Argentina

Em lados opostos: A distinta realidade que separa os bairros de Boca Juniors e River Plate

Com origens no mesmo bairro, Xeneizes e Millonarios farão novo capítulo do histórico clássico neste domingo (09), em La Bombonera

BUENOS AIRES – Um bairro que respira o futebol. Assim pode ser definido La Boca, em Buenos Aires, na Argentina, local mo qual a reportagem da Trivela esteve na última semana. O lugar que abriga a lendária La Bombonera, casa do Boca Juniors, vive o esporte em sua totalidade. Basta se aproximar da Avenida Regimiento de Patrícios, que as cores azul y oro começam a tomar conta do ambiente.

Ainda muitas quadras antes do estádio,que receberá um novo capítulo do clássico Boca Juniors x River Plate neste domingo (09), já é possível ver calçadas, casas e postes pintados com as cores do clube xeneize. Faixas nos postes também fazem parte da atmosfera do bairro. Quando a reportagem esteve no local, havia também muitas homenagens ao técnico Miguel Ángel Russo, falecido vítima de câncer, dias antes.

Ao caminhar e ir se aproximando cada vez mais do estádio, o clima de futebol vai aumentando. Logo podemos ver associações de torcedores, locais de concentração de torcida em dia de jogo, e também lojas que vendem camisas e objetos relacionados ao esporte. Claro que o Boca Juniors predomina, mas é possível encontrar itens de vários clubes estrangeiros, inclusive muitos brasileiros.

Uma loja próxima ao estádio tocava hino de alguns clubes. Enquanto a reportagem esteve no local, era possível escutar os hinos de Flamengo, que recentemente garantiu a vaga à final da Libertadores em uma partida disputada na Argentina, Vasco e Corinthians. Ímãs e produtos dos principais campeonatos do continene também eram vendidos nas lojas próximas.

É curioso ressaltar que praticamente todas as pessoas que estavam no local eram turistas, de todas as partes do mundo, que estavam ali em busca de conhecer o bairro, o estádio do Boca Juniors e todo o conjunto de murais sobre futebol, política e causas sociais que alí estão (como o registrado abaixo). Para os turistas fãs de futebol, o local é, há muito tempo, parada obrigatória no roteiro de viagens.

Dentre estrangeiros, estavam também alguns “locais” que visitavam também os prédios do clube e aproveitavam para comprar camisas e objetos na loja oficial da equipe.

Bairro de La Boca é composto por murais
Bairro de La Boca é também composto por murais. Foto: Gabriella Brizotti/Trivela

O bairro de La Boca, no início do século passado, antes da fundação dos clubes de futebol na região, era um local portuário, onde moravam trabalhadores do porto e viajantes de origens humildes. Mesmo após a criação de Boca Juniors e River Plate sim, o rival também tem as mesmas origens do azul y oro , o local seguiu sendo popular, se mantendo assim até os dias atuais.

Hoje em dia, o bairro, ainda que tenha o porto nas redondezas, já não é exclusivo de funcionários, no entanto, é um local totalmente bostero, [termo usado para se referir a um torcedor do Boca Juniors]. Não há praticamente pessoas que vivam naquela região que não torçam ou acompanhem o clube, tamanha é a identificação do local..

No caso do Boca, há algo peculiar: o clube é, ao mesmo tempo, territorial e desterritorializado. O bairro de La Boca continua sendo profundamente boquense — ainda é um bairro pobre, muito popular, e onde praticamente todo mundo torce para o Boca.  E, segundo as poucas pesquisas que foram feitas (todas sem muito rigor, sem um estudo sociológico sólido), há mais torcedores do Boca do que do River. Mas, repito: há mais mitologia do que fatos — começou a explicar o sociólogo argentino Pablo Alabarces à Trivela.

