Brasil

Osasco Audax: Da final histórica em 2016 à luta por sobrevivência no Paulistão

Como o clube que encantou o Brasil em 2016 se perdeu no caminho e tenta se reconstruir pela base

— O ano de 2016 do Osasco Audax foi mágico. Se você for ver, éramos um clube pequeno que ficou conhecido no Brasil inteiro pelo jeito de jogar no Paulistão. Hoje é comum ver goleiros atuando com os pés, mas naquela época não era. Talvez tenhamos sido uma das primeiras equipes em que o goleiro participava da construção e os jogadores não tinham posições fixas. Acreditamos que aquele time teve uma contribuição importante para a evolução do futebol brasileiro — conta à Trivela Gustavo Teixeira, filho e braço direito de Mário Teixeira, proprietário do clube.

O Osasco Audax viveu seu auge há uma década quando a equipe da Grande São Paulo desafiou clubes tradicionais, chamou atenção pelo estilo de jogo e alcançou a final do Campeonato Paulista sem pedir licença para sonhar.

Dez anos depois, porém, o cenário é bem diferente: distante dos holofotes, o clube disputa atualmente a quinta divisão do Estadual e convive com problemas estruturais, tendo como principal lembrança o vice-campeonato diante do Santos.

Aquela campanha projetou o nome de Osasco ao nível nacional e criou expectativas de continuidade nos anos seguintes. O desempenho, no entanto, não se sustentou. Já em 2017, o Audax foi rebaixado para a Série A2 do Paulistão.

As quedas se sucederam ao longo das temporadas, culminando no rebaixamento para a quinta divisão em 2025. Hoje, o clube enfrenta dificuldades dentro e fora de campo e tenta se reorganizar para iniciar um processo de reconstrução e sonhar, novamente, com o retorno à elite do futebol paulista.

Welington, do Audax, comemora gol pelo clube
Welington, do Audax, comemora gol pelo clube. Foto: Gazeta Press

Campanha de 2016 marca história do Audax

A história do auge do Osasco Audax não começou em 2016. Três anos antes, em 2013, o clube passava por uma reestruturação que mudaria seus rumos. A equipe foi adquirida pela família Teixeira, com Mário Teixeira assumindo a gestão e dando início a um processo silencioso de organização administrativa e esportiva. Não houve resultados imediatos. O caminho foi de ajustes, erros e aprendizados até que, aos poucos, o projeto ganhasse forma.

Em 2016, tudo parecia finalmente encaixado. O Audax havia encontrado um equilíbrio raro para um clube de menor investimento: estrutura funcional, elenco comprometido e um treinador capaz de potencializar ideias e jogadores. O resultado foi uma campanha histórica no Campeonato Paulista, que colocou a equipe de Osasco no centro das atenções e a levou, sem pedir licença, à final do Estadual.

— A equipe de 2016 tinha muitos atletas acima da média. O seu Mário conseguiu montar um time forte junto com o treinador, que era o Fernando Diniz. Foi um trabalho excelente. A categoria de base também ajudou muito — relembra Audir Ferreira da Silva, funcionário do clube desde 2011.

À frente do time estava Fernando Diniz, então um técnico em ascensão, conhecido por ideias ousadas e por desafiar conceitos tradicionais do futebol brasileiro. Anos depois, ele passaria pela seleção brasileira e conquistaria a Libertadores de 2023 com o Fluminense. Em Osasco, porém, ainda construía sua identidade.

— O Diniz sempre buscou inovar. Ele trouxe uma metodologia diferente, uma nova maneira de jogar. Aquilo foi uma grande surpresa para todos nós. Tínhamos atletas de pouca expressão, mas havia uma crença muito forte no potencial deles — recorda Luciano Moraes, treinador do sub-20 do Audax em 2016.

Diniz e Tche Tche
Diniz e Tche Tche com a taça de vice campeão do Paulistão. Foto: Gazeta Press

O elenco refletia essa aposta em talentos subestimados. Jogadores que, à época, passavam longe dos holofotes e que, nos anos seguintes, se consolidariam no cenário nacional. Entre eles, Tchê Tchê, campeão da Libertadores em 2024 pelo Botafogo e atualmente no Vasco. No gol, Sidão, com passagens por São Paulo e Goiás, dividia espaço com Felipe Alves, que mais tarde seria campeão da Copa do Brasil pelo São Paulo e da Recopa Sul-Americana pelo Fluminense, além de ter se destacado pelo Fortaleza.

