Brasileirão Série A

Grêmio: Renato não corre risco de ser demitido após papelão, mas 2024 é colocado em xeque

Após viajar para o Rio de Janeiro sem dar entrevista coletiva, Renato Portaluppi não corre risco de demissão, mas continuidade no Grêmio para 2024 é colocada em xeque

O principal episódio após a vitória do Internacional, por 3 a 2, no clássico Gre-Nal 440, envolveu Renato Portaluppi. Com viagem marcada para o Rio de Janeiro, o treinador do Grêmio saiu do Beira-Rio direto para o Aeroporto Salgado Filho, sem conceder entrevista coletiva.

A atitude incomodou bastante o presidente Alberto Guerra. O mandatário gremista externou sua insatisfação de forma pública, deixando claro que a decisão não contou com aprovação do clube.

— Do segurança ao presidente, do faxineiro ao CEO, ninguém do Grêmio concordou com essa decisão. Foi uma decisão unilateral do treinador. A gente entende, ele tem um compromisso amanhã de manhã [segunda-feira]. Mas achamos que deveria estar aqui dando suas explicações — comentou Guerra.

O presidente gremista revelou que já sabia há alguns dias da viagem de Renato. Mas esperava que o treinador repensasse e concedesse entrevista após o Gre-Nal. Guerra frisou que não poderia simplesmente “trancar a porta” e obrigar o treinador a falar.

Sem risco de demissão

A grande questão que se impõe diante do ocorrido é saber qual será a punição para Renato. Se é que haverá alguma.

— O que se pode fazer? Demissão? Obviamente não. Não é o caso. Isso seria punir o Grêmio, punir o time. Ele está indo muito bem, fazendo um excelente trabalho. Mas tomou uma decisão contrária à que a gente achava melhor — afirmou o presidente.

Apesar da insatisfação, presidente Alberto Guerra garantiu que não demitirá Renato. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Guerra disse que o assunto será tratado internamente na reapresentação do elenco, marcada para quinta-feira (12), no CT Luiz Carvalho. Mas isso se Renato estiver presente. Nas folgas de Data Fifa, como é o caso, o treinador costuma voltar um dia depois dos atletas, que realizam apenas atividades físicas no retorno.

Dificuldade de separar o ídolo do profissional

Uma das tantas regalias que somente Renato possui no futebol brasileiro. Resultado dos títulos conquistados, como jogador e treinador, pelo maior ídolo da história do Grêmio. Mas práticas que boa parte da torcida esperava que acabassem na gestão de Guerra, iniciada neste ano.

Afinal, elas muito foram vistas na passagem anterior do treinador, quando Romildo Bolzan Jr. era o presidente. Renato folgava quando queria, não viajava para os jogos fora de casa quando não queria, contratava quem queria… em suma, tinha a chave do clube. Muitos entendem que a derrocada do Grêmio, que levou ao rebaixamento para a Série B, iniciou por aí. Sem o treinador e as atribuições abraçadas por ele, a direção foi incapaz de conduzir o futebol do clube da maneira adequada.

Por mais que o discurso de campanha da nova gestão tenha sido pautado no profissionalismo, ainda é percebida dificuldade de separar o ídolo do profissional, para que existam cobranças e limites. Isso ficou claro na fala do vice-presidente de futebol Antônio Brum, ao ser questionado, na última quarta-feira (4), sobre possível renovação de contrato com Renato para 2024.

— A gente vai conversando, e à medida que a temporada vai entrando na reta final… no caso do Renato, assim como do Geromel, são dois personagens que têm uma longa relação com o Grêmio. Então a gente trata isso muito mais como uma conversa de amigos do que como uma conversa profissional. Estamos muito tranquilos, relativo a isso — disse o dirigente em entrevista coletiva.

Mas essa extensão de vínculo para o próximo ano passa a ser colocada em xeque a partir do papelão promovido por Renato depois de seu time ser dominado pelo Inter no Gre-Nal. Até porque não foi só o presidente Guerra: muitos gremistas demonstraram descontentamento com a atitude do treinador de não falar.

Se a avaliação é de que uma demissão agora, a 12 rodadas do término do Campeonato Brasileiro, seria temerária, a troca do comando técnico ao final da temporada já não pode ser descartada.

Desempenho ruim, especialmente fora de casa

Os resultados, no geral, são positivos para um time que retorna da Série B. O Grêmio foi campeão gaúcho, semifinalista da Copa do Brasil, e é 3º colocado no Brasileirão. O que o próprio Renato classificou como “excepcional”.

Entretanto, a fase do Tricolor Gaúcho é ruim, sobretudo fora de casa. O Grêmio não vence uma partida longe da Arena há mais de três meses. Foi no dia 1º de julho, contra o Bahia. De lá para cá, em nove jogos, perdeu cinco vezes e empatou quatro. O time de Renato é apenas o 11º melhor visitante do Campeonato Brasileiro, com 30% de aproveitamento, e sofreu gol em todos os jogos nessa condição.

Problemas defensivos

Essa última estatística colabora para que o Grêmio tenha a sexta pior defesa do Brasileirão, com 35 gols sofridos em 26 jogos. Além disso, o Tricolor é a equipe que mais concede finalizações aos adversário no campeonato (417, média de 16,04 por jogo). Reflexo de um time espaçado, que se defende mal independentemente das peças que estiverem em campo. No Gre-Nal, por exemplo, estavam Geromel, Kannemann e Villasanti, todos de qualidade indiscutível.

Incapaz, ou sem interesse de explicar o porquê disso, Renato se limita a dizer que o Grêmio é um time ofensivo. Ele se embasa no fato de ter o melhor ataque do Campeonato Brasileiro, ao lado do líder Botafogo, com 42 gols.

— Alguém consegue observar de que maneira a gente joga? O quanto é ofensivo o time do Grêmio? Muitos jogadores não têm aquela característica de marcação. Como eu gosto da bola, de jogar para frente, de buscar o gol, é um risco que a gente corre. Para mim é muito fácil tirar dois atacantes, colocar mais dois jogadores de marcação no meio de campo, e nós vamos ter intensidade. Mas como eu gosto de jogar para frente… se vocês contarem nos dedos vão encontrar duas equipes, e olhe lá, que joguem tão ofensivamente como meu time. Então, no momento que você joga para dentro do adversário, em busca do gol, é lógico que você vai deixar espaços, porque tem um time bastante ofensivo — afirmou após o empate com o Fortaleza.

O discurso foi endossado pelo auxiliar técnico Alexandre Mendes, que, na ausência de Renato, falou após o Gre-Nal.

— Como o Renato sempre fala, ele arma o time voltado para atacar. Logicamente, uma equipe que ataca em demasia deixa espaços para o contra-ataque. Basicamente isso tem acontecido quando a gente joga fora de casa. A ideia do Renato é dar força ofensiva, mas melhorar a parte defensiva para que a gente não corra tantos riscos. A ideia que o Renato coloca é que a gente mantenha a posse de bola para não sofrer tanto — afirmou. Porém, o Grêmio é o terceiro time com menos posse de bola no Campeonato Brasileiro, com média de 45.09% por jogo.

Será que é impossível se defender melhor mesmo tendo uma equipe, supostamente, ofensiva? É um dos tantos questionamentos que ficam. E o fato de Renato não os ter respondido, após um Gre-Nal em que poderia ter sido goleado, aumenta a pressão sobre seu trabalho.

Foto de Nícolas Wagner

Nícolas Wagner

Gaúcho. Formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Antes de escrever pela Trivela, esteve na Rádio Grenal e na RDC TV. Também é coordenador de conteúdo da Rádio Índio Capilé.
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