— A ideia de “la mitad más uno” (“a metade mais um”, em português), por exemplo, é um excelente slogan — mas é falsa. Claro. Entende-se perfeitamente isso, porque é algo que sempre se ouve — que Boca tem “a maioria do povo”. Mas ninguém provou, e ninguém vai provar. E ninguém vai se preocupar em provar nem em refutar. Por quê? Porque o futebol não é só futebol. Ele também é um conjunto de componentes emotivos e simbólicos que fazem parte da teia de significados que estão em jogo. Então, aí, a opinião sociológica é inútil. Se você disser a um torcedor do Boca “vocês não são a maioria”, ele vai rir e responder: “Sim, somos a maioria”. E não importa se dá para provar ou não — seguiu.

Casas e construções do bairro de La Boca
Casas e construções do bairro de La Boca. Foto: Gabriella Brizotti – Trivela

Núñez, casa do River Plate, um bairro ‘millonário’

Para chegar até a casa do River Plate, saindo de La Boca, é necessário cruzar a cidade de Buenos Aires. Cerca de 15 km separam os estádios e isso diz muito sobre cada equipe.

Localizado em Núñez, ainda que muitos digam que se trata de Belgrano, o estádio Mâs Monumental está em uma região completamente diferente da do rival histórico. Com construções mais modernas ao redor, é difícil achar algo relacionado ao futebol que não seja o próprio estádio. Não há lojas pelas ruas, casas pintadas de vermelho e branco, muito menos parrillas vendendo choripán, com exceção aos dias de jogos, naturalmente.

Diferente de La Boca, que você sabe que está chegando ao perceber as referências futebolísticas, na casa do River Plate você só sabe que está próximo ao ver o imponente estádio no horizonte. Com mais de 85 mil lugares, o maior estádio da América do Sul é facilmente visto de longe. Na sua entrada, uma estátua de Marcelo Gallardo e outra de Ángel Labruna, ambos jogadores e técnicos históricos do River Plate.

Museu River Plate
Museu do River Plate fica próximo ao estádio. Foto: Gabriella Brizotti´Trivela

Para comprar uma camisa do clube millonario, é necessário acessar a loja oficial do clube no Munumental, uma vez que não há outras opções próximas ao estádio. No entanto, algo que não muda é a constante presença de turistas no local.

Pessoas de diversas nacionalidades se aproximam do imponente estádio e tiram fotos na faixada, nas estátuas e também formam filas enormes para conseguirem comprar entradas para o tour e o museu dentro da cancha. O mesmo acontece no bairro de La Boca.

—  Em 1931/32, o River comprou o melhor jogador de outro clube, Tigre — Bernabé Ferreira —, pagando uma fortuna. Daí vem o apelido de “millonarios”. Ou seja, um clube com grande poder econômico — o que não significa que seus torcedores fossem milionários — explica Alabarces.

bairro River Plate
Bairro do River Plate é bastante arborizado e tem poucas referências ao futebol. Foto: Gabriella Brizoti

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Fundados no mesmo bairro e separados com o passar do tempo

Atualmente, Boca e River se encontram em extremos da cidade, no entanto, isso nem sempre foi assim. No início do século passado, quando ambos os times foram fundados, ambos estavam localizados no bairro de La Boca.

Os Millonários foram fundados em 1901, após a fusão dos clubes La Rosales e Santa Rosa, ambos localizados em La Boca. Quatro anos mais tarde, no mesmo local, surgia o Boca Juniors, formado por um grupo de imigrantes italianos.

Parece estranho pensar que o River permaneceu em La Boca por um grande período de sua história, mas assim aconteceu. Junto com o seu vizinho, dividiram o bairro por quase 20 anos. Nascia assim uma das maiores rivalidades do mundo.

Inclusive, existem registros de que as antipatias recíprocas começaram neste período, com uma rivalidade entre os jovens do bairro, que queriam que o seu clube fosse superior ao outro.

— No princípio, era como rusga entre vizinhos. Pense no que era olhar pra cara do seu rival na esquina de casa após uma derrota, imagine as piadas e gozações. Além disso, River e Boca sempre tiveram jogadores que passaram de um time para o outro. E não há pior rivalidade que a motivada por ganhar daquele que há pouco tempo estava ao teu lado e te traiu. Ano após ano, equipe após equipe, os jogadores foram herdando esse sentimento de revanche — define Osvaldo José Gorgazzi, vice-presidente do Museu do River Plate e membro do CIHF, o Centro para a Pesquisa da História do Futebol.

