Argentina

Idolatria e gratidão: Como a Copa de 2022 mudou a relação dos argentinos com sua seleção

Três anos após a conquista, campeões mundiais seguem em alta (e por todos os lados) na Argentina

BUENOS AIRES – A Copa do Mundo de 2022 foi um divisor de águas na Argentina. O torneio não deu apenas o terceiro título mundial para a seleção albiceleste, como também aguçou o sentido de pertencimento e orgulho nacional. Além disso, fez com que os jogadores se convertessem em heróis e passassem a ser amados por toda a nação, independente de clube ou gostos pessoais.

Angel Di Maria, por exemplo, que hoje atua no Rosario Central e sempre teve seu nome ligado aos Canallas, passou a ser amado também por torcedores do Newell’s, seu principal rival. É possível também ver Julián Álvarez e Enzo Fernández, dupla ex-River Plate, sendo exaltada por hinchas do Boca Juniors.

Assim como Lionel Messi, que antes era bastante contestado por parte dos argentinos, se tornou unanimidade no país, colocado muitas vezes ao lado de Diego Armando Maradona, considerado um Deus para os argentinos.

Seleção argentina campeã: Título amenizou rivalidades?

Um título de Copa do Mundo pode alterar percepções, transformar atletas contestados em heróis e fazer com que um rival se torne ídolo pelo fato de ter conquistado o troféu mais desejado do planeta.

Minha relação com os campeões do mundo identificados com o River Plate é muito boa. Eles conquistaram tudo com a seleção argentina, levaram a equipe ao topo do mundo e foram peças fundamentais para a conquista da Copa do Mundo do Catar em 2022 — contou o torcedor do Boca Juniors, Jonathan Basiano à Trivela, ao se referir a Enzo Fernández, Julián Álvarez e Otamendi.

Até mesmo atletas que não tiveram muita participação na conquista, que permaneceram no banco de reservas e foram pouco utilizados, se tornam parte da história e passam a ser amados por toda uma nação. Geronimo Rulli, por exemplo, arqueiro reserva, que sequer entrou em campo, também é tratado como ídolo por muitos, afinal, pode não ter ajudado dentro de campo, mas foi importante nos bastidores e vestiário daquela campanha histórica.

O título de 2022 — o primeiro após 36 anos — mudou completamente a visão que os argentinos possuíam de sua seleção. O troféu da Copa América em 2021, já havia dado um gostinho especial aos hermanos, no entanto, foi o Mundial disputado no Catar que coroou e fez ascender ainda mais o espírito patriota dos hermanos.

Dibu Martinez - Propaganda
Dibu Martinez é garoto propaganda em Buenos Aires. Foto: Gabriella Brizotti/Trivela

— Sinceramente, quando chega a Copa do Mundo, eu esqueço que sou torcedor do River. Claro que a gente sempre guarda um carinho especial pelos ex-jogadores do clube, mas durante o Mundial, enquanto é a seleção que está jogando, não existem camisas de clubes — pelo menos pra mim, como torcedor do River — explicou à Trivela o torcedor millonario Damián Depaoli, se referindo a Leandro Paredes, Nahuel Molina e Alexis Mac Allister, campeões mundiais que tiveram passagens pelo Boca Juniors.

— A verdade é que eles fizeram uma Copa do Mundo excelente. Acho que, dos três, o mais destacado foi Mac Allister — e ele tem chance, se mantiver o nível que mostrou naquele torneio e nos campeonatos seguintes, de estar entre os grandes da história argentina. Porque o próximo Mundial será da geração dele, do Enzo Fernández, do Julián Álvarez — completou.

Apesar da aceitação quase que geral, há, obviamente, exceções nas quais a rivalidade entre clubes fala mais alto. Há quem diga que é agradecido pelo o que os ‘rivais’ fizeram pela seleção, mas que a relação não é a mesma se comparado com outros atletas.

— Eu os respeito, acho que são ótimos jogadores que deram muito à Argentina. Não diria que os odeio (enquanto não estiverem vestindo a camisa do River), mas não sinto o mesmo carinho que um torcedor do River pode ter por eles. Pra mim, tanto faz — afirmou o torcedor xeneize Maximiliano Sotomayor à Trivela.

Caminhando por Buenos Aires, não é difícil encontrar publicidades, murais e desenhos em homenagens aos atletas campeões. São diversos prédios, casas e localidades que fazem menções aos jogadores que participaram da disputa de 2022, mesmo em 2025, três anos após a conquista.

Lionel Messi, de longe, é um dos mais homenageados. Existem espalhados pela Argentina desenhos e pinturas exaltando o ídolo. Pela avenida 9 de julho, principal via da capital portenha, é possível ver várias caricaturas e grafites do camisa 10. Em alguns, Messi aparece sozinho, em outros em companhia de ídolos históricos, como Maradona. Também é possível ver o atleta do Inter Miami erguendo a famosa taça da Copa do Mundo em mãos.

