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Rivais que nascem vizinhos: O avesso do avesso de River Plate e Boca Juniors

*Por Gustavo Mehl Figueiredo

Conta a história, conhecida por qualquer morador de Buenos Aires, que os dois maiores clubes da cidade foram fundados no mesmo bairro. Às margens da esquina em que o Riachuelo deságua no Rio da Prata, junto ao porto por onde ideias e pessoas chegavam pra formar uma metrópole, Boca Juniors e River Plate nasceram, vizinhos, quase irmãos, como se o destino já tivesse planejado a histórica rivalidade.

Sim, pra quem não sabe: o River Plate foi fundado no dia 25 de maio de 1901 no seio do bairro de La Boca, hoje incontestavelmente um terreno nada amistoso para o clube, aonde empatou o primeiro jogo da superfinal da Libertadores. O Boca Juniors, por sua vez, hoje imperador soberano daquela região, foi fundado quatro anos mais tarde, em 1905. Os dois compartilharam o bairro por quase 20 anos. No engatinhar dos gigantes, seus campos de jogo chegaram a ser separados por apenas uma quadra, entre as ruas Pedro de Mendoza e Gaboto.

Há registros de que as antipatias recíprocas começaram desde então, como uma espécie de briga entre ‘pibes’ do bairro. “No princípio, era como rusga entre vizinhos”, define Osvaldo José Gorgazzi, vice-presidente do Museu do River Plate e membro do CIHF, o Centro para a Pesquisa da História do Futebol. “Pense no que era olhar pra cara do seu rival na esquina de casa após uma derrota, imagine as piadas e gozações”, comenta, lembrando que a proximidade geográfica é quase uma regra nas rivalidades históricas entre times de futebol. “Além disso, River e Boca sempre tiveram jogadores que passaram de um time para o outro. E não há pior rivalidade que a motivada por ganhar daquele que há pouco tempo estava ao teu lado e te traiu”, diz o pesquisador. “Ano após ano, equipe após equipe, os jogadores foram herdando esse sentimento de revanche”.

Mas afinal, quando e por que o River Plate saiu de La Boca?

Pelas ruas do bairro, até hoje torcedores ‘xeneizes’ – isto é, do Boca – contam a romântica história de que, só havendo espaço para um, os clubes decidiram dentro das quatro linhas quem permaneceria. E que o River Plate, derrotado, teve que sair. Trata-se, no entanto, apenas de uma lenda curiosa. Não há qualquer registro de que esta partida tenha de fato acontecido. “As mentiras aumentam a rivalidade. Essa versão é um absurdo completo”, sentencia Osvaldo.

Na realidade, tanto River quanto Boca foram despejados de seus campos em diferentes momentos. Era uma época de grandes transformações na região do porto e em toda a cidade de Buenos Aires. O Boca Juniors chegou a jogar nos arredores da capital, em Wilde, 10 quilômetros ao sul, e pulou de cancha em cancha em La Boca até se estabelecer no terreno da Bombonera. O River Plate passou por Sarandí, teve que emprestar campos em outros bairros e também pulou de cancha em cancha em La Boca. Quando se firmou chegou a construir no bairro um estádio com capacidade para 10 mil pessoas, onde ficou até sua despedida derradeira, em 1923, despejado pela empresa dona do terreno.

Recorte de jornal de 13 de maio de 1917, data em que o River inaugurou as novas arquibancadas do seu estádio na rua Aristóbalo del Valle, em La Boca (fonte: viejosestadios.blogspot.com)

Ainda assim, uma pergunta permanece: por que “milionários” e “bosteiros” – como são conhecidos torcedores de River e Boca – afirmam identidades tão antagônicas, se nasceram do mesmo lugar?

Bem, é notório, de fato, que os argentinos costumam afirmar imagens contrastantes para os clubes: o ‘hincha’ do River Plate ostenta discursos que carregam uma grandeza e uma nobreza em seus valores; o do Boca bate no peito orgulhoso de sua raiz operária e popular. Quando se atacam, o primeiro ganha pecha de elitista e arrogante, o segundo de demagogo e desonesto. Nada é certo, nada é errado, nenhum tem razão: são todos, afinal, torcedores.

Independente disso, estes estereótipos são marcados e repetidos, tanto positiva quanto negativamente. Osvaldo Gorgazzi nos conta que é possível identificar um embrião dessas identidades no início dos tempos: “O River tinha entre seus associados alguns estudantes. Seu primeiro presidente foi posteriormente médico e deputado”, explica. “Nota-se que o River sempre soube procurar pessoas que podiam colaborar com o clube”, completa bem-humorado o pesquisador, deixando ele próprio escapar sua porção torcedora. E demarca: “É importante lembrar que a alcunha de ‘milionários’ do River não surgiu por uma questão classista, mas pela compra do jogador Carlos Peucelle em 1931, logo no primeiro ano de profissionalismo, quando os outros clubes ainda nem pensavam em fazer contratações”.

E os torcedores do Boca, o que opinam?

Luciano Caldarelli é uma das lideranças do ‘Boca es Pueblo’ – ou ‘Boca é Povo’ –, movimento de torcedores que reivindica com ações políticas o lado popular do Boca Juniors, em frontal oposição à administração atual. Ele diz: “O Boca não existe sem o bairro. É o bairro, com sua gente e sua História, que dá vida e sentido ao clube, e não o contrário”.

Luciano é convicto de que a saída do River de La Boca se deu porque os seus associados não se reconheciam com o bairro de classe operária. “Quando o Boca Juniors teve que ir para outro bairro, a população daqui reclamou a sua volta. Os jogadores eram daqui, os associados eram daqui, e voltamos. O River deu as costas pro bairro e nunca mais voltou”, diz, taxativo, o torcedor, com um sorriso de canto de boca. “Um clube reunia a classe alta profissional do bairro, com integrantes da maçonaria, políticos fundadores da Unión Cívica Radical, o primeiro partido argentino. Já o Boca descende dos estivadores do porto, dos carvoeiros da linha férrea… Era gente do povo”, completa.

Paixões à parte, é verdade documentada que o River Plate nasceu e deu seus primeiros passos na zona portuária, mas que após 1923 saiu pra ganhar a maioridade fora, e nunca mais voltou. E que teve como destino os bairros mais abastados da zona norte da cidade. Esteve por anos em Recoleta, passou por Palermo e se firmou em Belgrano, na divisa com Núñez, onde construiu o Monumental, colosso do futebol argentino. Gorgazzi atesta, mas pondera: “Até a compra do terreno do Monumental, em 1934, o River manteve seus escritórios em La Boca. Hoje em dia, os dois times têm torcedores em todas as classes sociais”.

Entre registros históricos, identidades construídas e relatos apaixonados, esta é uma afirmação inegável. É possível encontrar torcedores de Boca e River por todos os lados, de Porto Madero até a Villa 31, de Bariloche até Misiones, da Casa Rosada até o lixão de Villa Basural. Neste sábado, mais uma vez, todos estarão parando a Argentina para assistir ao reencontro na final mais esperada da história do país.

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