Brasileirão Série A

Maurício Noriega: Num Brasileirão alucinante, o melhor de cabeça será campeão no pé

Brasileirão de 2023 será um divisor de águas no campo do preparo emocional dos jogadores de futebol no País

O Brasileirão de 2023 entrará para a história como o maior teste psicológico para torcedores desde 1959, quando o Bahia faturou o primeiro título nacional. São tantas as reviravoltas e os resultados surpreendentes que podem faltar as frases populares e filosóficas adaptadas à realidade do jogo de bola.

Há mais mistérios entre o céu e a terra do que o trevo em que se transformou a cabeça dos botafoguenses. Como explicar que uma equipe que tenha liderado o torneio da quarta à trigésima terceira rodada tenha deixado escapar esse domínio? Até Paulo Mendes Campos duvidaria das coisas que só acontecem com o Botafogo. O time ficou ruim da cabeça ou doente do pé?

Encontrei uma declaração dada pelo neurocirurgião Fernando Gomes à CNN Brasil que talvez ajude a explicar o drama vivido pelo Fogão: ‘Em algum momento, a pessoa chega a confundir no psicológico o que ela faz com o valor que ela tem para si mesma e para os outros. É como se a autoestima dela dependesse totalmente do bom desempenho – se ela não tem um desempenho, no mínimo, excelente, ela não vale nada”. Enquanto vencer era apenas um sonho, o Botafogo deu conta. Quanto mais palpável ficou o objetivo parece ter faltado sustentação emocional para tal desafio. Inclusive no inconsciente coletivo.

O futebol ainda é um ambiente refratário a questões como a inteligência emocional e o preparo mental dos atletas. O Campeonato Brasileiro de 2023 será um divisor de águas nesse aspecto. Nem é preciso ser estudioso do tema para constatar a diferença na postura, inclusive física e no olhar, dos atletas de Botafogo e Palmeiras. Ainda que o campeão venha a ser o próprio Botafogo, o que na aritmética é possível, os comandados de Abel Ferreira exalam uma confiança que intimida os rivais sem descambar para a arrogância. O Verdão, que pode ser campeão na próxima rodada se vencer o Fluminense e contar com uma combinação de resultados, construiu uma fortaleza mental quase inabalável. Nas raras ocasiões em que balança, o grupo se recompõe rapidamente e retoma o padrão de confiança em sua capacidade coletiva, no treinamento, e na repetição. Segue sendo o melhor time coletivamente em todas as etapas do jogo. O nome disso? Equilíbrio. Há no vestiário alviverde uma alquimia que os rivais buscam igualar. 

O material para teses é farto. O que dizer da incrível recuperação do Atlético Mineiro sob a batuta de Felipão, que é maldosa e injustamente taxado de ultrapassado por alguns? Após o belíssimo gesto de reaproximação naquele abraço antes do jogo, Scolari deu uma aula de estratégia de contragolpe a Tite, um ícone de modernidade para muita gente boa, num Maracanã lotado. A confiança que o flamenguista deposita justificadamente em seu time talentoso não parece ter sido suficiente para segurar um Galo que tem sérias questões psicológicas instaladas em sua alma coletiva quando o assunto é o rival rubro-negro. Quando parecia que o “deixou chegar” era a melodia da vez, a atuação de harmonia impecável do time mineiro achou o tom da disputa sensacional do campeonato.

Brasileirão derruba até ideia de que jogar como mandante é melhor

Na disputa pela sobrevivência existe um fenômeno curioso: a velha máxima do é melhor jogar como mandante, do na minha casa mando eu, vem sendo destruída a cada rodada. O Corinthians, que se orgulha justamente da relação com sua fanática e presente torcida, está se salvando graças a resultados obtidos longe de casa, contra Grêmio e Vasco, notadamente. O Vasco que enfileirava uma invencibilidade que deveria encorpar sua atitude em casa, fez 2 a 1 e se apavorou com a perspectiva da vitória. Parecia implorar pelo final do jogo e tomou a virada. O Bahia, que havia amassado o Corinthians em São Paulo, perdeu no chamado apagar das luzes para o São Paulo, em plena Fonte Nova. Sem confiança, com pouco controle emocional, jogar com um estádio cheio a favor muitas vezes se transforma numa armadilha mais do que uma vantagem. Longe da pressão da torcida que obriga times a atacar sem ter qualidade e confiança para tanto, os grupos buscam força e controle que faltam no ambiente teoricamente favorável. Convencer um grupo de atletas de que muitas vezes não é boa estratégia atender aos anseios da multidão é desafiador no aspecto mental. Muitas vezes é a diferença entre um trabalho vencedor e outro que fica no quase, porque os métodos de treinamento e a questão prática das atividades pode ser bastante parecida.

Há uma frase maravilhosa de um dos maiores atletas brasileiros que emoldura a importância da inteligência emocional no esporte de alto rendimento: “Eu não sou o melhor, não. Mas sou capaz de fazer coisas que muitas pessoas não acreditam”. Gustavo Kuerten.

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
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