A mudança que transformou Bruno Guimarães em artilheiro no Newcastle e pode ajudar a Seleção
De volante organizador a meia que chega à área, faz gols e dá assistências, mudança do brasileiro pode ser positiva para Ancelotti
Bruno Guimarães sempre foi impactante para o Newcastle — para além do campo, virou capitão e ídolo rapidamente no clube. Em determinado momento, o brasileiro foi determinante também com gols. E essa fase goleadora voltou.
Em alta, Bruno marcou contra Nottingham Forest, deu assistências nos dois jogos da seleção brasileira na Data Fifa de outubro e voltou a marcar contra o Fulham, na última rodada da Premier League.
O volante passou por um mês de grande impacto em gols e, principalmente, resultados. Contra Forest e Fulham, foi decisivo para marcar os gols que deram ambas as vitórias aos Magpies. Mas, afinal, o que mudou? E por que isso é boa notícia para Carlo Ancelotti?
O que explica a fase goleadora de Bruno Guimarães na Premier League
Nos últimos dez jogos em casa pelo Newcastle, o meio-campista marcou cinco vezes e sofreu um pênalti determinante contra o Forest. A média de um gol a cada dois jogos é maior, inclusive, do que o início surpreendente em sua primeira temporada.
Quando chegou, em 2021, Bruno teve uma sequência de cinco gols em 11 jogos como titular. Mas, de modo geral, a fase atual é muito superior à média do jogador: antes, eram apenas nove gols em 57 jogos em casa na Premier League — uma média de um gol a cada 6 jogos.

A mudança, no entanto, não é exclusiva do brasileiro. A saída de Alexander Isak do Newcastle no início da temporada fez com que o técnico Eddie Howe precisasse transformar padrões de ataque da equipe.
Isso porque o sueco era um dos grandes centroavantes do futebol inglês no que diz respeito a atacar o espaço nas costas da defesa. Ele se mantinha sempre como uma ameaça em campo aberto e obrigava os defensores a se preocuparem com a profundidade.
Nick Woltemade, seu substituto, é outro tipo de atacante. Apesar de igualmente alto, é menos explosivo nesses movimentos e se sente mais confortável saindo da área e buscando a bola. Isso exige uma reorganização dos meias e, por consequência, impacta o brasileiro.
‘Nova função’ no Newcastle após saída de Isak
Para que o encaixe de Woltemade faça sentido, é preciso que meias e pontas passem a atacar o espaço liberado pelo centroavante quando ele deixa a área. Por isso, Howe encoraja seu capitão a pisar cada vez mais na área.
This pitchside angle of Bruno's winner 🤯 pic.twitter.com/98uJG9ZcTk
— Newcastle United (@NUFC) October 26, 2025
O resultado é evidente na análise qualitativa e quantitativa. Bruno tem três gols na Premier League e é o vice-artilheiro do Newcastle, atrás apenas de Woltemade, com quatro. E mais do que isso — segundo dados do “The Athletic”, em relação à temporada passada, o brasileiro:
- Tem chutado mais (1,9 finalizações por jogo, contra 1,3);
- Acertado o alvo com mais frequência (0,8 contra 0,4);
- Tem mais toques na bola na área adversária (3,7 contra 2,2);
- Aumentou seus gols esperados (0,23 contra 0,15).
Antes mesmo da saída de Isak, no entanto, Howe já mudou a rota para Guimarães. A partir de dezembro do ano passado, tornou-se mais comum que o brasileiro trocasse de posição com Sandro Tonali, se tornando mais um meia “camisa 8” do que o primeiro volante construtor de antes.
Desde então, são oito gols para Bruno, e cinco deles desde abril. O próprio jogador já revelou em entrevistas como Howe tem pedido para que ele esteja mais avançado. Seu mapa de calor também ilustra bem a mudança: se tornou um meia que atua no meio-espaço direito, mais próximo à área do que antes.

Em seu sistema de comparação de jogadores por meio de dados, a “Opta” entende que, na atual temporada, Bruno tem atuado de forma semelhante a alguns meias e até pontas do futebol mundial.
O meio-campista do Newcastle foi colocado com um grau de semelhança de 83% em relação a Thiago Almada, do Atlético de Madrid — um meia historicamente mais ofensivo, driblador e incisivo com conduções. A Opta ainda coloca Guimarães muito próximo de jogadores criativos como Senny Mayulu (86%), Maghnes Akliouche e Álex Baena (84%).
Quem trabalha com Bruno explica a evolução
Bruno Guimarães é um dos clientes mais antigos da Performa Sports, uma empresa de consultoria técnica e tática para atletas. Vicente Caldas, sócio-fundador a empresa, reforça como os quatro anos de trabalho que o meia tem com a equipe de consultoria o preparou para diversos cenários, incluindo as trocas de posição.
“Nós abordamos diversos comportamentos que são importantes pro jogo do Bruno como um todo, independente da posição em que ele atue, como domínio orientado e mapeamento“, revela, em contato com a Trivela.

— Pela mudança de posicionamento, ele passou a estar numa zona mais densa do campo, onde há menos espaço e tempo. Por isso, desde que ele retornou a essa posição, com base no que o treinador o pede pra função, estamos trabalhando seu timing para infiltração na área, a melhor ocupação das zonas de finalização, jogar a menos toques e o ajuste para finalização.
Mesmo que não haja contato entre o clube e a equipe de analistas individuais do jogador, o próprio Bruno é quem leva informações e demandas para cada contexto. Vicente revela à reportagem que a empresa está aberta à comunicação tanto com o Newcastle quanto com a seleção, apesar de nunca ter acontecido.
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O que isso pode significar para Ancelotti e a seleção brasileira?
As assistências de Bruno Guimarães contra Coreia do Sul e Japão já ilustram como Ancelotti pretende usar o camisa 8 do Brasil. E a mudança no padrão do Newcastle é benéfica para a Seleção.
Contra a Coreia, Bruno se tornou efetivamente um meia mais avançado pela direita, que mesmo ajudando Casemiro na construção ocasionalmente, buscava ser impactante no entrelinhas. Foi assim que fez um passe que furou a marcação coreana para encontrar Estêvão infiltrando.
No jogo contra os japoneses, em que o Brasil teve dificuldade de entrar no último terço, o meio-campista voltou a mostrar como domina o entendimento dos espaços ao encontrar Paulo Henrique, que atacava a profundidade nas costas do defensor “puxado” por Paquetá.

Foram duas assistências clássicas de um meia organizador e criativo, algo que já era mostrado no jogo de Guimarães, mas como um volante mais recuado. Agora, mais à frente em clube e seleção, o jogador do Newcastle pode ser mais uma para Ancelotti no último terço — tanto como quem chega para marcar, quanto quem encontra um companheiro infiltrando.
“Bruno se reconhece como um jogador importante na zona de criação e conclusão, ser um jogador mais agressivo e mais presente em zonas próximas ao gol, isso tudo é bom não apenas pro Newcastle, mas também pra Seleção“, reforça o sócio da Performa.