Camacho, que depois defenderia Botafogo, Corinthians e Santos, e Ytalo, com passagens por clubes como São Paulo, Bragantino e Bahia, também faziam parte daquele grupo que marcou época no futebol paulista.

Dentro de campo, o Audax se destacava por um estilo pouco comum no Brasil daquela época.

— O diferencial da equipe de 2016 era o toque de bola, a saída pressionada e a forma como conseguia competir contra os grandes com esse método. Mas, depois, a troca constante de pessoas, dentro e fora de campo, acabou prejudicando o clube. Muitos diretores e jogadores, inclusive da base, foram embora — avalia Kauê Ferreira, presidente da torcida organizada Máfia Osasquense.

Para a torcida, aquela campanha permanece como um ponto fora da curva e, ao mesmo tempo, como uma memória agridoce. O vice-campeonato paulista marcou uma geração de torcedores, mas também elevou expectativas que não se sustentaram nos anos seguintes.

— A campanha de 2016 marcou a minha vida como torcedor. Vivi tudo intensamente, acompanhei cada jogo. O diferencial era a identidade, a coragem e a confiança. Era um time que sabia o que queria em campo, não se intimidava e jogava com personalidade. Quem estava ali sentia que era algo diferente — lembra Gabriel Ramalho, torcedor do Audax que acompanhou de perto aquela trajetória.

Dez anos depois, distante da elite e enfrentando dificuldades estruturais, o Osasco Audax tenta sobreviver à própria memória. Entre o brilho de um passado recente e a dureza do presente, o clube carrega a lembrança de um time que, por um breve período, ousou desafiar a lógica do futebol paulista e deixou uma marca que resiste ao tempo.

Taças do Paulistão 2016
Taças do Paulistão 2016. Foto: Gazeta Press

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Mas afinal, o que aconteceu com o Osasco Audax?

O encanto, porém, durou pouco. O ano mágico de 2016 chegou ao fim e, logo depois da campanha icônica, o Osasco Audax entrou em declínio. Em 2017, a queda foi brusca. O rebaixamento para a segunda divisão do Campeonato Paulista caiu como um banho de água fria sobre um clube que, meses antes, havia aprendido a sonhar alto.

A expectativa era de continuidade. O vice-campeonato havia projetado o Audax no cenário nacional e criado a sensação de que aquele futebol poderia se sustentar por mais tempo. Havia investimento, visibilidade e, em tese, um caminho traçado. Mas o que se viu foi o oposto.

Ainda em 2017, o clube promoveu em definitivo ao time profissional Bruno Guimarães, hoje volante do Newcastle e da seleção brasileira, um dos pilares da equipe sob o comando de Carlo Ancelotti. A aposta, no entanto, foi breve. O jogador atuou por pouco tempo antes de ser negociado com o Athletico, simbolizando um projeto que não conseguiu se consolidar.

Sem repetir o sucesso de 2016, o Audax entrou em uma espécie de queda livre. O time perdeu identidade, acumulou resultados negativos e, aos poucos, foi se desfazendo. Dez anos depois do auge, o clube praticamente não tem relevância no cenário estadual e luta para se reerguer.

Segundo Gustavo Teixeira, filho e braço direito de Mário Teixeira, proprietário do clube, o fracasso não esteve ligado à falta de investimento, mas à perda de encaixe que havia sido determinante na campanha histórica.

— No ano de 2017, a folha salarial era quase o dobro daquela de 2016, quando fomos vice-campeões. Mesmo investindo mais, a equipe não deu liga. Após o Paulistão de 2016, alguns dos nossos principais jogadores saíram, e as reposições não funcionaram como esperávamos, mesmo com salários mais altos — explica.

Fernando Diniz pelo Osasco Audax
Fernando Diniz pelo Osasco Audax. Foto: Gazeta Press

O início ruim de temporada, aliado às expectativas elevadas, criou um ambiente de pressão que rapidamente contaminou o elenco.

— As expectativas eram altas, mas os resultados não vinham. No futebol, isso gera estresse, cobrança aumenta, o jogador sente. Quando você percebe, o time cai. Foi um golpe muito duro para a gente — completa.

Além das mudanças dentro de campo, o clube passou por transformações fora dele. Profissionais deixaram o projeto, novos chegaram, e a filosofia que havia sido construída ao longo de anos acabou sendo alterada. Para quem viveu o processo desde o início, esse foi um ponto-chave da ruptura.

— O Audax tinha uma metodologia pronta, construída com o tempo. As pessoas que chegaram depois vieram com a ideia de mudar tudo, e esse foi o grande problema. A gente levou anos para implantar aquela forma de trabalhar. O processo começou em 2013 e só deu resultado em 2016 — explica Luciano Moraes.

