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Neymar na Arábia Saudita é adeus ao alto nível e deixa sensação de frustração

Aos 31 anos, decisão de sair da Europa por um salário astronômico para a Arábia Saudita deixa a sensação que Neymar desistiu de buscar os objetivos esportivos mais altos

A transferência de Neymar para o Al Hilal parece cada vez mais iminente, embora ainda não esteja confirmada, mas será um marco para o futebol brasileiro. Não dos mais positivos. O maior nome da sua geração e com potencial de ser um dos maiores de todos os tempos, Neymar é um craque indiscutível. Mesmo assim, deixa o futebol europeu deixando a sensação de frustração.

Segundo o L’Equipe, Neymar vai trocar o PSG pelo clube saudita por €90 milhões e assinará contrato de dois anos, até junho de 2025. As informações sobre o salário ainda não estão claras, mas é possível que ele tenha rendimentos próximos ao de Cristiano Ronaldo (que recebe €100 milhões por ano do clube e mais €100 milhões por ano em parcerias, incluindo com o governo). O L’Equipe diz que o salário de Neymar pode até mesmo ultrapassar o de Cristiano Ronaldo.

Caso feche mesmo com o Al Hilal, Neymar se unirá a um time de outros grandes jogadores que decidiu ir para a Arábia Saudita. Além de Cristiano Ronaldo, que já estava por lá, Karim Benzema, N’Golo Kanté, Riyad Mahrez, Malcom, Rúben Neves, Fabinho, Sergej Milinkovic-Savic, Marcelo Brozovic, Seko Fofana, Edouard Mendy, Roberto Firmino, entre outros. Confira a lista de contratações do futebol saudita.

O desejo pelo Barcelona e a falta de confiança dos dois lados

Neymar não escondia que o seu desejo era voltar ao Barcelona. Havia problemas, porém: o clube catalão vive uma crise financeira e só poderia oferecer um salário muito mais baixo do que o atual. Atualmente, Neymar recebe cerca de €40 milhões anuais e o Barcelona só chegaria a cerca de €15 milhões anuais.

Além disso, faria o contrato de um ano, no que é chamado no Barcelona de “fórmula Marcos Alonso”: um ano de contrato e, dando tudo certo, o clube conseguindo ir bem e se recuperar e dentro de campo Neymar corresponder, ele receberia uma renovação por valores melhores.

Há ainda outra questão: a diretoria do Barcelona se interessa por Neymar, muito mais do que o técnico, Xavi Hernández, que jogou com o brasileiro no clube. O técnico queria Bernardo Silva, um jogador que se tornou inviável para o Barcelona. O clube catalão apostava que Neymar recusaria as investidas da Arábia Saudita e, assim, não sobrariam muitas opções ao PSG que não fosse rescindir o contrato com o brasileiro. Uma aposta arriscada.

Assim coimo aconteceu com Messi, Neymar não parece convencido. Se baixasse mesmo o salário, Neymar poderia ter mercado em muito mais clubes. O problema seria conseguir um valor pela sua transferência que chegasse perto do que o Al Hilal oferece. Os €90 milhões pela sua transferência que chegasse perto do que o Al Hilal oferece. Dificilmente um clube ofereceria esse valor por Neymar, aos 31 anos e com o histórico de lesões que ele traz. Então, sem isso, só sobrou o Al Hilal e Neymar foi convencido a dar esse passo.

Maior talento da geração e brilho por Santos e Barcelona

Suárez, Neymar e Messi pelo Barcelona em 2017 (Icon Sport)

O surgimento de Neymar é daqueles que faz o futebol brasileiro ser um dos mais admirados no mundo. Quase uma geração espontânea de craques. Neymar mostrou que era craque muito cedo, carregou o Santos para a conquista da Copa do Brasil em 2010 e da Libertadores em 2011. Estava claro que era um jogador muito acima da média e parecia evidente que o futebol europeu o esperava.

Neymar chegou à Europa em 2013, no Barcelona. Um casamento que foi muito bem-sucedido, com grandes atuações títulos e tudo que se esperava do jovem craque. Ele formou um dos maiores ataques da história do futebol, o MSN, ao lado de Lionel Messi e Luis Suárez. Foi artilheiro da Champions League de 2-014/15 ao lado de Messi e Cristiano Ronaldo, marcando gols em todas os jogos das quartas de final em diante. Algo espetacular.

