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‘Não existe dose segura’: Como o álcool desafia a rotina do futebol profissional

Entre a cultura da comemoração e a exigência do alto rendimento, clubes e especialistas tratam o álcool menos como indisciplina e mais como uma variável de risco para recuperação e desempenho

A relação entre futebol e álcool caminha em uma linha tênue entre tradição cultural e risco esportivo. Entre brindes após grandes vitórias, patrocínios de marcas de cerveja e uma rotina de treinos cada vez mais rigorosa, jogadores convivem diariamente com uma bebida que faz parte do imaginário do torcedor, mas que pode interferir diretamente no rendimento em campo.

O copo gelado que movimenta estádios, transmissões e campanhas publicitárias não desaparece do ambiente futebolístico — ele apenas muda de lugar, de significado e, para quem pratica o esporte em alto nível, de impacto.

Nos bastidores dos clubes, a discussão deixou de ser moral e passou a ser fisiológica. O álcool, antes tratado apenas como hábito social, hoje é analisado como uma variável que interfere na recuperação, na composição corporal e na qualidade do sono.

Em um calendário apertado, com jogos separados por poucas horas, cada detalhe pesa. Por isso, profissionais de saúde buscam orientar atletas não só sobre se devem beber, mas como lidar com o consumo sem comprometer desempenho e continuidade física ao longo da temporada.

É nesse cenário que nutricionistas e fisiologistas, figuras centrais do dia a dia profissional, ajudam a responder uma pergunta inevitável no futebol moderno: qual é, afinal, o lugar do álcool na rotina de um jogador profissional?

Garrafas de cerveja em frente à Allianz Arena
Garrafas de cerveja em frente à Allianz Arena (Foto: Imago)

A cultura da cerveja, as regras dos clubes e a rotina de alto rendimento

No ambiente do futebol profissional, o consumo de álcool raramente é abordado como um tema isolado. Ele atravessa aspectos culturais, sociais e até institucionais do esporte, convivendo com uma rotina marcada por controle alimentar, monitoramento físico e metas de desempenho. Na visão de João Sá, nutricionista do Novorizontino — com passagens por Náutico e Sport —, qualquer abordagem que ignore essa complexidade tende a falhar.

— A bebida alcoólica está dentro dessa questão cultural e de socialização. A nutrição não é só macro e micronutriente, caloria, carboidrato, proteína e gordura. A gente também precisa trazer a questão cultural e a questão afetiva — afirmou em entrevista à reportagem.

Nos clubes, isso se traduz em uma tentativa de deslocar o debate do campo moral para o campo prático. O álcool não é tratado como símbolo automático de indisciplina, mas como um fator de risco que precisa ser gerenciado dentro de um ambiente de alto rendimento. Segundo João, a estratégia mais eficaz tem sido a orientação contínua, não a proibição formal.

— O ideal é chegar e conversar com os atletas, passar informação. Falar: “evita um pouquinho isso aqui, diminui um pouco isso aqui, não vai tanto nisso”. É muito mais orientação do que proibição.

Essa postura se materializa em práticas internas que nem sempre aparecem ao torcedor, mas fazem parte do cotidiano dos departamentos de saúde. Em um ambiente em que alimentação, sono, hidratação e composição corporal são acompanhados de perto, o consumo de álcool passa a integrar o conjunto de variáveis monitoradas. Não por meio de vigilância ostensiva; e sim por parâmetros claros e compartilhados.

— Nos dois clubes (Sport e Náutico), eu cheguei a montar, junto com outros nutricionistas, uma cartilha de recomendações para os atletas. Nessa cartilha, a gente falava um pouco sobre o consumo de bebida alcoólica. É algo interessante e que, na minha opinião, deveria existir nos clubes: um trabalho contínuo de orientação e cuidado com o consumo de bebida alcoólica no futebol profissional.

Kaio Jorge se hidrata durante jogo do Cruzeiro
Kaio Jorge se hidrata durante jogo do Cruzeiro (Foto: Imago)

Jogadores reagem de maneira diferente ao álcool?

Tal lógica de orientação contínua também parte do entendimento de que o álcool não afeta todos os jogadores da mesma maneira. Em um elenco profissional, diferenças de composição corporal, função em campo e demanda física fazem com que a mesma escolha tenha impactos distintos sobre recuperação, força e desempenho.