A desconstrução foi mais rápida do que a construção. O que levou três anos para amadurecer se perdeu em poucos meses. Entre decisões apressadas, mudanças de rota e a saída de peças fundamentais, o Osasco Audax viu sua história recente se dividir em dois tempos muito claros: o da ousadia que encantou o país e o da tentativa, ainda em curso, de reencontrar o próprio caminho.

Torcida Osasco Audax
Torcida do Audax antes da primeira partida contra o Santos, válida pela final do Campeonato Paulista 2016. Foto: Gazeta Press

Base como solução para o futuro do Audax?

Se o presente do time profissional inspira pouco otimismo, a base do Osasco Audax segue como um dos poucos territórios onde o clube ainda colhe frutos. Ao longo dos anos, diversos atletas formados em Osasco alcançaram projeção nacional e internacional. Agora, esse histórico pode voltar a ser a principal engrenagem para que o clube encontre um caminho de reconstrução.

— A base sempre foi uma das principais forças do Audax. O clube tem tradição em formar jogadores e competir bem nas categorias inferiores. Se esse trabalho for bem integrado ao time profissional, pode ser a principal solução esportiva e até financeira. O que falta é planejamento — avalia o torcedor Gabriel Ramalho.

A aposta, segundo a direção, deixou de ser apenas discurso e passou a orientar decisões estratégicas após as quedas de divisão. Gustavo Teixeira afirma que, diante das dificuldades recentes, o clube optou por concentrar esforços nas categorias de base, entendendo que a formação e a negociação de atletas seriam fundamentais para a sobrevivência do projeto.

— Sempre fomos um clube que apostou na base. Entendemos que, para sobreviver, dependemos da venda de jogadores. Hoje, dificilmente alguém se interessa por um atleta de 23 ou 24 anos que esteja no Audax. Então, nosso foco passou a ser a base, e o profissional acabou ficando em segundo plano. Nesse processo, tivemos algumas gestões que não foram bem-sucedidas — explica Teixeira.

A leitura é compartilhada por Luciano Moraes, treinador com longa trajetória nas categorias inferiores do clube. Para ele, a lógica do mercado obriga times como o Audax a adotarem um modelo quase artesanal de formação.

Audax Osasco x Santos pela final do Paulistão
Osasco Audax x Santos pela final do Paulistão. Foto: Gazeta Press FRED CASAGRANDE/FRAMEPHOTO/FRAMEPHOTO

Os clubes grandes pescam no aquário. Eles vêm aqui e levam os nossos jogadores. Nós temos que pescar no oceano, garimpar entre milhares para encontrar quem pode virar atleta de alto nível. Por isso, o nosso trabalho precisa ser muito bem valorizado. A gente precisa investir na base, buscar o diamante bruto, lapidar e, com os recursos das vendas, sustentar o projeto. Se sobrar algo, direciona para o profissional — diz Gustavo Teixeira.

Além de jogadores, o Osasco Audax também serviu como ponto de partida para treinadores que mais tarde ganhariam projeção nacional e internacional, reforçando o perfil do clube como espaço de lapidação de talentos. Fernando Diniz e Arthur Elias, por exemplo, passaram por Osasco no mesmo período, à frente das equipes masculina e feminina, respectivamente, antes de alcançarem reconhecimento em escala muito maior.

— Temos muito orgulho da nossa história. Em 2017, por exemplo, tínhamos o Fernando Diniz como treinador do time masculino e o Arthur Elias no feminino. Houve um momento em que os dois estavam comandando seleções brasileiras: o Diniz no masculino e o Arthur, que segue até hoje, no feminino. Ambos passaram por aqui, trabalharam aqui. Para o clube voltar a crescer, o caminho passa por investir na formação, buscar patrocinadores, ampliar o apoio da prefeitura e se aproximar ainda mais do torcedor. É uma combinação de fatores — conclui Gustavo Teixeira.

Em meio a um presente de incertezas e a um passado que ainda ecoa, o Osasco Audax tenta se agarrar ao que sempre soube fazer. Formar jogadores, revelar talentos e sobreviver à margem dos grandes centros de poder. Talvez seja ali, longe dos holofotes e mais perto dos campos de treino da base, que o clube encontre a chance de escrever um novo capítulo.

Foto de Gabriella Brizotti

Gabriella BrizottiRedatora de esportes

Formada em jornalismo pela Unesp, sou uma apaixonada pelo esporte em geral, principalmente o futebol. Dentre as minhas paixões, está o futebol argentino e suas 'hinchadas'.

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