Guerra política no Corinthians: Aliados de Augusto Melo apostam em contradição para afastar Tuma
Grupo partidário ao presidente da diretoria recolhe assinaturas para materializar alegações de parcialidade do líder do Conselho
A estratégia de Augusto Melo e apoiadores para evitar o afastamento do presidente corintiano visa destituir, ainda que provisoriamente, Romeu Tuma Júnior da liderança do Conselho Deliberativo do Corinthians.
Há dois processos de impeachment contra Tuma entregues à Comissão de Ética e Disciplina do Timão. Ambos argumentam que o cabeça do Conselho é partidário na condução do procedimento relacionado a Melo.
No entanto, há um movimento nos bastidores do Parque São Jorge que pretende enfraquecer Romeu alegando contradição por parte do conselheiro.
Conforme apurado pela Trivela, o grupo que defende a continuidade de Augusto Melo considera que durante o processo que analisa o impeachment do presidente corintiano, Romeu Tuma Júnior mudou a forma de interpretação sobre a influência da Comissão de Ética e Disciplina.
Para o coletivo, Tuma reconheceu a autonomia dos pareceres emitidos pela Ética em um despacho assinado no dia 11 de agosto de 2024 em que encaminha ao órgão em questão um relatório da Comissão de Justiça sobre questionamentos acerca de supostas irregularidades na administração corintiana.
A reportagem teve acesso ao documento e o trecho em que a situação se apega diz o seguinte:
– A proposta da Comissão de Justiça se mostra acertada, pois a atribuição de Comissão Processante, nos termos do art.89 do Estatuto, é da Comissão de Ética e Disciplina do Conselho Deliberativo, exatamente eleita para conhecer, instruir, tomar depoimentos, colher provas novas e dar parecer final, quando os envolvidos em casos com o presente.
Para os apoiadores de Augusto Melo, a posição do líder do Conselho contrasta com as ações práticas tomadas por ele durante o processo de deliberação sobre o impeachment do presidente da diretoria no órgão.

No dia 24 de outubro de 2024, a Comissão de Ética recomendou a suspensão do procedimento de destituição de Augusto Melo até o encerramento das investigações sobre possíveis crimes de corrupção e lavagem de dinheiro na intermediação do contrato entre o Corinthians e a empresa de apostas “Vai de Bet”, antiga patrocinadora máster do clube alvinegro.
No entanto, sob a liderança de Tuma, a votação para o prosseguimento do rito contra o presidente da diretoria prosseguiu.
A reunião sobre o tema já foi suspensa duas vezes. A primeira, no dia 2 de dezembro, por liminar expedida favoravelmente a Augusto Melo – que considerou justamente o parecer da Comissão de Ética. Já a segunda, que aconteceu no dia 20 de janeiro, após o mecanismo jurídico ser derrubado, devido ao avanço do horário, depois de uma série de confusões sobre uma votação prévia para analisar a inclusão da pauta sobre o impeachment no encontro em questão.
Segundo fontes ligadas a Romeu Tuma Júnior, as alegações de contradição imputadas contra o líder do Conselho são infundadas, já que se utilizam de argumentos referidos a um processo anterior ao movido atualmente.
No dia 11 de agosto, Tuma se referia ao relatório da Comissão de Justiça feito após questionamentos de associados e conselheiros após as primeiras denúncias sobre o “Caso Vai de Bet”. Documento este encaminhado em sequência à Comissão de Ética e Disciplina do Corinthians.
Porém, no meio do caminho, houve o pedido de impeachment contra Augusto Melo, assinado por 86 conselheiros e entregue ao Conselho Deliberativo.
Os procedimentos, então, foram desvinculados. E, a partir dali, passou a ser analisada somente a petição do grupo de conselheiros, intitulado “Movimento Reconstrução SCCP”.
Argumento é usado para colher assinatura entre conselheiros
Há cerca de duas semanas, um grupo de conselheiros favoráveis à manutenção de Augusto Melo na presidência do Corinthians se movimentam no Parque São Jorge para colher assinaturas entre os associados. A ideia é que a adesão do abaixo assinado alcance, pelo menos, dois mil sócios.
