Ásia/Oceania

Paulo Junior: Neymar, o personagem, não deu conta de firmar Neymar, o craque

Ida de Neymar para Arábia Saudita aos 31 anos é mais um passo insosso, óbvio, muito aquém de sua capacidade dentro de campo

Se tanto já se falou sobre Neymar desde o filé de borboleta de Vanderlei Luxemburgo ou o monstro de Renê Simões, já temos uma estrada pavimentada o suficiente para especular sobre o mais discutido, controverso e midiático craque de sua geração mais de década depois, alguém cujo novo movimento em sua carreira, uma ida à Arábia Saudita aos 31 anos de idade, é mais um passo insosso, óbvio, muito aquém de sua capacidade inventiva dentro de campo, a que formou o melhor e maior jogador brasileiro desde que virou titular e protagonista do Santos, ainda antes da Copa do Mundo da África do Sul.

É curioso que o nível de futebol de Neymar ainda divida opiniões e remeta a tantas dúvidas. Não deveria ser tão difícil confiá-lo um lugar de enorme jogador, para mim o terceiro mais impressionante e impactante desde que surgiu, atrás apenas de dois tótens intransponíveis, Messi e Cristiano. Ainda assim, ele segue questionado, sempre sob prova, como no debate recente sobre ter ou não um lugar na elite inglesa: eu pensava nisso no domingo enquanto Chelsea e Liverpool faziam um jogo de pouquíssima inspiração técnica, com Enzo Fernández, uma ilha de lucidez sem precisar inventar a roda, mediando o bastante para controlar a partida. Sério mesmo que o 10 da seleção nas últimas três Copas não cabe ali?

É como se Neymar, o personagem megalomaníaco forjado desde menino para abraçar o mundo, não conseguisse firmar Neymar, o cracaço de bola que cria formas de driblar e encontrar novos passes a cada final de semana, como unanimidade. Então talvez a grande frustração não seja por parte do público, mas dele próprio, ao não se consolidar como o artista que sempre quis ser. O meio não topou. Torcedores ao redor do planeta, seja do Newcastle ou mesmo da seleção brasileira, acreditam, mesmo, que o time deles pode piorar com a presença do meia-atacante.

Essa indiferença é inédita. Desde que o futebol atropelou qualquer fronteira entre os países, talentos brasileiros em série foram venerados por quem vive o futebol, na arquibancada, na televisão, no videogame, na banca de jornal e, hoje, na rede social. Foi assim com Ronaldo, Roberto Carlos, Ronaldinho Gaúcho ­– nunca houve tamanha rejeição, tanto conforto em não sentir nada por um cara tão genial. Neymar se licencia da grande reunião de jogadores do planeta e a sensação é de que, bom, é o que tem para hoje, fazer o quê?

É o fim de um ciclo que começa ali pelo meio de 2010. O garoto se mostra um talento muito acima da média, conquista os títulos com seu time de formação e, de cara, responde como titular e goleador da seleção principal. Ganha os maiores troféus de clubes nos respectivos continentes, aqui e lá, e aponta para ser o jogador mais valioso do planeta, o mais cobiçado e especial toque na bola do mundo. Seis anos de Paris e inúmeras lesões depois, já ao fim da caminhada de suas referências daquele tempo, ele também desacelera, precocemente.

Claro que Neymar ainda pode voltar aos grandes palcos, como ao que parece é seu desejo, e também ganhar a próxima Copa do Mundo, vai saber. Pode também ainda ter uma nova história aqui no futebol brasileiro, de idolatria e jogos memoráveis. Mas o café servido no avião para Riade é amargo. Não rolou. O mundo do futebol, por tantos motivos, não se dobrou a Neymar, e a saída é sem comoção, quase que como um alívio.

O interessante é que, com ele, o ambiente não aceitou suas diferenças. Neymar foi odiado pelas torcidas ao redor da França, virou meme por se contorcer no chão a cada falta sofrida e acabou se tornando o jogador mais caçado de seu tempo. Talvez tenha lhe faltado maior cuidado físico diante desse seu jogo mental de provocação e um contra um, mas é inegável que volantes, laterais e zagueiros nesses anos lhe desceram o pé sem constrangimento, alheios a uma certa proteção inerente aos mais habilidosos. Nunca foram com sua cara, ponto. Jogar no ‘novo rico’ e buscar brilho próprio sem Messi também não ajudou.

A obsessão por ser a grande estrela mais atrapalhou do que colaborou também por isso, essa falta de aprovação e empatia. Neymar, fazendo chover naquela Champions da pandemia numa bolha em Portugal, foi só o nono jogador mais votado para o prêmio de melhor do mundo em 2020. Messi, que tomou oito com o Barcelona naqueles mesmos dias, e Cristiano, que parou nas oitavas com a Juventus, ficaram muito à frente. E no fim o brasileiro foi quem pior conviveu com essa soberania do argentino e do português, porque com outros parâmetros jamais conseguiu virar o fio para seu jogo, enquanto gente como Modric e Benzema terminarão suas histórias sem tantas dúvidas.

Neymar deixa PSG apresentando menos do que o esperado quando contratado (Foto: Icon Sport)
Neymar deixa PSG apresentando menos do que o esperado quando contratado (Foto: Icon Sport)

No meio disso se consolidou o futebol dos números, e aí comparar a quantidade de jogos e de participações diretas em gols com gente como Halaand e Mbappé se tornou inviável. Neymar queria ser outra coisa, mais o sorriso de Ronaldinho que a eficiência de De Bruyne, e pouca gente veio com ele. Coisas do espírito do tempo, talvez, mais uma dose de submissão ao pai, uma certa antipatia pelo exagero ao marketing e pouca aderência junto a um consumidor atual (sim, consumidor) na forma de encarar a profissão e o esporte. Não coube bancado nesse primeiro escalão pelo preço que custa, e o mundo acabou pequeno. Restou o Al Hilal. E depois? Marte?

Enfim, Neymar não é vítima, longe disso, e sempre foi protagonista de suas escolhas e sua maneira de lidar com o jogo. Por todos esses anos escolheu seu lugar no campo e construiu as jogadas como quis. Talvez não tem o reconhecimento que esperava por quem vê a seleção – não veio o Mundial nem uma campanha de extremo encantamento – nem pelos fãs da Champions League, por nunca ser esse jogador perfeito, essa referência ideal de comportamento, regularidade e influência, terça e sábado, quarta e domingo, sem muitos poréns ou atalhos de personalidade.

Daqui, tratar o campeonato da Arábia Saudita pelo tamanho que tem, uma disputa em que ser campeão, rebaixado, artilheiro ou não tocar na bola não muda em absolutamente nada o tamanho e o legado desses jogadores, tal qual Pelé nos Estados Unidos, Zico no Japão ou o recente êxodo para a China. Nos vemos nos jogos da seleção, quem sabe um pouco mais leve (ainda duvido), batendo uma bola pelos anos que ainda restam. Me diverti muito vendo Neymar jogar bola, apesar da figura tão sem graça. A sensação de falta, no limite, acho que é mais dele, porque o convencimento que parecia tão mais fácil e acessível, preparado para circular pelos principais vestiários do planeta até quando desejasse, deu, num lapso, cedo demais e sem tanta escolha, num fim de semana de Liga Saudita, vá saber contra um time de que cor.

Foto de Paulo Junior

Paulo JuniorColaborador

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.

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