Sua saída em 2017 deixou uma ponta de frustração nos torcedores do Barcelona, que viam em Neymar um craque para atuar por muitos anos, até depois que Messi se aposentasse — nos sonhos catalães, atuando pelos blaugranas, o que, hoje sabemos, também não aconteceu.

Neymar pelo Barcelona:

  • 186 jogos
  • 105 gols
  • 76 assistências
  • Campeão da Champions League
  • 2 títulos de La Liga
  • 3 títulos da Copa do Rei
  • 1 Supercopa da Europa
  • 1 Supercopa da Espanha

Neymar e PSG: grandes atuações, ausências e frustrações

Neymar, do PSG (FRANCK FIFE/AFP via Getty Images)

Para Neymar, a saída do Barcelona era uma tentativa de emancipação. O PSG era um time para chamar de seu, era o grande nome de um projeto de estrelas. Ele seria o líder técnico de um time que tinha as ambições mais altas possíveis.

Seis anos depois, deixa o PSG com números incríveis de gols e assistências e um jogador ainda mais completo. Mesmo assim, dando a sensação que foi menos do que poderia. Conquistou títulos, especialmente da Ligue 1, e chegou perto da Champions League, em 2020, mas não ganhou. E viu o seu protagonismo ser passado a Kylian Mbappé, o craque local, francês, e que era quem sempre estava em campo, quando Neymar por vezes não.

Mesmo com ótimas atuações ao longo desses anos, ele jogou menos vezes, quantitativamente, do que poderia, muito por causa de lesões — o que, evidentemente, não é culpa sua. A frequência com que o jogador se lesiona se tornou um problema para o PSG. A forma como ele lidou com a recuperação muitas vezes também.

A ausência de Neymar, especialmente no segundo semestre de cada temporada, se tornou algo tão constante que seus números deixam evidentes. Mesmo atuando menos anos pelo Barcelona (quatro, de 2013 a 2017) do que no PSG (2017 a 2023), ele tem mais jogos pelo Barcelona (186 a 173). Os blaugranas são o clube onde ele mais atuou.

Teve também o desejo público de sair do PSG em 2019 para retornar o PSG, algo que o clube não permitiu. Depois de uma breve retomada nas boas relações em 2021, com a renovação de contrato que venceria em 2022, tudo que aconteceu depois pareceu piorar a sua situação em Paris.

A sua ótima temporada 2022/23, que fez com que ele chegasse à Copa em excelente forma, foi interrompida por nova lesão — primeiro na Copa do Mundo, pela seleção brasileira, e depois pelo próprio PSG. A temporada acabou mais cedo. E o fim parecia cada vez mais próximo.

Neymar no PSG:

  • 173 jogos
  • 118 gols
  • 77 assistências
  • 5 títulos da Ligue 1
  • 3 títulos da Copa da França
  • 2 títulos da Copa da Liga Francesa
  • 4 Supercopas da França

Um marco de frustração para o futebol brasileiro

Ronaldinho pela seleção brasileira, em 2006 (Getty Images)

Para o futebol brasileiro, é um marco porque o seu melhor jogador troca o futebol europeu pelo futebol saudita aos 31 anos, ainda capaz de jogar muitos bons anos no mais alto nível. É algo que acontece com alguma frequência. Casos como o de Ronaldinho Gaúcho e Adriano deixam a sensação que esses jogadores, que já são enormes, poderiam ter feito ainda mais.

Ronaldinho ainda conquistou todos os títulos possíveis, incluindo uma Copa do Mundo. Adriano poderia ser o herdeiro de Ronaldo por anos, chegando até a Copa de 2014, quando passaria o cetro a Neymar, em sua primeira Copa do Mundo. Naquela Copa, disputada no Brasil, nem Ronaldinho, nem Adriano e nem Kaká (este muito atrapalhado pelas lesões, especialmente a de 2010, quando jogou a Copa no sacrifício) estavam lá para ser a transição. Tudo caiu nas costas de Neymar, então com 22 anos.

Frustração só acontece quando há expectativas e frequentemente está associado a uma admiração. É o caso de Neymar: seu talento o colocou como alguém capaz de ser um dos melhores da história. É uma expectativa da qual Neymar não é responsável, aliás. A expectativa é dos outros, já que não temos como saber qual é a expectativa dele, a não ser que ele fale. Mas é natural que alguém com tanto talento, que chega a níveis tão altos, crie expectativas em toda pessoa apaixonada por futebol, especialmente aqueles que torcem pelos clubes onde eles jogam e pela seleção onde ele jogue.

Se esperava muito de Neymar porque ele é visto como um craque como poucos, um talento que raramente se vê. E, por isso, quando ele decide sair do PSG para ir para a Arábia Saudita aos 31 anos, com ao menos alguns bons anos pela frente com capacidade de atuar no mais alto nível, ainda mais alguém do seu talento, que é tão raro, gera uma sensação de frustração porque se imaginava que Neymar chegaria muito mais longe, seja em nível de atuação que o colocasse no lugar que o seu talento sugeria, como um dos melhores do mundo, seja conduzindo seus clubes às maiores conquistas possíveis, por clubes e seleção.

O caso de Neymar é diferente de Cristiano Ronaldo e Messi, dois craques desse nível de talento excepcional. Além de Cristiano Ronaldo e Messi serem mais velhos (Ronaldo tem 38, Messi 36), eles estiveram no topo. Não só em termos de Bola de Ouro ou prêmios de melhor do mundo, mas em conquistas, em campo. Conseguiram basicamente tudo que era possível. Ambos estão realizados e estão em um lugar de destaque na história do futebol. Neymar sempre será um craque, mas não alcançou esse mesmo nível — justamente mais um motivo para a frustração em quem esperava que ele fosse o herdeiro desses dois craques, o que não se concretizou.

Neymar tem uma história de números espetaculares pela seleção brasileira, que devem o tornar o maior artilheiro com a camisa do Brasil, mas deixou uma sensação de frustração nas Copas do Mundo. Da lesão em 2014 a atuações que não conseguiram mostrar todo seu potencial em 2018 e 2022, ainda que tenha passado mais perto nesta última. Ainda pode ter uma chance em 2026, mas a ida para a Arábia Saudita vai aumentar ainda mais as desconfianças se o dono da camisa 10 do Brasil conseguirá conduzir o time a uma Copa do Mundo, como fez Messi em 2022. O talento seguirá lá, mas as desconfianças aumentarão.

Desejo de voltar que parece descolado da realidade

Neymar, do PSG (Foto: JEFF PACHOUD/AFP via Getty Images/One Football)

Segundo o L’Equipe, Neymar se imagina retornando à Europa depois dos dois anos de contrato com o Al Hilal. Para ele, não se trata de uma aposentadoria ou um campeonato de segunda classe. Neymar quer cumprir o contrato, jogar por lá, mas retornar ao futebol europeu, onde acredita que terá mercado. A ideia é, assim, estar na Europa e jogar a Copa do Mundo de 2026, quando terá 34 anos.

Parece algo descolado da realidade por dois motivos. O primeiro é que Neymar tem dificuldade neste momento para se encaixar no mercado pelas desconfianças que pairam sobre ele. Não se desconfia do seu evidente talento, mas há desconfianças sobre a sua capacidade física. As lesões maltrataram muito o brasileiro, que desde 2017 não consegue ter uma temporada sem lesões.

Há o segundo problema: o salário. Os superclubes criaram um problema no mercado de transferências, que é fazer com que jogadores como Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo não tenham muitas opções para se transferir. Isso porque seus níveis salariais são tão absurdamente altos que dificilmente um clube fora desses que têm dinheiro infinito, como o caso do PSG, podem pagar. Os parisienses são praticamente uma classe à parte em relação a salários, algo que, aparentemente, está em mudança, exceto por Mbappé.

Neymar imaginar que voltará à Europa, ainda com mercado depois de dois anos na Arábia Saudita e com esses problemas junto, parece descolado da realidade, especialmente pensando nos maiores clubes da Europa. É possível que algum clube europeu que atualmente não está entre os que disputam o título da Champions League se interessem em levar Neymar. Mas, aos 33 anos, parece improvável que ele desperte esse tipo de atratividade nos mais poderosos clubes europeus. Mesmo que ele arrebente no futebol saudita, o que é bastante possível.

Até por isso, a ida de Neymar para a Arábia Saudita soa como uma despedida daquele que poderia ter sido um dos maiores de todos os tempos do futebol brasileiro e mundial, mas que tomou caminhos que não o permitiram chegar até lá.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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