É nesse ponto que a fisiologia ajuda a transformar recomendações gerais em decisões individualizadas — e onde o debate deixa de ser apenas cultural ou institucional para se tornar biológico.

Para o professor Diego Leite de Barros, especialista em fisiologia do exercício e diretor e fundador da DLB Assessoria Esportiva, não há dúvida de que o organismo responde de maneira desigual ao consumo de álcool — e que essas diferenças têm implicações diretas no rendimento em campo, especialmente em um esporte de alta intensidade como o futebol.

— Há estudos que demonstram um efeito bastante negativo do consumo de álcool em pessoas que buscam ganho de massa muscular. O processo de síntese proteica é prejudicado, especialmente nas fibras do tipo 2, que são as fibras de explosão e força. Isso está bem documentado na literatura científica e mostra uma associação clara entre consumo frequente de álcool, dificuldade de ganho de massa muscular e até perda dessa massa — disse Diego em entrevista à Trivela.

A observação é central para entender por que o tema preocupa tanto os departamentos de performance. O futebol exige repetidamente ações curtas e explosivas (arrancadas, saltos, disputas físicas) que dependem justamente dessas fibras musculares mais sensíveis aos efeitos do álcool.

— No futebol, isso é particularmente relevante, porque é um esporte de alta intensidade, que exige muito dessas fibras musculares explosivas. Um jogador que consome álcool com frequência tende a ter mais dificuldade no trabalho de preparação física, principalmente no ganho de força e potência.

Além do tipo de fibra muscular, o especialista destaca que a composição corporal altera a forma como o álcool age no organismo, o que ajuda a explicar por que a mesma dose pode ter impactos muito distintos dentro de um mesmo elenco.

— Quanto maior a massa corporal, menor tende a ser o efeito do álcool para uma mesma quantidade ingerida. Uma pessoa de 100 quilos, por exemplo, reagirá de forma diferente a uma dose de álcool em comparação a alguém de 60 quilos. A quantidade de massa muscular também interfere: quanto mais músculo, mais lenta tende a ser a ação do álcool no organismo; quanto menos massa muscular, mais rápida e intensa tende a ser essa ação.

Hulk celebra gol pelo Atlético-MG com sua tradicional comemoração “Hulk Esmaga”
Hulk celebra gol pelo Atlético-MG com sua tradicional comemoração “Hulk Esmaga” (Foto: Imago)

Quando o debate avança para idade ou estilo de jogo, o cenário se torna menos linear, mas não menos relevante. Diego pondera que essas variáveis são mais difíceis de isolar, embora exista uma tendência clara ligada às exigências físicas da função exercida em campo.

— A relação com idade ou estilo de jogo já é mais complexa e difícil de estabelecer de forma direta. No entanto, jogadores com funções mais explosivas e com maior demanda física, de modo geral, tendem a sentir mais os efeitos negativos do álcool no desempenho.

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O que o álcool faz no corpo do atleta: metabolismo, dieta e recuperação

Se do ponto de vista fisiológico, o álcool interfere em processos como síntese proteica e ganho de força, na nutrição a discussão passa por outro filtro: calorias, teor alcoólico e impacto metabólico. A pergunta que surge com frequência nos clubes é se existe alguma bebida “menos prejudicial” — cerveja, vinho ou destilados — quando o consumo acontece de forma pontual. João frisa que a resposta exige cautela e franqueza.

— Quando a gente fala de álcool, independentemente de qual seja, ele vai ser prejudicial. Não existe dose segura de álcool. O que existe é uma dosagem considerada menos prejudicial, e mesmo assim é uma dosagem baixa. Cada bebida vai ter a sua dosagem.

O nutricionista explica que a diferença entre cerveja, vinho e destilados não está em uma suposta vantagem nutricional, mas na quantidade que as pessoas costumam consumir — e no quanto isso foge do controle no contexto social.

A cerveja, por exemplo, seria no máximo duas por dia, e dificilmente alguém toma só duas latas. O vinho gira em torno de uma taça de 140 ml, mas, na prática, quem abre uma garrafa dificilmente fica só nisso. Já os destilados, como whisky ou vodka, têm uma dosagem menor, em torno de 60 ml, por causa do teor alcoólico mais alto.

Apesar dessas diferenças, ele reforça que não existe uma escolha “melhor” para o atleta.