Estátua de Marcelo Gallardo nas proximidades do estádio do River Plate. Foto: Gabriella Brizotti – Trivela

Os anos se passaram e tanto River Plate quanto Boca Juniors acabaram sendo despejados de seus campos, visto que a região passava por grandes transformações urbanas. Os Xeneizes foram jogar em Wilde, aproximadamente 10 quilômetros da capital Buenos Aires. Depois, foram pulando de cancha em cancha, até chegar ao terreno onde está a Bombonera atualmente.

O River foi para Sarandí, após trocas de estádios, se firmou no bairro de Palermo [hoje também um dos mais luxuosos da cidade], com um estádio com capacidade para 10 mil pessoas. Despejado novamente, acabou se mudando para Núñez, local em que está fixado até os dias atuais. O Monumental de Núñez, por exemplo, recebeu seu primeiro jogo em 1938. Já La Bombonera foi inaugurada em 1940.

— Em cidades grandes, com muitos times, as razões que explicam os clássicos são mais complexas. No caso de River–Boca, elas são absolutamente históricas. Têm a ver com o fato de que originalmente ambos dividiam o mesmo território, foram fundados no mesmo bairro. Ou seja, é uma rivalidade nascida dentro de um mesmo espaço. Quando o River se muda, a rivalidade já estava formada. E, como são clubes antigos, sobre isso se construiu uma mitologia: o time católico e o protestante, o rico e o pobre, o nativo e o imigrante, o branco e o negro — afirma Pablo Alabarces.

Comércios próximo a Bombonera
Comércios próximos a Bombonera mantém as referências futebolísticas. Foto: Gabriella Brizotti – Trivela

O River Plate passou a ser chamado de Millonário e ostentou tal discurso, afirmando que carregam uma grandeza e nobreza em seus valores. Por outro lado, o Boca manteve a sua raiz e bate no peito orgulhoso se afirmando o ‘time operário’, o ‘time do povo’.

— O que acontece é que essas são mitologias — não há uma relação sociodemográfica, não há sociologia aqui, há cultura– explica Alabarces.

— Claro que a mudança de território, de uma área mais popular para uma com maior presença de classe média, influencia — mas só simbolicamente, porque o norte de Buenos Aires, nos anos 1930, não era o que é hoje. Não era uma região de ricos. Então, essa relação, insisto, é mais mítica do que social — segue o sociólogo.

Não é difícil, inclusive, ver em discussões entre as equipes, Xeneizes dizendo que o adversário é elitista e arrogante, enquanto o segundo ganha fama de demagogo e desonesto. Os estereótipos ganham força entre os torcedores, que usam essas temáticas para se atacarem.

— Esse clássico nasceu justamente no momento da explosão da cultura de massas ligada ao futebol, o que o tornou um fenômeno nacional. É o único clássico que se tornou nacional — não apenas local. Na verdade, eu costumo discordar de quem diz que River–Boca é o “grande clássico argentino”, porque o nível de emoção em Rosario (Rosario Central x Newell’s Old Boys) ou em La Plata (Gimnasia x Estudiantes) é possivelmente maior. Nessas cidades, a população se divide ao meio — afirmou Pablo.

— Em Buenos Aires, a cidade não se divide em duas, e o país tampouco. Nesse sentido, acredito que há mais carga emotiva em Córdoba (Belgrano x Talleres) ou em Tucumán (San Martín x Atlético). River–Boca, ao contrário, não é um clássico que divide uma cidade em duas partes. A diferença é que eles se tornaram os dois grandes clubes nacionais. Trazendo um exemplo para o Brasil, Flamengo–Fluminense, por exemplo, não é o mesmo que River–Boca, porque é um clássico local. River–Boca é um clássico nacional, e isso o torna especialmente peculiar — tem menos relação com o território e mais com a história — completou.

Foto de Gabriella Brizotti

Gabriella BrizottiRedatora de esportes

Formada em jornalismo pela Unesp, sou uma apaixonada pelo esporte em geral, principalmente o futebol. Dentre as minhas paixões, está o futebol argentino e suas 'hinchadas'.

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