nessa primeira fase de construção, com boa técnica também de lançamentos.

Allan, em péssimo momento há algumas temporadas, tinha essas características em seu auge e, quem sabe, pode ser resgatado por um cara que tem esse perfil de tentar tirar jogadores de fases em baixa.

André Carillo, André Luiz e Breno Bidon, volantes muito móveis, técnicos e capazes de conduzir a bola, como Diniz pede por seu jogo muito apoiado e em progressão, também serão peças decisivas. Inclusive, seria possível até que o novo treinador utilizasse uma estrutura parecida com a de Dorival, próxima de um 4-1-3-2 losango.

Possível escalação usada por Diniz no Corinthians (Foto: FmStadio/Trive
Possível escalação usada por Diniz no Corinthians (Foto: FmStadio/Trivela)
Cenário onde a bola estaria do lado esquerdo e os jogadores se posicionariam para apoiar o portador da posse
Cenário onde a bola estaria do lado esquerdo e os jogadores se posicionariam para apoiar o portador da posse (Foto: FmStadio/Trivela)

Os casos de Bidon e André, respectivamente com 19 e 21 anos, são ainda mais especiais para o recém-contratado. Os meias podem ser potencializados por um profissional especialista em trabalhar com jovens. Foi com Diniz que Gabriel Sara, no São Paulo, André, no Fluminense, e Rayan, no Vasco, atingiram o auge, se consolidaram no profissional e se prepararam para o salto ao futebol europeu.

Ainda sobre o meio-campo, há outro nome que pode se empolgar pela presença de Diniz. Rodrigo Garro, mal fisica e mentalmente desde o último ano, já mostrou de sobra que tem capacidade de ser um camisa 10 típico, capaz de muitas assistências e gols de fora da área. Lembra um pouco a situação de Philippe Coutinho quando Diniz chegou ao Vasco.

No ataque, o protagonismo de Memphis e Yuri não deve mudar. O holandês, tendo mais colegas próximos e sendo um atacante móvel, tem tudo para poder mostrar ainda mais sua qualidade em chances criadas de fora da área e dribles curtos.

O camisa 9, em perfil próximo ao de Brenner, quando Diniz tornou um dos artilheiros do Brasileirão em 2020, e Rayan, pelo menos no quesito velocidade e ataque ao espaço, também pode se aproveitar das novas dinâmicas.

É importante destacar que todo esse cenário só ocorrerá se o técnico conseguir passar sua filosofia ao elenco e o grupo abraçar a ideia de um estilo de jogo que exige que os jogadores o abracem e se dediquem por ele. Por exemplo, no Cruzeiro, ele teve à disposição muitos meio-campistas técnicos, caso de Matheus Pereira, Eduardo, Matheus Henrique, Lucas Silva e Lucas Romero, e a passagem foi um desastre.

Outra questão é que o técnico tem mostrado um repertório mais fixo recentemente. O Vasco, em muitas oportunidades, se mostrou uma equipe mais posicionada em 3-2-5 com a bola e tendo menos “aglomerações” no setor da bola, como era na melhor fase do Fluminense. Pelo que há no elenco corintiano, a tendência é algo mais próximo ao Tricolor das Laranjeiras.

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Ausência de pontas e idade alta podem não ser problemas

Ganso e Diniz celebram título do Fluminense
Ganso e Diniz celebram título do Fluminense (Foto: IMAGO / Fotoarena)

Atualmente, o Timão conta com uma escalação bem experiente. O time ideal, com todo mundo 100% fisicamente, teria cinco jogadores acima de 29 anos ou mais (Raniele, Gustavo Henrique, Gabriel Paulista, Carillo e Depay), além de muitos reservas experientes, como André Ramalho (34), Jesse Lingard (33), Vitinho (32), Fabrizio Angileri (32), Pedro Raul (29) e Garro (28).

Isso, pelo menos no trabalho de melhor sucesso de Diniz, não foi um problema, e sim um trunfo. No Fluminense campeão da Libertadores em 2023, a escalação da final contra o Boca Juniors tinha Fábio (na época com 43 anos), Felipe Melo (40), Marcelo (35), Germán Cano (35), Keno (34), Ganso (34) e Samuel Xavier (33).

Em 2024, no entanto, isso foi uma questão com a chegada de mais veteranos, como Douglas Costa, Antônio Carlos e Renato Augusto, e o técnico acabou demitido com o time carioca afundado na zona de rebaixamento do Brasileirão, em momento de desgaste físico pela mobilização com bola e muitos erros de saída de bola.

