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‘Relação azeda e sem reciprocidade’: O amargo término de Lucas Paquetá com o West Ham

Entre apoio incondicional, desgaste emocional e interesses conflitantes, a saída do brasileiro expôs feridas que já não tinham como cicatrizar

O comunicado do West Ham anunciando a liberação de Lucas Paquetá para retornar ao Flamengo disse muito acerca da relação com o jogador, sobretudo pelo que não falou explicitamente. O clube agradeceu dirigentes, funcionários e torcedores pelo “apoio inabalável” ao jogador durante seus anos em Londres, especialmente no período em que enfrentou a longa investigação da Federação Inglesa por apostas.

Mas não houve uma linha sequer de agradecimento direto ao próprio Paquetá.

O silêncio não passou despercebido. Era o retrato de uma relação que, nos bastidores, já vinha se deteriorando. Para o West Ham, havia a sensação de que o respaldo dado ao brasileiro durante dois anos difíceis não foi retribuído quando o time mais precisou. Para Paquetá, o custo emocional de permanecer era alto demais. Ao se despedir, ele foi direto ao ponto: voltar ao Brasil era uma forma de “recuperar sua paz”.

O fim dessa parceria, que começou com grande sucesso, deixou um gosto amargo para os dois lados. E, segundo informações divulgadas pelo site inglês “The Athletic”, a ruptura não aconteceu de uma hora para outra.

Janeiro com possível ‘corpo mole’ para transferência ao Flamengo

O estopim veio em janeiro. Na derrota para o Nottingham Forest, Paquetá sentiu um espasmo nas costas e deixou o campo ainda no segundo tempo. Internamente, houve divergência sobre a gravidade da lesão. Mais relevante, porém, foi o que veio depois.

De acordo com pessoas do clube ouvidas pelo “The Athletic”, o meia comunicou a Nuno Espírito Santo que não estava bem mentalmente para jogar. A investigação da FA, encerrada apenas em julho de 2025, com absolvição, ainda pesava. O desejo de voltar ao Flamengo, onde havia sido formado e vivido seus primeiros grandes momentos, tornava-se cada vez mais urgente.

Lucas Paquetá em jogo do West Ham
Lucas Paquetá em jogo do West Ham (Foto: Imago)

Quando o West Ham recusou a primeira proposta de 35 milhões de euros, Paquetá pediu para não atuar na FA Cup contra o Queens Park Rangers. A partir dali, passou a treinar separado do elenco.

O clube, lutando na parte de baixo da Premier League e com contrato válido até 2027, resistia. Avaliava o jogador em 60 milhões de euros e temia enfraquecer ainda mais o time.

A pressão externa, porém, crescia. Até Vinicius Junior, amigo próximo desde os tempos de Flamengo, falou publicamente. “Quero que ele seja feliz. A felicidade dele é a minha, e a felicidade do Flamengo é a nossa”, disse à “TNT Sports”.

Mesmo com Nuno tentando convencê-lo a ficar até o fim da temporada, e com a diretoria sugerindo uma venda seguida de empréstimo, Paquetá foi inflexível. O Flamengo queria o retorno imediato. E, ironicamente, uma breve sequência positiva do West Ham em campo ajudou a destravar o acordo.

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Comunicado frio e ‘sem reciprocidade’ de Paquetá

A proposta final, aceita por 42 milhões de euros, veio acompanhada de uma cláusula de revenda elevada, mirando um possível interesse futuro do futebol saudita. Ao liberar Paquetá para viajar ao Brasil, o West Ham publicou um novo comunicado, desta vez mais explícito sobre o desgaste.

Apesar de o clube ter feito todo o possível para persuadir Lucas a ficar, ele permaneceu irredutível em seu desejo de sair”, dizia a nota. A palavra “relutantemente” resumiu o tom. Nuno, por sua vez, adotou postura mais humana:

“Lucas foi claro que queria ir para casa. Você segue em frente, sabendo que ele é uma pessoa e um jogador especial. Não se substitui Lucas, porque ele é único.”

A resposta de Paquetá veio em forma de vídeo, direto e carregado de emoção. Nele, inclusive, reforçou que rejeitou ofertas de rivais, pois queria apenas “voltar para casa”:

“Nunca pedi para sair. Pedi para voltar para casa. Preciso disso pela minha saúde mental, pela minha esposa e pelos meus filhos. Preciso reencontrar a alegria no futebol e recuperar minha paz.”

Foi um contraponto forte ao distanciamento institucional do clube e deixou claro que, para ele, a decisão não era esportiva, mas pessoal.

O peso de tudo o que ficou no West Ham

O desgaste ajuda a explicar por que um jogador tão identificado com o West Ham terminou sua passagem sob vaias e desconfiança. Nos últimos meses, expulsões, atuações irregulares e sinais claros de sofrimento emocional minaram a paciência da torcida. Mesmo assim, dentro do vestiário, o apoio nunca cessou.

Companheiros como Jarrod Bowen, Edson Álvarez e Michail Antonio sempre destacaram sua importância. Moyes, que o treinou no auge, aceitava suas “tendências rebeldes” porque sabia o quanto Paquetá decidia jogos. “Ele me deixa louco às vezes”, disse certa vez. “Mas tem um talento incrível.”

E os números sustentam isso. Desde que chegou do Lyon em 2022, Paquetá foi peça-chave no título da Conference League, somou gols, assistências e quase protagonizou uma transferência para o Manchester City, frustrada justamente pela investigação que marcou seus anos finais no clube.

No fim, talvez a frase mais honesta sobre tudo tenha vindo do próprio jogador em seu comunicado de despedida nas redes sociais: algumas batalhas não eram mais dele.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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