O plano da situação é amarrar a suposta contradição de Romeu Tuma Júnior ao argumento de imparcialidade usado nos dois pedidos de impeachment contra o líder do Conselho. O primeiro, movido por Roberto Willian, conselheiro conhecido como Libanês, e o segundo pelo próprio presidente Augusto Melo.
Para o grupo que apoia Melo, a mudança de interpretação de Tuma é motivada pelo interesse do presidente do Conselho em alçar um apoiador à presidência da diretoria no lugar de Augusto.
– O que eles estão fazendo é exatamente isso: dar um golpe para colocar um candidato deles na minha cadeira. Tem um candidato deles, que eles estão trabalhando, o clube todo sabe. Pergunta no clube? Ele (Tuma) está trabalhando para isso – disse Augusto há duas semanas, na zona mista do Morumbis, após derrota do Timão para o São Paulo.
Ainda que o presidente da diretoria não tenha dito o nome do suposto candidato apoiado por Romeu Tuma Júnior e os seus pares, cogita-se nos bastidores do Corinthians a possibilidade de que seja Osmar Stábile, vice-presidente e primeiro na linha sucessória em caso de afastamento e destituição de Augusto Melo.

Augusto evitou fazer insinuações, mas deixou claro que não coloca a mão no fogo pelos seus vices.
– Eu não boto a minha mão no fogo por ninguém. Uma coisa eu sei: esses caras nunca tiveram ou foram nada no Corinthians. Quem colocou eles de protagonistas fui eu. E eles estão traindo a minha confiança. Mostra alguma coisa de errado? Se tivesse algo, eu seria o primeiro a entregar o meu cargo e ir embora. Tudo o que estou fazendo é pelo bem do Corinthians. Mas tudo tem um limite e não dá mais. Chegou a um limite que esses caras precisam parar. Eles não estão atrapalhando o Augusto Melo, estão atrapalhando a instituição Corinthians, que é um gigante – desabafou o dirigente.
Em nota oficial enviada à imprensa no dia 29 de janeiro, Romeu Tuma Júnior rebateu as acusações de imparcialidade movidas por Augusto Melo e apoiadores.
– Como tenho repetidamente afirmado, meu compromisso é unicamente com o Corinthians. Enquanto desempenhar a função de Presidente do Conselho seguirei sendo imparcial, defendendo única e exclusivamente os interesses do clube, seguindo rigorosamente seu estatuto. As críticas ou até mesmo acusações infundadas são esperadas e até naturais de quem se sente contrariado, já estou acostumado. Todas elas serão tratadas no momento oportuno e no foro adequado – disse Tuma.
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Abaixo assinado deve ser usado de forma estratégica
Embora o abaixo assinado promovido pelos apoiadores de Augusto Melo não tenha efeito prático para afastar Romeu Tuma Júnior, a ideia é usá-lo de forma estratégica.
A reportagem teve acesso a trechos do segundo pedido de destituição do presidente do Conselho, assinado por Augusto Melo, que não se embasa efetivamente em artigos do Estatuto Social.
No entanto, conforme apurado pela Trivela, o grupo partidário ao presidente da diretoria corintiana trabalha em cima do parágrafo único do artigo 30, que diz o seguinte:
– Nas hipóteses em que cabível pena de desligamento, o associado poderá ser liminarmente suspenso pela Comissão de Ética e Disciplina até que se conclua o respectivo procedimento de apuração e julgamento de infração a ele atribuída.
Além disso, também se escora à parte do artigo 31, que afirma que “as propostas de aplicação de penalidades poderão ser apresentadas por qualquer associado à Comissão de Ética e Disciplina”.
Portanto, a ideia da situação com o recolhimento das assinaturas é conferir materialidade às alegações de que Romeu Tuma Júnior age de forma parcial na liderança do Conselho Deliberativo e, assim, conseguir a retirada dele da função através de algum mecanismo jurídico.
Porém, a esses artigos competem a exclusão do quadro associativo. Como Tuma faz parte do Conselho, qualquer movimento para que ele seja retirado da função que exerce atualmente teria que passar pela Comissão de Ética e Disciplina e ser levado para deliberação entre os conselheiros.



