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Luis Castro no Al Nassr: tem coisas que só acontecem com o Botafogo

Depois de anos roendo osso, o Botafogo parece enfim estar comendo o filé, mas sofre um duro golpe com a perda do técnico Luis Castro em uma proposta absurda da Arábia Saudita

A grande história do Campeonato Brasileiro até aqui é o Botafogo. Líder, com sete pontos de vantagem sobre o segundo colocado após 12 jogos. A perspectiva de um título ronda os ares de General Severiano depois de anos difíceis. Como se diz, tem coisas que só acontecem com o Botafogo. Luis Castro, depois de passar momentos duríssimos em 2022, com pedidos de demissão vindos da torcida, vivia o seu melhor momento. Só que o técnico recebeu uma proposta indecorosa e vai treinar o Al Nassr, segundo informa o ge.globo e outros veículos de imprensa.

Avalanche da Arábia Saudita

A Arábia Saudita tem causado um alvoroço no futebol europeu com a contratação de superestrelas do continente. Algo, aliás, que eles não estão tão acostumados. Cristiano Ronaldo já foi um indício, mas embora seja um fenômeno que está entre os melhores da história, a situação pareceu ser excepcional, porque era um veterano, com um salário quase impossível de ser pago por qualquer outro – isso falando só do salário no Manchester United, nem do que ele recebe no Oriente Médio.

Jogadores contratados pelos clubes da Arábia Saudita:

Esses foram só os primeiros. Tudo indica que haverá um número ainda maior de jogadores indo para os clubes sauditas e as especulações não param. É “here we go” atrás de “here we go”. Provavelmente muitas delas irão se concretizar, outras ficarão só no rumor, o que é normal. Mas o temor que começou a pairar sobre o futebol brasileiro era: será que virão atrás de jogadores daqui também?

A onda chinesa levou diversos jogadores anos atrás, quando o governo do país abriu a carteira para fortalecer os seus clubes. Tiraram jogadores da Europa, mas quase sempre jogadores coadjuvantes. Nenhum do tamanho de um Cristiano Ronaldo ou do detentor da Bola de Ouro. Mas nem perto disso. Porém levaram jogadores que eram estrelas do futebol brasileiro.

Os técnicos estão sendo cotados também na Arábia Saudita, mas eles não conseguiram, ainda, um técnico do mesmo calibre dessas estrelas. É verdade que Nuno Espírito Santo, ex-Porto, Monaco, Wolverhampton e Tottenham, está por lá – treinando Romarinho e agora Benzema. Tentaram José Mourinho, que aparentemente recusou uma dessas propostas indecorosas (se falou em €30 milhões por ano).

Proposta indecorosa por Luis Castro

Chegamos, então, a Luis Castro. O técnico português, de 61 anos, trabalhou no Catar, no Al Duhail, em 2021/22, depois de deixar o Shakhtar Donetsk. O português é conhecido de Cristiano Ronaldo, e a proposta que chegou da Arábia Saudita é justamente para dirigir o Al Nassr, que tem a maior estrela portuguesa. Além da atração de dirigir Cristiano Ronaldo, o projeto é levar ainda mais jogadores. Como temos visto, é algo que está acontecendo e deve aumentar. O time deve ser reforçado porque Cristiano Ronaldo quer ser campeão.

Só que o principal motivo é o financeiro. Luís Castro recebeu uma proposta de €6 milhões anuais, um salário altíssimo e que supera muitas vezes o salário que recebe por aqui, no Botafogo. Mesmo com os pedidos dos jogadores para que ele ficasse e as conversas com o dono do clube, John Textor, sobre o projeto, a proposta era realmente algo fora do normal. Segundo André Rizek, do Sportv, a proposta inclui, além dos salários, uma mansão avaliada em €2,5 milhões que ficará para ele se ele cumprir os dois anos de contrato.

Luis Castro fez um trabalho de reconstrução no Botafogo. Assumiu um time que tinha subido da Série B e tinha expectativas até um pouco irreais, ainda fruto desse oba-oba generalizado que foi feito em cima dos clubes que se tornaram SAFs. Embora o projeto do Botafogo tenha sido um dos mais pés no chão de todos, ainda era preciso administrar as expectativas dos torcedores. E isso foi bem difícil.

O Botafogo terminou em 11º no Brasileirão de 2022, o que significou, ao longo da campanha, muitas críticas da torcida. Críticas é até pouco: pediam a cabeça do treinador mesmo. E esses pedidos aumentaram ainda mais com a campanha horrorosa no Campeonato Carioca de 2023, que o clube precisou jogar a Taça Rio, que virou a Taça dos Eliminados no estadual.

