Brasileirão Série A

O Brasileiro não acabou, mas, mesmo se o Palmeiras não for campeão, Abel Ferreira já é o dono de 2023

Técnico do Palmeiras, líder do Campeonato Brasileiro, Abel Ferreira teve menos peças para fazer, por mais um ano, o melhor time do Brasil

O técnico Abel Ferreira já é o grande vencedor do futebol brasileiro em 2023. Ainda que seu Palmeiras não consiga conquistar o Campeonato Brasileiro – o que parece improvável -, o que o português já conseguiu nesta temporada o credencia como o melhor treinador do País mais uma vez.

O lema do Palmeiras para 2023 foi “Vamos fazer o mesmo, mas melhor”. Essa é frase estampada nos dormitórios dos atletas e nas paredes da Academia de Futebol. Esse foi o ideal que moveu os jogadores desde janeiro.

A referência para o lema foi o 2022 do clube, temporada em que o time conquistou o Campeonato Paulista, com 4 a 0 sobre o São Paulo na final; a Recopa Sul-Americana, sobre o Athletico-PR, e o Campeonato Brasileiro com sobras e três rodadas de antecedência.  Na Copa Libertadores, o time foi eliminado na semifinal, pelo Athletico de Felipão.

O Palmeiras não teve Recopa em 2023, já que não conquistou a Libertadores do ano anterior. Mas ganhou a Supercopa do Brasil em cima do Flamengo (4 a 3), seu maior rival esportivo desde 2015. Depois, conquistou o Paulista com goleada na final, desta vez sobre o Água Santa: 4 a 0.

Mais uma vez, na Libertadores, foi eliminado na semifinal – desta vez para o Boca Juniors, nos pênaltis. Diante da campanha que o time vinha fazendo no Brasileiro, em comparação com o Botafogo, de quem chegou a ficar 14 pontos atrás, parecia que o lema de Abel não se cumpriria.

Ainda que ganhasse o Brasileirão, o que parecia um milagre no começo de outubro, o time não o faria com um desempenho muito melhor que o dos adversários, como em 2022. Mas é justamente por isso que o trabalho de Abel sobressaiu.

Sem “meio-time”

Dudu-comemora-gol-pelo-Palmeiras
Dudu marcou o gol da vitória do Palmeiras

Abel não teve, em 2023, as mesmas ferramentas do ano anterior. Para começar, perdeu Danilo e Gustavo Scarpa, negociados com o Nottingham Forest. Simplesmente o melhor volante revelado pelo Palmeiras em sua História e o Bola de Ouro na conquista do Nacional.

Com um time enfraquecido, mesmo com a chegada de Artur, Abel mostrou repertório. Inventou Zé Rafael de primeiro volante e teve de criar uma nova maneira para o time jogar sem ter seu melhor articulador do ano anterior. Sem mencionar que, ao recuar Zé, perdeu também o que ele entregava jogando como “8”.

Ou seja, o Palmeiras de 2023 já não “tinha” de cara, três de seus principais jogadores. Mas a situação ficaria pior no fim de agosto, quando simplesmente Dudu se lesionaria com gravidade. Agora, eram menos quatro peças para jogar a semifinal da Libertadores contra o Boca Juniors.

Nesse momento, Abel quebrou a cabeça para achar uma solução. E já é possível, hoje dizer que o técnico errou, sim, ao apostar em Artur pela esquerda do ataque, onde ele desapareceu. Bem como na improvisação de Mayke como ponta-direita e na manutenção de Rony como titular.

Foi com esse time, testado por oito jogos, que o Pameiras caiu na Libertadores. E quando ano já havia sido dado como acabado por muita gente – até por Abel, que não acreditava que o Botafogo fosse perder o título – o trabalho da comissão alviverde voltou a sobressair.

O renascimento

Elenco do Boca Juniors, em jogo contra o Palmeiras pela semifinal da Libertadores, comemorando a classificação à final da competição continental. Foto: Icon Sport.

Abel gosta de dizer que dá 24 horas para seus comandados curtirem uma derrota ou celebrarem uma vitória. Desta vez, o baque durou um pouco mais: 17 dias e duas derrotas jogando mal (2 a 1 para o Santos, 2 a 0 para o Atlético-MG) se passaram da eliminação ante o Boca até a vitória por 2 a 0 sobre o Coritiba.

Foi esse o tempo necessário para Abel mudar o esquema para um 3-5-2 com Luan titular e escalar um ataque com Breno Lopes e Endrick, dando o braço a torcer e fazendo titular a Cria da Academia que todos queriam ver jogar.

E então, vieram sete vitórias e um empate em nove jogos, com direita a goleada humilhante sobre o São Paulo e virada heróica sobre o Botafogo.

Quem mais conseguiria?

Endrick comemora gol contra o Botafogo no Estádio Nilton Santos. (Foto: Cesar Greco/Palmeiras/by Canon)

Quantos técnicos conseguiriam manter uma equipe vencedora depois de ter 75% do seu meio-campo desmontado de um ano para o outro?

Quantos, após conseguir passar por essa tormenta, ainda conseguiriam colocar o time no rumo de um título após perder Dudu, o jogador referência do time há oito temporadas, e depois de uma eliminação traumática diante do Boca Juniors?

No ano em que mais cometeu erros, Abel também teve seus maiores acertos.

É verdade que a iminente conquista do Palmeiras tem muito da impressionante derrocada do Botafogo. Mas o Palmeiras fez sua parte. Muito por causa de Abel.

Pelo que Trivela apurou, o adeus de Abel tem mesmo boas chances de vir ao fim desse ano. E, os palmeirense que me desculpem, se eu fosse Abel, eu iria embora. Com duas Libertadores, dois Paulistas, uma Copa do Brasil, uma Recopa, uma Supercopa e, muito possivelmente, dois Brasileiros na bagagem.

Se ficar no Palmeiras, será por perfeccionismo, para tentar, novamente, fazer melhor em 2024. Ou pelo amor que ele tem pelo clube.

A sorte do palmeirense é que ser perfeccionista e gostar do Palmeiras são duas coisas que Abel faz com muita intensidade.

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata Lima

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023
Botão Voltar ao topo