No entanto, engana-se quem pensa que a idolatria do camisa 10 é consolidada há tempos. Até a conquista da Copa América em 2021, o atleta era bastante contestado por parte dos argentinos. Havia quem sustentasse que Messi não se dedicava tanto a sua seleção, e que seu foco era, nada mais que, o futebol europeu — onde atuou na maioria da sua carreira.

Durante alguns anos, o ídolo chegou até mesmo a não cantar o hino de sua seleção. A atitude gerou debates e críticas, dando ainda mais argumentos a quem dizia que Messi não representava o seu povo.

— Não canto de propósito. Se você não mudar nada, a estupidez não vai embora. Cada um vive de uma maneira. Os Pumas (apelido da seleção argentina de rugby) choram na hora do hino, nós, não. Chegamos à final da Copa do Mundo no ano passado e estivemos na decisão da Copa América. Foi como se não tivéssemos feito nada. Seguimos escutando críticas. Não ganhamos, mas não perdemos nas oitavas — disse Messi em 2015, em entrevista a ‘TyC Sports’.

Messi e Maradona
Messi e Maradona são retratados juntos em murais na cidade de Buenos Aires. Foto: Gabriella Brizotti/Trivela

Após a conquista da Copa América em 2021, o primeiro título de Lionel pela Albiceleste, a relação do jogador com a hinchada passou a ser ressignificada. O atleta começou a ser visto como um ídolo nacional, mas faltava o troféu da Copa do Mundo para que essa relação, de fato, fosse concretizada.

Nos primeiros anos de Messi, eu não era muito fã dele. Achava que era um produto que se dava muito bem no Barcelona — ele tinha muito sucesso lá —, mas eu não conseguia entender por que não tinha sucesso na seleção. Depois entendi que o Messi gosta muito de jogar em equipe e que depende muito de um time. Ele é um ídolo, um dos mais importantes da Argentina junto com o Maradona. Acho que é um exemplo para todos, especialmente para os jovens — um exemplo como esportista. E, à medida que o Messi foi amadurecendo, minha opinião sobre ele também foi mudando — contou a argentina Noelia Costa.

A conquista de 2022, que teve Messi como protagonista indiscutível, fez com que os argentinos que o criticavam passassem a amá-lo, e aqueles que já amavam, seguissem apoiando incondicionalmente o melhor do mundo em oito ocasiões.

— Quando ele se tornou campeão do mundo, apaguei todas as críticas que tinha feito a ele no Twitter, porque, sim, fui uma das pessoas que o criticou muito. Quando ele disse que ia embora, fui uma das que falou: “Que bom que vai, que nunca mais volte.” E depois, durante a Copa do Mundo, pedi perdão de joelhos, porque, enfim… o futebol desperta essa paixão que às vezes faz a gente deixar de ver bem as coisas — explicou Noelia.

Lionel Messi em mural em Buenos Aires
Lionel Messi em mural em Buenos Aires. Foto: Gabriella Brizotti/Trivela

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Gratidão à Messi e companhia

A conquista de 2022 se tornou ainda mais especial devido ao tempo em que a Argentina ficou sem erguer o troféu tão sonhado: 27 anos. Além disso, em 2014, a Albiceleste havia batido na trave, ficando com o vice-campeonato ao ser derrotada para a Alemanha na grande decisão.

Depois, conseguiu colocar fim no jejum de títulos em 2021, vencendo o rival Brasil, dentro do Maracanã, na final da Copa América daquele ano. Essa sequência já demonstrava que a nova geração argentina estava se tornando uma das mais fortes do mundo.

No entanto, mesmo para chegarem ao nível que alcançaram, os atletas precisaram superar muita desconfiança e dúvidas sobre suas capacidades. Muitos, até mesmo, eram considerados desconhecidos, o que fazia com que até o treinador Lionel Scaloni fosse bastante contestado.

— Antes de conquistarem essas competições, os jogadores campeões do mundo no Catar 2022 e das Copas América de 2021 e 2024 eram vistos de uma forma totalmente diferente do que são agora. Mérito de Scaloni por convocar jogadores que talvez não fossem muito conhecidos e que, ao vencerem tudo, passaram a ser vistos como heróis nacionais — afirmou o torcedor Jonathan Basiano.

Mural Di Maria
Mural de Di Maria em Buenos Aires. Foto: Gabriella Brizotti/Trivela

Vencer o Brasil em pleno Maracanã e conquistar a Copa América após um longo jejum, fez com que grande parte dos torcedores passassem a olhar com mais carinho aos jogadores que defendiam sua camisa. Mas foi a Copa do Mundo de 2022, que, de fato, mudou completamente essa visão e mudou o status duvidoso para unanimidade.

Nas ruas de Buenos Aires, por exemplo, as camisas da seleção, que antes se resumiam a Messi, passaram a levar o nome de praticamente todos os convocados para o Mundial de 2022. Pela cidade é possível ver adultos e crianças levando com orgulho o nome de vários atletas nas costas.

