Como a imagem de Paquetá com a torcida do West Ham é mais complexa do que parece
Entre assistência histórica, investigação por apostas e tentativa de saída em momentos delicados, brasileiro deve deixar Londres longe do status de ídolo
Caso o retorno para o Flamengo se confirme, Lucas Paquetá deixa o West Ham com uma imagem marcada por contrastes — de herói histórico a personagem envolto em dúvidas e desgaste recente.
Contratado em 2022, o meia brasileiro foi peça central na maior conquista da era moderna do clube, ao dar a assistência para o gol do título da Conference League de 2023, troféu que encerrou um jejum de mais de quatro décadas sem conquistas relevantes.
Naquele momento, consolidava-se como símbolo de um West Ham competitivo no cenário europeu e como um dos jogadores mais valorizados da Premier League em sua posição. O cenário, porém, mudou de forma abrupta nos meses seguintes.
A negociação quase concretizada com o Manchester City — que o colocaria em um patamar ainda mais alto do futebol europeu — acabou travada por uma grave acusação de envolvimento em manipulação de apostas esportivas.
Mesmo sob investigação, Paquetá recebeu respaldo público do West Ham, que manteve confiança no jogador. Dentro de campo, entretanto, seu rendimento caiu e as críticas da torcida e da imprensa inglesa se intensificaram, transformando sua passagem final pelos Hammers em um período de tensão e incerteza.
Agora, a provável saída de Paquetá do futebol inglês provoca leituras distintas em Londres. Para parte do ambiente do West Ham, ele seguirá associado a um dos capítulos mais gloriosos da história recente do clube. Para outros — a maioria —, sua despedida também reflete um ciclo que se desgastou, tanto pelo contexto extracampo quanto pela queda de protagonismo esportivo.
É nesse equilíbrio entre legado, frustração e expectativa não cumprida que se constrói a imagem deixada pelo brasileiro no oeste de Londres.

Como a torcida do West Ham enxerga Paquetá hoje?
A percepção da torcida do West Ham sobre Lucas Paquetá, como citado, é marcada por ambivalência. Segundo Damien Lucas, editor sênior do site “Hammers News”, não há um sentimento dominante de rejeição absoluta, mas sim de frustração acumulada ao longo de um processo que se arrastou dentro e fora de campo.
— Eu diria que Paquetá não será odiado pelos adeptos do West Ham, mas definitivamente manchou o seu nome com muitos deles ao pressionar para deixar a equipe quando estamos no meio de uma batalha contra o rebaixamento — disse Damien em contato com a reportagem.
Para parte dos torcedores, o incômodo maior não está somente nas acusações que o cercaram, mas na postura adotada em momentos sensíveis da trajetória recente do clube. Ao mesmo tempo, o legado esportivo de Paquetá impede que sua imagem seja reduzida apenas ao desgaste final. E há um feito impossível de ser apagado da memória coletiva.
— Ele sempre será lembrado com carinho por ter dado o passe que nos rendeu o nosso único troféu importante nos últimos 46 anos.

A assistência na final da Conference League 2022/23 permanece como um marco histórico, capaz de garantir ao brasileiro um lugar permanente na narrativa vitoriosa do clube. Ainda assim, a avaliação mais recorrente na arquibancada passa pela sensação de rendimento aquém do esperado.
Esse sentimento se intensificou porque, na visão de boa parte da torcida, a permanência de Paquetá passou a simbolizar uma chance clara desperdiçada de recomeço. O acordo encaminhado com o Manchester City em 2023, estimado em cerca de 80 milhões de libras, era entendido pelos adeptos como o passo necessário para fechar um ciclo e viabilizar a chegada de Cole Palmer, então jogador do City, como substituto direto do brasileiro.
A negociação, porém, ruiu após o avanço da investigação da Federação Inglesa (FA) sobre apostas esportivas envolvendo Paquetá, o que travou sua saída e fez o West Ham perder também a possibilidade de contratar Palmer — que pouco depois acabaria assinando com o Chelsea.
— Muitos torcedores há muito tempo acham que Paquetá deveria ser vendido, pois tem sido extremamente inconsistente. A maioria dos torcedores do Hammers ainda lamenta o fracasso da venda por 80 milhões de libras ao Manchester City, que teria levado o clube a contratar Cole Palmer como seu substituto.
— Palmer foi para o Chelsea e o West Ham ficou preso com um jogador (Paquetá) cuja cabeça simplesmente não estava no jogo.
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Como Paquetá ‘manchou’ a própria imagem?

Na leitura de Damien, o desgaste definitivo da imagem de Lucas Paquetá entre os torcedores do West Ham vai além das acusações que o cercaram. Está ligado, sobretudo, à forma como o brasileiro se comportou após receber apoio irrestrito do clube e da arquibancada.
Para muitos torcedores, houve a sensação de que a confiança foi unilateral.
A acusação que mudou o curso de sua passagem veio a público em maio de 2024, quando a FA denunciou Paquetá por má conduta relacionada a apostas esportivas. Segundo o processo, o meia teria forçado cartões amarelos em quatro partidas da Premier League, disputadas entre novembro de 2022 e agosto de 2023, com o objetivo de influenciar mercados de apostas.
Embora o caso ainda estivesse em andamento, a gravidade da denúncia ampliou a pressão em torno do jogador e passou a moldar a forma como sua postura e suas decisões passaram a ser interpretadas pela torcida.
— O West Ham e os torcedores do clube apoiaram totalmente Paquetá durante os seus dois anos de provação com o caso de manipulação de resultados, mas em vez de retribuir essa confiança e apoio, ele tentou sair no verão e agora está pressionando para sair novamente — afirma Damien.
Esse movimento, em meio a um contexto esportivo delicado, foi interpretado como falta de compromisso com o momento do time. O contraste entre expectativa e entrega também pesa decisivamente nessa avaliação. Damien ressalta que, em teoria, Paquetá reunia todas as condições para se tornar um nome histórico no clube, tanto pelo perfil técnico quanto pelo impacto inicial.
— No papel, Paquetá deveria ser o jogador perfeito para o West Ham e alguém que poderia facilmente ter se tornado uma lenda do clube.
No entanto, a irregularidade em campo e a incapacidade de sustentar protagonismo ao longo do tempo impediram que essa projeção se materializasse. Por isso, a conclusão que emerge entre os torcedores é menos passional do que pragmática. Não há sentimento de ódio, mas tampouco a construção de um legado duradouro além do título continental.
— Ele nunca será odiado, mas a realidade é que o seu desempenho e a maneira como está saindo significam que provavelmente será esquecido rapidamente.