Além da idade, outro ponto do elenco corintiano, já desde o começo do ano passado com Ramon Díaz, são as poucas opções para os lados do ataque. Praticamente só tem Kaio César de jogador pronto para ser usado na ponta — o jovem Kayke Ferrari, de 21 anos, ainda soma poucas partidas como titular no time principal.

Até por isso, Matheus Bidú e Matheuzinho emplacaram a melhor fase da carreira com muita liberdade para subir o corredor, legado que o técnico contratado pode e deve aproveitar.

Diniz já utilizou pontas características de velocidade e mano a mano em seus trabalhos, como Keno, no Flu, e Andrés Gómez, no Vasco, mas nem sempre atuavam dois do mesmo tipo no time ideal.

Por exemplo, Jhon Arias era muito mais um meia por dentro do outro lado do ataque em sua passagem nas Laranjeiras, enquanto, em São Januário, Rayan, quando ponta, flutuava para ser mais um atacante por dentro, ou Nuno Moreira centralizava para o meio-campo.

Saída de bola pode ser problema, mas Diniz tem histórico em melhorar zagueiros

Fábio e Fernando Diniz
Fábio e Fernando Diniz (Foto: IMAGO / justpictures.ch)

A primeira coisa que o brasileiro médio fã de futebol pensa sobre Fernando Diniz é sobre sua “saidinha”. A filosofia do técnico é, quase sempre, que a saída de bola ocorra pelo chão, com goleiro, zagueiros e laterais sem medo para jogar e receber sob pressão.

No Corinthians, isso pode assustar. Hugo Souza, apesar de grande goleiro debaixo das traves, causa calafrios com a bola nos pés e já acumulou erros que cederam gols ou chances claras a adversários. O zagueiro Gustavo Henrique, capitão do time, é outro com pouco costume de ter a posse em seu pé com tanta constância. Paulista e Ramalho compensam por esse lado.

Diniz, no entanto, conseguiu transformar jogadores com perfis parecidos. Fábio, com mais de 40 anos, se reinventou ao mostrar personalidade em passes perigosos e até dribles, a depender da pressão adversária. Manoel, zagueiro pouco conhecido por sua capacidade técnica, também foi colocado nessa função de construção e conseguiu se adaptar.

O problema é o pouco tempo para Hugo e Gustavo entenderem o novo estilo e serem potencializados. Pode ser que a dupla protagonize falhas até que isso aconteça ou o treinador, como tem mostrado em trabalhos mais recentes, pode optar em alguns momentos por uma saída com mais lançamentos.

Até a parada para a Copa do Mundo de 2026, o Corinthians não terá uma semana livre de treinamentos. Contará sempre jogos no meio e aos finais de semana. Diniz é conhecido por dar sua cara rapidamente aos times, desde cedo vendo a saída de bola sustentada e ataques com muitos jogadores no setor da bola.

Problemas de relacionamento e torcida podem pesar

Fernando Diniz em jogo do Vasco
Fernando Diniz em jogo do Vasco (Foto: IMAGO / Sports Press Photo)

O técnico ainda nem estreou e a pressão é enorme. As dúvidas da torcida são totalmente justas. A passagem dele no Vasco, apesar do vice na Copa do Brasil e uma breve boa sequência de seis vitórias no recorte de sete rodadas do último Brasileirão, foi ofuscada pelo alto número de derrotas (22, mais do que vitórias, 20) e problemas com o temperamento.

Uma bronca de Diniz com Nuno Moreira, mostrada durante parada técnica no revés para o Mirassol, incomodou o português. O atacante David citou um clima mais leve e com menos pressão desde a chegada de Renato Gaúcho, que estreou batendo o Palmeiras, venceu Fluminense e Vasco e só foi perder em seu sexto jogo pelo Cruz-Maltino.

— Não é sobre o Diniz, mas acho que a gente já tem muita cobrança fora do campo, e quando tem um clima assim também, de muita cobrança dentro, acho que pesa um pouco — disse em 13 de março.

Ou seja, pensando no Corinthians, em que a pressão já é forte, pode ser outro problema. Ao menos, não é do feitio da torcida corintiana vaiar um treinador recém-chegado. O apoio, pelo menos segundo o histórico da Fiel, será a primeira atitude.

A ver até quando irá a paciência, afinal, não é um clube tão acostumado com um estilo de jogo que prioriza a posse de bola. As respostas começam a ser dadas já nesta quinta-feira (9), quando Diniz estreia no comando do Timão contra a Platense, na Argentina, pela primeira rodada da fase de grupos da Libertadores. Na sequência, “apenas” um Derbi contra o Palmeiras, em que o resultado pode dar mais tranquilidade ou pressão ao novo comandante.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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