Só que Luís Castro conseguiu fazer o Botafogo, enfim, engrenar neste Campeonato Brasileiro. OS 12 jogos feitos até aqui foram impressionantes. Foram 10 vitórias, a maioria delas jogando bem e superando o adversário. Perdeu duas vezes e ainda não empatou nenhum jogo. Com uma campanha como essa, é inevitável que se fale em título. E o Botafogo tem mesmo que sonhar, especialmente depois de vencer o Palmeiras fora de casa, no dificílimo Allianz Parque, na última rodada.

Luís Castro tem 81 jogos no comando do Botafogo, com 44 vitórias, 14 empates e 23 derrotas. Foram 115 gols marcados e 71 sofridos nessas partidas. Se em 2022 a sua saída era desejada por muitos torcedores, em 2023 a saída do treinador deixará torcedores chateados.

E agora, Botafogo?

Com a saída de Luis Castro, que deve se despedir na partida contra o Magallanes, pela Copa Sul-Americana, o Botafogo se verá em uma situação difícil: escolher um substituto para o treinador. Certamente o clube já considerava essa possibilidade, porque sabia que a proposta era dessas indecentes que balançam qualquer profissional, no mínimo financeiramente. E como manter o time tão bem quanto está agora?

A resposta não é simples, porque não temos uma profusão de grandes técnicos disponíveis. E Luís Castro tem um perfil muito específico que se encaixou bem no Botafogo. Ele não é um técnico que gosta de fazer manchetes. Se pensarmos em um compatriota que fez sucesso em um clube ali perto do Botafogo, Jorge Jesus, ex-Flamengo, o estilo é completamente diferente. E o treinador, que deixou o Fenerbahçe, deve ser um dos especulados, mas seria uma mudança bastante drástica.

Pensando no mercado, o Botafogo não tem opções nacionais muito claras. Entre os nomes quem trabalharam mais recentemente e estão desempregados no momento estão Rogério Ceni, ex-São Paulo, e Odair Hellman, ex-Santos. Nenhum dos dois têm um perfil similar ao de Castro. Em resultados, porém, Ceni conseguiu guiar o Flamengo ao título brasileiro em 2020, ainda que sob muitas críticas – e só no último jogo, dependendo de um resultado do adversário na época.

Hellman fez ótimo trabalho no Inter, outro no Fluminense que teve mais elogios que críticas e este no Santos que foi bastante criticado. Não parece a melhor opção nem do ponto de vista técnico, nem do ponto de vista de imagem.

Muitos nomes surgiram como possibilidades. Bruno Lage, que era o preferido do Atlético Mineiro, é um deles. O treinador deixou o Wolverhampton em outubro de 2022 e ainda quer ficar na Europa, ou ao menos era essa o discurso ao ser procurado pelo Galo. Nomes como Tite ou Marcelo Gallardo são completamente irrealistas. Eduardo Coudet, embora bom técnico, deixou uma imagem negativa na sua saída do Atlético.

Tudo indica, então, que o nome terá que ser do exterior, mas precisará trabalhar para encontrar alguém como achou Luís Castro. Não será uma tarefa fácil, mas John Textor tem a vantagem de estar em projetos de diferentes clubes, o que dá a ele muitos contatos. O que fica claro é que não há um nome claro para assumir o clube. Será preciso estudar muito bem e tomar uma decisão a partir disso. Mais do que isso, precisará ser ágil. Não é uma tarefa simples. Quanto mais demorar, mais o time pode sofrer, em um momento que está bem.

O Botafogo tem um ano fantástico pela frente. A perspectiva ainda é muito boa, mesmo com a saída de Luís Castro. A sua permanência não era garantia de ganhar o título, como a sua saída não significa que o time perderá. Só que será preciso dar outro tiro certo e manter a convicção, o que Textor mostrou ao manter Luís Castro diante de todas as críticas que o técnico recebia.

Seja como for, o torcedor do Botafogo certamente sente uma ponta de frustração. Logo no ano que parece que tudo caminha bem, que o time tem uma chance real de brigar pelo título brasileiro, que a equipe parece bem arrumada, organizada e capaz de disputar firmemente contra os adversários mais duros, perderá alguém fundamental nesse projeto. O torcedor do Botafogo neste momento se sente um pouco Hardy, uma hiena do desenho Lippy e Hardy, que tinha como bordão: “Ó dia, ó céus, ó azar”. Tem coisas que só acontecem com o Botafogo.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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