Brasil

A mudança da CBF sobre as redes multiclubes no futebol brasileiro

Regulamento de Manual de Competições da entidade visa coibir influência de um mesmo dono sobre dois ou mais clubes de uma mesma competição

O novo Manual de Competições da CBF, que substitui o “Regulamento Geral de Competições (RGC)” para 2026, trouxe diversas novidades para a administração do futebol e dos clubes brasileiros a partir desta temporada. Divulgado na noite desta terça-feira (27), o documento detalha também diretrizes relacionadas às redes multiclubes no Brasil.

Conceito já comum fora do Brasil, a rede de multiclubes consiste em um mesmo proprietário com controle sobre diversas equipes do mundo. É o caso da Eagle Holding, que tem John Textor como dono e detém participação sobre Botafogo, Lyon e Crystal Palace, e do City Football Group, controlador do Manchester City, Bahia, entre outros.

O novo Manual de Competições, entretanto, estabelece limites para uma rede multiclubes no futebol brasileiro. Com base na redação da regra da Uefa e aquela já presente no Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira do futebol brasileiro, as diretrizes constam no artigo 2.2.1, “Da Vedação à Multipropriedade de Clubes”.

John Textor controla o Botafogo (Foto: Imago)

A partir de 2026, as regras serão aplicadas aos clubes das Séries A, B e C do futebol brasileiro. A CBF, junto com a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF), atuará para identificar eventuais infrações. Como regra geral, é vedado:

  • Que qualquer pessoa, física ou jurídica, detenha, direta ou indiretamente, controle ou influência significativa sobre mais de um clube, caso ambos, na mesma temporada:
    • Sejam participantes ou elegíveis para disputar a mesma edição de qualquer competição profissional organizada pela CBF;
    • Ou participem de divisões do Campeonato Brasileiro que possuam relação direta de acesso e rebaixamento entre si.

“Influência significativa”, termo citado no Manual de Competições da CBF, corresponde àqueles que, em linha geral, tenham “capacidade de dirigir políticas financeiras ou operacionais” em seus respectivos clubes. Influência de cônjuges e familiares também serão considerados para fins de apuração.

Na prática, isso impede que dois clubes, que disputarão o mesmo campeonato, tenham um mesmo dono. Isso ocorreu nesta temporada com Crystal Palace e Nottingham Forest, da Eagle, que disputariam a Europa League. A equipe inglesa, no entanto, foi “rebaixada” para a Conference League, e a vaga repassada para o Nottingham Forest.

Crystal Palace ficou fora da Europa League por regulamento da Uefa (Foto: Imago)

O regulamento visa, portanto, evitar esse “efeito John Textor” no futebol brasileiro. O empresário foi afastado do comando da Eagle nesta quarta-feira, mas ainda detém o controle sobre a SAF do Botafogo. Eventuais infrações, com relação aos itens presentes no Manual, poderão resultar em sanções administrativas e esportivas.

O mesmo cenário da Europa League, por exemplo, pode ocorrer no futebol brasileiro. Se dois ou mais clubes forem controlados por uma mesma holding, ou tiverem um mesmo dono exercendo influência direta sobre a administração, apenas um destes poderá ser admitido na competição. Caberá à Diretoria de Competições da CBF (DCO) definir, com base em critérios técnicos, qual será a equipe admitida neste cenário.

Rede multiclubes ainda pode existir no Brasil

A regra, no entanto, não impede que clubes brasileiros façam parte de uma multipropriedade — como Bahia, que pertence ao City Football Group — ou que sejam criadas novas redes multiclubes no Brasil. Ainda que, em sua maioria, estas redes sejam dominadas por fundos do exterior, há operações semelhantes por proprietários brasileiros.

Guilherme Bellintani, ex-presidente do Bahia, dono da primeira rede multiclubes do Brasil
Guilherme Bellintani, ex-presidente do Bahia, dono da primeira rede multiclubes do Brasil (Foto: Imago)

É o caso da Squadra Sports, fundada em 2024, e que conta com cinco clubes em seu portfólio: Londrina (por meio da Sociedade Anônima do Futebol, SAF), atual vice-campeão da Série C, Linense (via Sociedade Anônima comum, S.A.), o time de base VF4-PB e administra as categorias inferiores de Ypiranga-BA e Conquista-BA.

Guilherme Bellintani, ex-presidente do Bahia e responsável por selar o acordo com o Manchester City no passado, foi o fundador desta rede multiclubes. Além de equipes profissionais (casos de Londrina e Linense), a Squadra tem participação exclusiva na formação de jogadores nos três outros clubes.

Nesse momento, não haveria um conflito de interesses, já que Londrina e Linense não estão nas mesmas competições nacionais. Entretanto, com a expansão no número de vagas da Copa do Brasil, este pode ser um problema para o futuro, caso seja mantido o regulamento no Manual de Competições da CBF.

Foto de Murillo César Alves

Murillo César AlvesRedator

Jornalista pela Universidade de São Paulo (USP), com passagens por Estadão, UOL, 90min e QuintoQuarto.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo