Ásia/Oceania

Há cinco anos na Arábia Saudita, Chamusca prefere ‘aproveitar o mercado’ ao invés de pensar em retorno ao Brasil

Pericles Chamusca, treinador do Al-Taawoun, não trabalha no Brasil há 10 anos - e deve durar mais, visto a vontade do brasileiro em seguir no mercado árabe

Técnico do surpreendente Al-Taawoun, quarto colocado no Campeonato Saudita (a frente ao Al-Ittihad de Benzema e Kanté), o brasileiro Pericles Chamusca não trabalha no Brasil há praticamente 10 anos, desde que deixou o Coritiba ao término do Brasileirão de 2013. Na segunda parte da entrevista à Trivela (leia aqui a primeira), ele contou como o mercado de trabalhos no “Mundo Árabe” está aberto hoje e que, no momento, prefere aproveitá-lo ao invés de voltar a treinar no país natal.

Além do Coritiba, Chamusca passou por Botafogo, Portuguesa, Vitória, Santo André (neste, campeão inusitado da Copa do Brasil), dentre tantos outros. Mas apesar de ter bons trabalhos no Brasil, os maiores sucessos da sua carreira aconteceram fora do país, seja no Japão, Catar ou na Arábia Saudita, onde já está há cinco anos, desde outubro de 2018. O primeiro trabalho em solo saudita foi no Al-Faisaly, vencendo a Copa do Rei, passando depois brevemente pelo Al-Hilal antes de chegar ao atual Al-Taawoun, que treina há um ano e cinco meses.

– Sem dúvida que isso em algum momento vai acontecer [retornar ao Brasil]. O momento atual nosso aqui é de aproveitar esse mercado adaptado, conhecendo bem a liga. Eu sou treinador com mais tempo no cargo dentre os estrangeiros aqui na Arábia – exaltou Chamusca, à Trivela.

O técnico brasileiro, dono da quarta melhor campanha em 16 rodadas (falta uma para terminar o turno), soma nesta temporada nove vitórias na Saudi Pro Legue, incluindo uma em cima do Al-Nassr de Cristiano Ronaldo, quatro empates e três derrotas. São 31 pontos somados, três a mais que Ittihad um dos quatro clubes sauditas comprados pelo governo local, e empatado em pontuação com Al-Ahli, outro que faz parte do grupo estatal.

Para além do resultado, Chamusca se mostra orgulhoso do trabalho que faz e detalha a boa recepção que passa a imprensa e torcedores.

– Somos muito felizes aqui porque vê que há um reconhecimento do nosso trabalho por parte dos torcedores e não só deles, vemos que o nosso clube é bem elogiado pela mídia, pela qualidade do jogo, um jogo com características do jogo brasileiro, e conseguimos ter bons resultados com o futebol vistoso e de qualidade. Tudo isso tem sido muito positivo para mim nesse mercado do mundo árabe. É lógico, no futuro, a gente pensa, sim, em retornar e desenvolver um trabalho no Brasil novamente – revelou o treinador de 58 anos.

Pericles Chamusca
Pericles Chamusca durante treino no Al-Taawoun (Foto: Divulgação)

Como foi ver a chegada de CR7, Neymar, Benzema e outros craques na Arábia Saudita?

No cargo desde a metade de 2022, Chamusca acompanhou todo o processo de investimentos na Arábia Saudita. Viu Cristiano Ronaldo dar o primeiro passo, ao chegar em janeiro desse ano, meses depois sendo seguido por Neymar, Benzema e tantos outros ótimos jogadores vindos do futebol europeu.

Questionado sobre um possível desequilibro técnico entre os times, Pericles falou dessa ansiedade com as superestrelas como adversários, mas deu o exemplo da sua equipe, de contratações modestas, que conseguiu competir mesmo na ausência de um orçamento de centenas de milhões de dólares. Ressaltou, no entanto, a falta de reposições no elenco, fator que pode pesar para o restante da temporada

– No início todos ficaram na expectativa de como seria o desenrolar da Liga pelo aumento da qualidade técnica desses jogadores, principalmente nos quatro grandes [Al-Hilal, Al-Nassr, Al-Ahli e Al-Ittihad], e isso causou uma dúvida como seria, uma expectativa muito grande.

– Por exemplo, a nossa equipe não tem o mesmo nível de investimento, mas conseguimos ter uma qualidade coletiva e dos jogadores. Então, termina conseguindo bons resultados. O único problema da nossa equipe é que não temos tantas reposições no mesmo nível, diferente desses clubes grandes que têm muitos jogadores para repor. Quando perdemos atletas por lesões ou suspensão, normalmente não conseguimos manter o mesmo nível – detalhou.

Provocado sobre uma possível inveja, no bom sentido, de ver tanto craque atuando nos rivais locais, Chamusca disse que há uma expectativa que as estrelas também comecem a chegar nos outros clubes além do quarteto local. De toda forma, destacou que já houve um aumento nas receitas das equipes e isso permitiu contratações pontuais. No caso do Al-Taawoun, na última janela, as duas chegadas mais expressivas foram o gambiano Musa Barrow e o brasileiro Andrei Girotto, por 8 e 4 milhões de euros, respectivamente.

– Todos os clubes, todos os treinadores, também têm essa expectativa que algum momento também comecem a vir estrelas para os outros times. Mas já houve um aumento no orçamento das equipes para a contratação de estrangeiros, ou seja, o nível também já é melhor do que anteriormente. Isso dá uma condição do técnico montar uma equipe competitiva com jogadores de qualidade e que não são estrelas. No momento, esse é o ponto principal – disse.

Além dos craques, o técnico percebeu que houve também um olhar especial do governo saudita, que busca limpar sua imagem perante ao mundo através do dinheiro, para a infraestrutura do futebol no país, que receberá a Copa do Mundo de 2034.

– As maiores mudanças foram, primeiro, investimento na infraestrutura dos clubes. O governo está ajudando a implementar as estruturas, não só do time principal, também das categorias de base. Houve um investimento em novos estádios com nível para receber as competições que eles estão planejando participar, a Copa de 2034, Mundial de Clubes, Copa da Ásia, e vários outros eventos ligados ao futebol. Isso faz parte do projeto geral da Arábia Saudita, a visão 2030 de abertura do país para o turismo de uma maneira mais efetiva – concluiu.

A “Visão Saudita 2030” citada por Chamusca é o projeto anunciado pelo príncipe herdeiro do país, Mohammed bin Salman Al Saud, em 2016. A Arábia planeja diversificar sua economia nos próximos sete anos, deixando de ser dependente do petróleo, um recuso finito que deve durar mais 50 anos. Os investimentos para ter novas fontes de receitas estão em todos os setores, comprando ações até da empresa de games Nintendo. A agenda 2030 também busca explorar o turismo no território saudita, trazendo festivais e eventos, caso da Copa do Mundo e o atual Mundial de Clubes.

Os investimentos no futebol, partes da Visão 2023, são chamados de “sportswashing”, termo que se tornou popular a partir dos gastos do Catar no Paris Saint-Germain e depois com a Copa do Mundo de 2022. A palavra significa limpar sua imagem com o esporte. No caso da Arábia Saudita, é um país onde praticamente não há direitos humanos, jornalistas, opositores ao regime e pessoas LGBTQIA+ são perseguidos e presos, as mulheres têm direitos limitados, enfim.

O caso mais emblemático da ditadura sangrenta de Bin Salman foi o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi, um opositor ao governo, dentro do consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia. O repórter foi esquartejado e seu corpo jamais encontrado.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius é nascido e criado em São Paulo e jornalista formado pela Universidade Paulista (UNIP). Escreveu sobre futebol nacional e internacional no Yahoo e na Premier League Brasil, além de eSports no The Clutch. Além disso, atuou como assessor de imprensa no setor público e privado.
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