Brasil

Com estratégia única, primeira rede multiclubes do Brasil aposta em modelo alternativo às SAFs

À Trivela, Guilherme Bellintani, fundador da Squadra Sports, detalha perfil diferenciado de contratação que empresa multiequipes busca

As redes multiclubes tomaram conta do futebol, com tentáculos que também chegaram ao Campeonato Brasileiro com Bahia (Grupo City) e Botafogo (Eagle Football). Essas “holdings”, porém, sempre partiram do exterior, mas desde 2024 há a primeira companhia multiclubes fundada no Brasil, a Squadra Sports.

A empresa conta com o Londrina (por meio da Sociedade Anônima do Futebol, SAF), atual vice-campeão da Série C, Linense (via Sociedade Anônima comum, S.A.), o time de base VF4-PB e administra as categorias inferiores de Ypiranga-BA e Conquista-BA. A Squadra Sports tem um perfil completamente distinto no quesito formação e contratação de jogadores.

O Grupo City, por exemplo, além de trazer jogadores renomados para o Tricolor Baiano, tem investido forte em jovens para estrutura da rede multiclubes, como o garoto Dieguinho, de 14 anos, podendo se tornar a maior venda sub-15 do Brasil, por 1 milhão de euros (R$ 6,3 milhões), se bater metas.

O adolescente veio do Sfera-SP, clube formador referência no país, modelo que a Squadra também não se encaixa. A primeira “multinacional” do futebol no Brasil quer ficar no meio do caminho desses dois projetos, como explicou o fundador Guilherme Bellintani em entrevista exclusiva à Trivela via videoconferência.

A participação da Squadra Sports nos clubes:

  • Londrina (janeiro de 2024): 90% da SAF por cerca de R$ 100 milhões, valor que deve ser investido no futebol até 2029
  • Ypiranga-BA (maio de 2024): gestão do departamento de futebol por 10 anos
  • Linense-SP (agosto de 2024): 85% da S.A do clube por R$ 27 milhões em seis anos, podendo bater R$ 48 milhões em caso de aceso à elite do Paulistã
  • VF4-PB (outubro de 2024): 80% do clube paraibano, que só tem times sub-11, 13, 15 e 17
  • Conquista-BA (dezembro de 2024): gestão da categoria de base
Ferran Soriano, CEO do Grupo City, e Guilherme Bellintani, então presidente do Bahia, na assinatura da SAF em 2023
Ferran Soriano, CEO do Grupo City, e Guilherme Bellintani, então presidente do Bahia, na assinatura da SAF em 2023 (Foto: Imago)

Squadra quer ‘comer pelas beiradas’ e buscar jovens formados nos grandes

— Todo mundo que está investindo em futebol no Brasil tem duas visões muito extremas: aposta na divisão de base como formador de médio e longo prazo, buscando um “Endrick” ou um “Neymar” como forma de viabilizar a remuneração do seu projeto, ou existem as SAFs que apostam em clubes de massa, como Botafogo, Atlético Mineiro e outros, com o seu diferencial ser um projeto de entretenimento, de venda de tíquetes e de atletas já maduros — iniciou o executivo.

Bellintani, presidente do Bahia entre 2018 e 2023 e com participação direta na transição para SAF do Grupo City, detalha que a ideia da rede é comprar equipes menos badaladas e aproveitar os jogadores que são formados pelos participantes das Séries A e B e não possuem espaço para atuar no time principal desses clubes.

“O nosso foco principal é o atleta de 18 a 23 anos”, expôs o empresário. Com isso, eles querem ser o maior exportador de “pé de obra” do país.

— A Squadra está apostando no meio do caminho [dessas SAFs], em um projeto abaixo do radar, como eu chamo, comprando clubes que ninguém está vendo para comprar. Não queremos necessariamente depender de muita torcida no estádio e não somos focados só na base — disse.

— Estamos encontrando um caminho de jogador jovem, que a gente chama de pré-pronto: eles foram formados em clubes de Série A, mas provavelmente esses clubes não usariam o atleta para não colocá-lo em um nível de competição muito alto. Aí, vê no Londrina a chance de fazer uma parceria e tentar recuperar alguma parte do dinheiro investido — aponta Bellintani.

No time do Londrina que disputou a ida da final da Série C contra a Ponte Preta haviam dois exemplos: o zagueiro Yago Lincoln, de 22 anos, formado no Ceará, e o volante Zé Breno, de 21, ainda vinculado ao Vitória, onde se profissionalizou.

A estratégia para convencer os clubes de Série A a cederem os jogadores para o Londrina é o empréstimo para valorização ou, em negociação definitiva, manter porcentagem desses atletas nas equipes formadoras pensando em futuras vendas.

Zé Breno em treino do Londrina
Zé Breno em treino do Londrina (Foto: Rafael Martins/Londrina EC)

Com isso, se poupa o dinheiro da formação do atleta, de custo altíssimo a longo prazo, e se ganha na possível revenda de uma promessa formada em clube importante. “A gente não vai comer o prato principal, direto no filé mignon, procuramos o ativo esportivo que os grandes clubes não estão aproveitando e que eu não precisei demorar oito anos para formar”, argumenta o empresário.

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Outros três clubes da rede, no entanto, possuem outra visão

Se para Londrina e Linense o projeto é esse “fora do radar” e com jogadores formados pelos times da elite do futebol nacional, para Conquista, Ypiranga (time centenário que já teve como torcedores o escritor Jorge Amado e a freira e santa católica Irmã Dulce) e VF4 (fundado pelo lateral-direito Victor Ferraz) a visão é só a formação de atletas na base, mas sem grandes custos financeiros pelo foco em categorias inferiores.

Neste momento, 45 jogadores entre 14 e 25 anos que passaram por clubes da Squadra estão em equipes fora da rede. A ideia é esse número dobrar no ano que vem e mais do que quintuplicar em 2029, ano que marca o fim do primeiro ciclo de planejamento da empresa multiclubes.

— A gente quer chegar em 2029 com 750 atletas em clubes nossos e 250 fora. […] E Ypiranga, VF4 e Conquista têm um papel fundamental de alimentar a base de outros clubes. Os times de Série A e B que cedem esse jogador jovem pré-pronto, de boa base são nossos “clientes invertidos” nesses três times, no movimento de base até sub-17. O VF4, por exemplo, teve o Adriel, jogador de super destaque no sub-20 do Sport — disse Bellintani.

— No ano que vem, queremos avançar nos projetos de base, na formação e identificação de atleta, chegando no final de 2025 com 70 jogadores alocados em outros clubes — finalizou o executivo.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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