Nutricionalmente falando, não tem uma bebida que seja melhor do que a outra. A melhor acaba sendo aquela que o cara bebe menos. No geral, todas não são tão interessantes para o atleta.

Atacante da Juventus, Cristiana Girelli serve vinho espumante na boca de Pauline Peyraud-Magnin, goleira da equipe
Atacante da Juventus, Cristiana Girelli serve vinho espumante na boca de Pauline Peyraud-Magnin, goleira da equipe (Foto: Imago)

Se a comparação entre bebidas ajuda a dimensionar quantidade e contexto, o impacto do álcool vai além do copo e se estende a toda a lógica de planejamento alimentar ao longo da semana. O consumo desorganiza o sono, a recuperação e até o comportamento alimentar do atleta — efeitos que se acumulam em um calendário apertado.

O álcool atrapalha em tudo. Ele mexe com o sono, com a irritabilidade e com a sensação geral do corpo. Há aumento de dopamina, o que reforça a vontade de consumir mais álcool, e também de adrenalina e cortisol, que afetam negativamente praticamente todos os processos de recuperação.

De acordo com o nutricionista, esse efeito se manifesta de forma clara no pós-jogo, momento crítico para reposição energética e recuperação muscular. E a interferência não se limita ao campo metabólico. Invade o comportamental.

— O álcool pode ter relação com episódios de hipoglicemia, algo que a gente observa principalmente depois de jogos. Após uma uma vitória, muitos atletas querem beber alguma coisa, mas isso vai afetar a recuperação muscular, a saciedade e também a escolha alimentar. Quando a gente está consumindo álcool, naturalmente vai buscar alimentos mais hiperpalatáveis, mais gordurosos e ricos em carboidrato. O álcool acaba puxando esse consumo maior de calorias.

Como o álcool influencia o processo de recuperação muscular e o reparo de microlesões?

No campo da recuperação muscular, o impacto do álcool deixa de ser abstrato e passa a atingir mecanismos centrais do rendimento esportivo. Não se trata de sentir-se mais cansado no dia seguinte, mas de interferir em processos fisiológicos que sustentam a integridade muscular ao longo de uma temporada longa e exigente.

O fisiologista Diego Leite aponta que um dos primeiros efeitos do consumo de álcool após treinos ou jogos está no equilíbrio hídrico e eletrolítico do organismo. Em um esporte marcado por elevada perda de suor, essa interferência pesa diretamente sobre a capacidade de recuperação.

— O consumo de álcool provoca um desequilíbrio de eletrólitos, principalmente sódio e potássio, que são perdidos no suor e precisam ser repostos durante e após a atividade. Esse desequilíbrio favorece a desidratação e acaba impactando negativamente a performance. O atleta passa a apresentar fadiga muscular mais precoce, piora da coordenação motora e uma série de alterações que aumentam o risco de lesão muscular.

Arrascaeta se queixa de dores durante jogo do Flamengo
Arrascaeta se queixa de dores durante jogo do Flamengo (Foto: Imago)

O problema se amplia porque a recuperação muscular não depende só de nutrientes e descanso, mas também da eficiência da resposta neuromuscular. Diego detalha que o álcool interfere diretamente no sistema nervoso central, responsável por organizar comandos motores e ajustar movimentos finos — um ponto sensível em um esporte de alta exigência técnica e física.

— O grande problema está na combinação de fatores como fadiga precoce, desidratação e perda de coordenação motora. O álcool interfere no sistema nervoso central, que é responsável pelo comando das informações e pela tomada de decisões motoras. À medida que o consumo de álcool afeta esse centro de comando, surgem repercussões claras na execução dos movimentos e na tomada de decisão.

Há ainda um componente ambiental que intensifica os riscos, especialmente em contextos frequentes no futebol brasileiro. O fisiologista chama atenção para o efeito do álcool sobre a capacidade do corpo de regular a própria temperatura, fator decisivo em partidas disputadas sob calor intenso.

— Outro ponto importante, especialmente em períodos de calor intenso ou em jogos realizados em horários mais quentes, é o impacto do álcool sobre a termorregulação. Ele prejudica esse controle, aumenta a desidratação e torna a prática esportiva ainda mais perigosa do ponto de vista da saúde.