A gratidão do povo é imensa. A devoção das pessoas por eles é gigantesca. Para muitos, foi passar do nada ao tudo; e para outros, foi tirar um peso das costas, eliminar qualquer dúvida que alguém ainda pudesse ter sobre eles — diz Damián Depaoli.

Propaganda De Paul
Propaganda com De Paul em Buenos Aires. Foto: Gabriella Brizotti/Trivela

Jogadores ou garotos propaganda?

O título da Copa do Mundo de 2022 fez com que os atletas responsáveis ganhassem muita visibilidade no país. Até mesmo aqueles que jogaram muito pouco por clubes argentinos. O goleiro Dibu Martinez, por exemplo, fez apenas as categorias de base no Independiente, e depois rumou para o Arsenal, da Inglaterra.

Como profissional, o arqueiro passou pelo futebol inglês e espanhol, e atualmente é o titular absoluto do Aston Villa, da Premier League.

Mesmo com a pouca relação com a torcida argentina, o goleiro se tornou um dos jogadores mais amados do país. Suas defesas importantes na conquista do título, incluindo a da grande final contra a França, o colocaram em uma das prateleiras mais altas do futebol nacional. Dentre as crianças, se tornou o jogador favorito por ser carismático e divertido. Se antes os pequenos argentinos queriam ser atacantes por Messi, agora há também quem sonhe em se transformar em um goleiro por Dibu.

Por conta dessa idolatria, o arqueiro se tornou um dos atletas mais disputados para figurar campanhas publicitárias na Argentina. A cara de Dibu Martínez parou de ser vinculada somente ao esporte e começou a representar diversas marcas por todo o país.

Lâminas de barbear, fast food, medicamentos, casas de apostas, entre outras, tiveram como garoto propaganda o arqueiro. Caminhando por Buenos Aires é possível ver o rosto do marplatense estampado em pontos de ônibus, folhetos e outdoors. Isso sem contar as propagandas televisivas e de rádio que utilizam o atleta para se promover.

Dibu Martinez
Dibu Martinez em ponto de ônibus de Buenos Aires fazendo propaganda de marca de sabão em pó. Foto: Gabriella Brizotti/Trivela

Até mesmo um lanche da rede de fast-food ‘Mostaza’ foi batizado em nome do jogador. O ‘Mega Dibu’ faz muito sucesso por todo o país, mesmo anos após a conquista do Mundial.

— Havia certa desconfiança, uma dúvida — “por que esse cara, que nem é titular no clube, está aí?”. Já tinha acontecido algo parecido com o Chiquito Romero em 2014. E a verdade é que não foi só porque a Argentina ganhou — foi porque ela venceu com um papel muito importante dele. Nos jogos decisivos, Dibu Martinez teve atuações incríveis, não apenas nos pênaltis, mas também durante as partidas. Muita personalidade, muita garra, sempre ajudando os companheiros e fazendo defesas que ninguém entende como ele consegue, quase milagrosas — conta o torcedor Damian Depaoli.

— Ele é um cara com muita personalidade — tanta que, quando recebeu a Luva de Ouro, fez aquele gesto. Parecia um menino da escola, um adolescente. Ele é um adulto, claro, mas aquilo refletiu perfeitamente a personalidade dele, a alegria imensa que ele estava sentindo naquele momento. Ele, de fato, foi a principal surpresa daquela Copa. Não sei se existe outro goleiro da seleção melhor que ele. Porque, mesmo os outros campeões do mundo, embora tenham sido bons, não tiveram um desempenho tão explosivo e determinante. Sinceramente, sem o Dibu Martínez no nível em que esteve, a Argentina não teria chegado tão longe — completou o torcedor.

Enzo Fernandez garoto propaganda
Propaganda com Enzo Fernandez em Buenos Aires. Foto: Gabriella Brizotti/Trivela

Dibu Martinez não está sozinho nessa. Outros campeões do mundo também foram contratados para peças publicitárias. Angel Di Maria, por exemplo, deu cara a marcas de cerveja e casas de apostas. Julian Álvarez foi garoto propaganda de uma marca de desodorantes, e claro, Lionel Messi também protagonizou diversas campanhas por todo o país.

— Antes da Copa do Mundo os jogadores já eram queridos, porque já tinham quebrado a sequência de mais de 28 anos sem ganhar um título. Vinham jogando muito bem, e já tinham formado um ótimo grupo. Depois do Mundial, conquistaram ainda mais o carinho e o respeito das pessoas. Passaram a ser heróis — explicou o torcedor Maximiliano Sotomayor.

Foto de Gabriella Brizotti

Gabriella BrizottiRedatora de esportes

Formada em jornalismo pela Unesp, sou uma apaixonada pelo esporte em geral, principalmente o futebol. Dentre as minhas paixões, está o futebol argentino e suas 'hinchadas'.

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