Na prática, essa combinação se traduz em queda objetiva de desempenho e maior exposição a erros e lesões. Não aparece como desconforto pontual, mas como comprometimento real da execução em campo.

— O resultado prático disso em campo é perda de reflexos, pior coordenação motora, decisões erradas e queda acentuada de desempenho. Basta imaginar alguém alcoolizado jogando futebol para dimensionar o tamanho desse impacto.

Quando beber “pesa menos”: o timing entre treinos, jogos e descanso

Falar em álcool no futebol de alto rendimento não passa pela busca de um “momento ideal”, porque ele simplesmente não existe. O que departamentos de saúde e performance tentam definir é o cenário de menor impacto possível dentro de uma rotina marcada por treinos intensos, jogos frequentes e recuperação acelerada.

Para João Sá, esse ponto de partida precisa ser realista: embora a orientação técnica seja evitar o consumo, o álcool ainda aparece de forma espontânea na vida de parte dos atletas.

Na prática, o consumo tende a se concentrar em momentos específicos da semana competitiva, sobretudo depois das partidas. O pós-jogo, especialmente em caso de vitória, surge como o contexto mais frequente, ainda que as motivações variem entre celebração, alívio emocional e tentativa de aliviar a pressão do ambiente competitivo.

— O que a gente acaba vendo com mais frequência é o consumo pós-jogo, e mais ainda no pós-vitória. Existe essa relação emocional com o resultado. Na vitória, é natural que o jogador queira comemorar. Na derrota, a irritação e a frustração também podem levar ao consumo, algo que envolve inclusive aspectos psicológicos.

É a partir desse cenário que a noção de “menos impacto” começa a ser delimitada. João ressalta que, caso o consumo aconteça, ele tende a causar menos prejuízo depois da partida — desde que etapas básicas do processo de recuperação já tenham sido respeitadas.

— Se a gente for falar de “menos impacto”, seria no pós-jogo. Mas isso depois de o atleta já ter feito uma boa refeição e já ter iniciado a reidratação. Além disso, é fundamental olhar para o calendário e para o intervalo até o próximo jogo.

Harry Kane com um copo de cerveja na mão após título da Bundesliga com o Bayern
Harry Kane com um copo de cerveja na mão após título da Bundesliga com o Bayern (Foto: Imago)

O risco aumenta de forma significativa em semanas de jogos muito próximos. Com intervalos curtos entre uma partida e outra, o álcool deixa de ser um detalhe social e passa a atrasar fases importantes da recuperação fisiológica, algo observado de maneira recorrente no acompanhamento diário dos atletas.

— Quando o jogador atua no domingo e já tem outro jogo na quarta-feira, a conversa precisa ser direta. O álcool vai prejudicar a recuperação. A gente observa que, quando eles consomem bebida alcoólica no pós-jogo, um ou dois dias depois ainda estão em processo de recuperação. Sem o consumo, esse processo estaria mais avançado.

Do ponto de vista da preparação para o jogo seguinte, os efeitos não se restringem à fadiga muscular. Diego reforça a interferência do álcool no sistema nervoso central, capaz de comprometer aspectos decisivos do desempenho mesmo após o efeito direto da bebida.

Essa interferência (no sistema nervoso) afeta a tomada de decisões, a coordenação motora e o tempo de reação. Muitas vezes se usa o termo “reflexo”, mas tecnicamente o reflexo é uma resposta involuntária, como piscar os olhos. Já uma ação esportiva, como a defesa de um goleiro, é um movimento voluntário, que envolve percepção, cálculo de tempo e espaço e execução motora. Isso é tempo de reação, não reflexo.

Tal alteração não depende de o atleta estar visivelmente alcoolizado. Segundo Diego, a qualidade da leitura de jogo e da execução técnica pode ser afetada horas depois, criando um risco silencioso em um esporte que exige decisões rápidas e movimentos precisos.

— Mesmo quando o atleta já não está sob o efeito imediato da bebida, essa interferência pode comprometer a qualidade das decisões e da execução motora, o que impacta diretamente o rendimento em campo.

No fim, o debate sobre timing não aponta para liberação, mas para gestão de risco. Entre jogos, treinos e descanso, o álcool encontra menos resistência no pós-jogo, mas nunca deixa de cobrar um preço, sobretudo em um calendário que oferece cada vez menos margem para recuperação plena.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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